A paz que você quer

abril 22, 2008  |  por Regina Mota  |  8 Comentários  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

O que o compositor evangélico e O Rappa têm em comum? Não tenho idéia. Provavelmente várias coisas. Talvez nada. Mas ouvindo “Muito Mais”, de , não consigo deixar de conjecturar sobre as similaridades entre sua linha de pensamento e as idéias encontradas na canção “Minha Alma – a paz que eu não quero,” composta por Marcelo Yuka, ex-baterista e um dos fundadores da banda carioca. As duas canções falam de uma paz que não tem nada a ver com falta de luta.

Desde os tempos do ensino básico, quando aprendemos os antônimos, a palavra paz geralmente aparece em oposição a guerra. Mas antes de chegar ao ensino médio, já sabemos que por muito menos que uma guerra perde-se a paz. Há razões de sobra. Medo de assalto, pânico de perder um ente querido, insegurança no emprego, medo do desconhecido, da solidão, de ficar sem amigos… A lista é grande. E, de repente, a palavra paz se transforma em antônimo de angústia, temor, preocupação, e sinônimo de tranqüilidade, ou, pior, acomodação.

Voltando à musica: as duas canções falam de paz, mas a forma não é nada pacífica. chama a atenção para a fome de pão, amor e paz que há no mundo, e questiona o tipo de cristianismo que nega a igualdade entre todos os seres humanos. Marcelo Yuka se pergunta a que preço vale conservar a paz. Afinal, quem pode encontrar paz cercado de desigualdade e injustiça por todos os lados? Que tipo de pessoa consegue se sentir em paz enquanto ignora o sofrimento alheio?

“Muito mais do que ouvir, é preciso sentir… Como ouvir e negar? Somos todos mortais!” O compositor evangélico coloca o dedo na ferida. É impossível estar alheio à penúria em que vivem milhões de brasileiros. Basta olhar por cima do muro. E assumir que “as grades do condomínio,” sobre as quais escreve Yuka, na verdade podem não ser apenas proteção, e sim o que nos aliena da realidade.

A questão não é ser capaz de enxergar, mas estar apto a tomar uma atitude, demonstrando amor “como Deus, que se fez como nós, se entregou e morreu.” Sair da zona de conforto e abrir mão do sossego. “Muito mais que sentir, é preciso lutar.” E aí está aquela palavra de novo. Mas o assunto não era paz? Pois é; acontece que tem gente lutando por paz. E nem sempre é a luta metafórica do esforço, ou do empenho por um objetivo, mas a luta armada mesmo, fazendo guerra para alcançar a paz. O maior de todos os contra-sensos.

Para quem busca a paz, aquela paz de verdade mesmo, é importante não condescender com a acomodação. Como diz a canção dO Rappa, “paz sem voz não é paz. É medo.” Se cremos que perante Deus somos todos iguais, é preciso lutar contra a injustiça, estender a mão e repartir o pão. Agindo assim, estaremos, nas palavras de , “transformando a fé numa grande missão.”


Sobre o autor

Mota

Mestranda pela Unicamp, professora de musica, regente do Madrigal Vox 9 e assistente do Coral Unasp, nas horas vagas é cantora. Apegada à sua privacidade, Regina resistiu enquanto pôde aos celulares e não está no Orkut, mas recentemente criou um blog.


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8 Comentários ↓

#1 Matheus Siqueira em 23.04.08, 13:08

Surpreendente essa comparação!!!

#2 CYNTHIA BARBOSA em 24.04.08, 11:04

mt interessante essa comparação…
nos mostra que não devemos escutar musicas seculares, mesmo com letras que falem de “paz”.

#3 Matheus Siqueira em 24.04.08, 12:33

Eu discordo Cynthia, ao meu ver em nenhum momento do texto a Regina disse algo sobre não devemos escutar músicas seculares… Mas fiquei curioso para saber em que parte do texto você tirou essa conclusão?!

#4 Carlinha em 25.04.08, 19:21

Puxa, que revigorante ler um texto sobre a paz que nos incita a agir na realidade em vez de ficar chovendo no molhado da acomodação. Somos cristãos, sabemos que esse estado de coisas tende a piorar, mas é nosso dever nào compartilhar com ele, e, pior, não sermos cúmplices da distribuição injusta de renda, da impunidade, da indiferença. Mesmo em músicas seculares, encontra-se alguma dose de material que pode levar à reflexão.

#5 cléderson perez em 25.04.08, 20:15

Concordo com o Matheus. Não percebi em momento nenhum a Regina falando que não deveríamos ouvir músicas seculares. O que ela fez foi uma relevante comparação entre a letra das duas músicas para ressaltar que a paz só pode ser alcançada em Jesus, e a partir do momento que estamos com ele podemos contribuir para que outros tenham paz.

#6 Eduardo Vanderley em 01.05.08, 12:43

Que maravilha entrar aqui e encontrar um texto da Regina! Deus seja louvado!
Lembro de outros excelentes textos dela que eram publicados numa antiga versão de seu site pessoal. Pena que não o são mais. Que outros surjam neste canal, então!

Sobre o texto (A Paz que Você Quer): Lembrei do que disse Jesus lá em Jo 14:27a:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo.”

[...]

Num mundo onde se faz guerra por “paz” - “luta armada mesmo… O maior de todos os contra-sensos.”, como diz a Regina - Jesus nos deixa sua paz que, embora tenha sido alcançada de maneira pacífica (sem guerra, sem armas… como esse tipo de “paz” que o mundo dá), não se trata de uma paz ausente de luta. Pelo contrário! Pois da mesma forma que a paz de Cristo não se assemelha a esse tipo de “paz” que faz guerra armada, ela também não tem nada a ver com aquele outro tipo de “paz” cada vez mais vivido: A “paz” da proteção das grades dos condomínios e do conforto dos bancos das igrejas. A “paz” do medo e da acomodação.

A paz de Cristo não é uma “paz” que faz guerra armada, mas, também, não é uma “paz” sem voz ou uma “paz” de “sombra e água fresca”. Ele, Cristo, melhor do que qualquer um, sabe bem o que é ir além do ouvir sobre o sofrimento alheio e sentir; abrir mão do sossego, deixar a zona de conforto, não se calar diante das injustiças! Afinal de contas, Ele “se fez como nós, se entregou e morreu”. Esse é o tipo de paz que Cristo viveu e nos deixou: A paz que vem imbuída de uma grande missão.

E “o que o compositor evangélico João Alexandre e O Rappa têm em comum?” Bem, quero me arriscar numa resposta extremamente particular: No que tange às composições em questão, acredito que eles estejam usando de suas armas (em ambos os casos, a música) em prol da verdadeira paz: A Paz que Eu Quero.

Obrigado Regina e éoqhá por me proporcionarem tal reflexão. Deus os abençoe!

#7 Daniele em 10.05.08, 15:59

Entendo e sinto a sede por PAZ!!
No entando me vejo num mundo de guerra.
Vou sim lutar e fazer minha parte, mas essa realidade maravilhosa na qual fomos criados para viver, infelizmente não viveremos!!
Não aqui!
Nossa maneira de lutar pela PAZ ainda é falar do amor de Deus para que em breve, muito em breve, Ele nos leve a um lugar de eterna PAZ!

E “CYNTHIA BARBOSA”, sem comentários…:P

#8 Flávia em 10.09.08, 15:56

me chamou atenção a abordagem desse tema porque mostrou que assim como os cristaos, o mundo tambem fala de paz, e quer mudanças, atitudes. Nada de acomodação.
Nós cristaos jamais deveriamos nos acomodar e nem deixar de pregar a paz de Cristo, seguir Seu exemplo, nos envolver de forma eficaz para amenizar os sofrimentos e necessidades do proximo.
Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao proximo como a si mesmo! Que diferença haveria em nossa sociedade hoje, se estes mandamentos fossem vividos e nao somente pregados!
A fonte é Jesus. Ele nos deixou a paz…

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