a lição da praia
fevereiro 17, 2008 | por Cândido Gomes | Envie por email | Salvar/Bookmark
Cresci numa ilha. Isso não é muito romântico, quando se divide o espaço com mais umas oitocentas e tantas mil pessoas, mas morar a poucos minutos da praia me ensinou algumas lições que nunca vou esquecer.
Lembro que, ainda pequeno, cria como ninguém em miragens. Desconhecendo a existência de um grande porto ali por perto, ficava encantado com a freqüência com que elas apareciam - todas as vezes que eu olhava o horizonte.
Lembro dos baldes e pás especiais para praia e dos castelos feios que conseguia fazer. Lembro que chamava de biquíni minha sunga. Lembro do medo que meu irmão menor tinha de água-viva. Lembro de um dia em que quase me afoguei, mas não contei nada para minha mãe.
Lembro dos primos que vinham de longe e de sua reação ao conhecerem o mar. Para mim era estranho. Para mim o mar sempre foi grande, sempre maior que a televisão. Era como se eu o conhecesse desde sempre.
Lembro, no entanto, com mais carinho das vezes que ia a pé à praia com meu pai. A gente acordava cedo e chegava lá a tempo de ver o sol acabando de nascer. Lembro das corridas que ele me deixava vencer, dos mergulhos que me deixava dar, saltando de suas costas. Mas lembro de algo mais. Lembro de como gostava de encontrar, no dia seguinte, as pegadas que eu tinha deixado na beira do mar. E lembro o segredo do meu sucesso de todas as vezes: era só procurar as marcas de um pé bem pequeno - como os meus - acompanhadas de marcas dos maiores pés do mundo - os pés do meu pai. Assim, me divertia encaixando meus pés no espaço aberto pelos pés que eu queria seguir.
Hoje voltei àquela mesma praia. Cresci e já não olho a vida com a mesma inocência e otimismo daqueles dias. Geralmente quando vou à praia penso na vida. Penso em minha família. Penso em Deus. Sozinho, gosto de repensar meus passos, analisar escolhas e encarar de frente o futuro. A que altura da vida estou? De que lado tenho andado? Aprendi que, mesmo no mundo de gente grande, ainda é fácil saber. Basta procurar as pegadas certas - as pegadas do Pai. Não há maneira mais segura de andar (e viver) do que seguindo as pegadas que Ele deixou ontem. Segure Sua mão e lhe entregue os passos.
Vá em frente.
Sobre o autor
Observador das pequenas nuances, o estudante de teologia Cândido Gomes, nos empresta seu talento da escrita para nos presentear com reflexões semanais. Todos seus textos podem ser lido no seu blog.
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