Etiqueta na testa
agosto 6, 2008 | por Carolina Cavalcanti | 5 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark
Nosso mundo é tão ilusório que as pessoas acabaram por acreditar que são mesmo muito diferentes, com isso constroem verdadeiras muralhas entre si. Essas muralhas parecem ser praticamente intransponíveis. Os contrastes são gritantes: ricos X pobres, feios X bonitos, inteligentes X burros, deprimidos X felizes, gordos X magros, casados X solteiros, cultos X ignorantes, tímidos X extrovertidos, homossexuais X heterossexuais, negros X brancos, bregas X chiques, cristãos X mulçumanos, patrões X empregados, doentes X saudáveis… A lista é infindável.
Tudo é motivo para dividir. É como se cada pessoa tivesse uma etiqueta presa na testa. Etiqueta que as pessoas que cruzam seu caminho acreditam ter o direito de preencher como bem entendem. Etiqueta que classifica. Etiqueta que inclui, exclui e julga. Os autores nada conhecem da essência do etiquetado e este, por sua vez, tenta viver para manter o status alcançado ou luta a vida toda para arrancar palavras indesejadas estampadas em sua testa.
Se pararmos para pensar, descobriremos que a vida é muito mais simples do que parece. Somos tão diferentes e, ao mesmo tempo, incrivelmente tão iguais. Todas as manhãs abrimos os olhos e despertamos para um novo dia. Por mais vontade que tenhamos de esticar o sono, sabemos que precisamos levantar. A vida nos espera. Temos algo que fazer. Algo que faz parte de nossa realidade. Seja administrar um patrimônio multimilionário ou arranjar nem que seja uma migalha de pão para enganar a fome. A vida exige ação.
Não quero ser ingênua a ponto de dizer que as diferenças que dividem as pessoas são ilusórias. Vivi o suficiente para entender a complexidade dessas relações. Entretanto, acredito que existe uma maneira mais justa de classificar as pessoas. Esta classificação não pode ser determinada facilmente. Tem muita gente que consegue enganar, dissuadir ou simplesmente esconder. Fazem com que outros acreditem que pertencem à lacuna A quando na verdade pertencem à B. Estou falando de motivação. Acredito que não existe nada que nos separe e, simultaneamente, consiga transpor as muralhas que construímos. Este é o poder intrínseco da motivação.
Existem várias motivações que nos fazem levantar da cama de manhã: sobrevivência, ambição, inveja, orgulho, compaixão, vingança, sonhos, desejos… Nossa principal motivação pode ser alocada em uma das seguintes categorias: egoísmo ou amor.
Essas duas categorias têm o poder de abraçar a todas as pessoas. Podemos encontrar no mesmo grupo aqueles que, de outra maneira, jamais seriam vistos como semelhantes pela maioria das pessoas. Quer ver um exemplo? O povo brasileiro reclama da corrupção praticada por vários políticos em nosso país. Muitos etiquetam tais pessoas como ricas e poderosas. Essa suposição é respaldada por uma pesquisa realizada pelo IBOPE em janeiro de 2006, cujo título é “Corrupção na Política: Eleitor Vítima ou Cúmplice?” em que os resultados revelam: 82% dos entrevistados acreditam que os políticos são desonestos e 87% alegaram que eles agem pensando somente em seu próprio benefício. Entretanto, o estudo, ironicamente, também retrata que 75% dos eleitores assumiram que cometeriam pelo menos um dos 13 atos de corrupção e desonestidade avaliados na pesquisa, caso tivessem a oportunidade. Grande parte dos eleitores, provavelmente, não podem ser etiquetados como ricos e poderosos mas sua motivação os iguala às mesmas pessoas que criticam com tanta voracidade.
A história tem mostrado que é bem mais difícil encontrar pessoas que estejam dispostas a fazer parte da lacuna dos amorosos. Ser egoísta é tão fácil quanto respirar. Amar é, antes de mais nada, uma decisão racional que quando transformada em ações diárias, acaba por tomar conta das emoções e coração – não o inverso. Mesmo com menos representantes, o segundo grupo tem sido capaz de impactar a história e mudar vidas, para melhor.
São eles que nos surpreendem com um ato de bondade quando perdemos todas as esperanças. São eles que estendem a mão, compartilham o pão, concedem perdão. Abrem suas casas, olham no fundo dos olhos, tem tempo para ouvir. Estas são as pessoas que motivam. Elas são humildes. Exatamente por isso acreditam ser indignas de escrever nas etiquetas estampadas na testa de outros. Não classificam ou julgam. Como o amor é sua motivação, conseguem o que todos buscam, mas poucos conseguem encontrar. São felizes porque fazem outros felizes.
Sobre o autor
Jornalista e mestre em Tecnologias Educacionais. Dá aulas para o curso de Pedagogia da Faccamp e atua como designer instrucional dos cursos a distância do CEPA - USP. Gosta de ler, viajar, escrever e passar a noite jogando conversa fora com amigos e membros da família. É casada e tem um filho fofo de 1 ano e meio. Conheceu éoqhá através da irmã.
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5 Comentários ↓
Gostei do post.
Uma feliz advertência!
Não sei qual a minha etiqueta ou em qual lacuna me enquadro. Não sei nem mesmo se as tenho. Mas, definitivamente, quero estr entre os que fazem outros felizes. Abraço!
Como diz um amigo meu: “se você não está envolvido na salvação de alguém, é porque a sua não está acontecendo.”
Pra que viver se não for nosso lema VIVER POR OUTROS. Sejam nossos pais, filhos, amigos, irmãos, namorados, esposos…
Amar é essencial à salvação humana, pois o próprio Jesus disse que “não há maior amor do que dar a vida pelos outros”.
“amar ao próximo como a ti mesmo” é uma coisa dificílima de fazer, mas a importância de tal proceder é tão grande quanto a dificuldade de sua prática constante.
Amar, amar e mais amar - nisso deve consistir a vida de um cristão.
Valeu pelo texto!
Olá Zierley,
O objetivo do texto era fazer com que cada leitor separasse alguns minutos para pensar naquilo que tem motivado sua vida. Muitas pessoas ficam tão absorvidas por seus problemas ou simplesmente envolvidas na “correria” do dia-a-dia que acabam, infelizmente, não tendo tempo para enxergar as necessidades dos outros. Acredito que é muito mais fácil etiquetar as pessoas do que amá-las… só Deus no coração permite que transformemos nossas lindas palavras em ações!
Um abraço!
Carolina
Olá Lídia,
Concordo com você… o dever do cristão é amar, amar, amar. O que me preocupa é que pouco vivemos esse amor.
Quando penso nisso, sempre lembro de uma história que vou parafrasear: Certo dia, um cristão inglês conversava animadamente com o pacifista Mahatma Ghandi. Em certa altura da conversa perguntou: mestre, se és tão amante da paz porque não abraças o cristianismo? Ghandi pensou e respondeu: o seu Cristo é bom e quero servi-lo de todo coração, mas o cristianismo de vocês, esse eu não quero!
Consigo entender o motivo que levou Ghandi a responder daquela maneira. Quantas guerras foram travadas em nome de Cristo? Quantas pessoas adentram igrejas cristãs e não são acolhidas? Quanta dor poderia ser eliminada se realmente vivêssemos o que pregamos… algo para pensarmos!
abraço
Amor: aprendo a cada novo dia que este princípio só se desenvolverá em mim se eu estiver ligada à fonte - Deus, o amor em Pessoa.
Mas, se Ele espera que amemos não de palavras, mas em atos e em verdade, é porque Ele quer nos encher d’Ele mesmo. Isso é real!
Quero isso pra mim, hoje, agora.
Um abraço.
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