“Mamãe, onde é que tem espinho?”, foi a pergunta que me fez sentir frio na espinha. Para mim, era estranho ouvir essas palavras de uma criança de três ou quatro anos. Seus olhinhos azuis como que só viam a rosa que tinha nas maõs. Sua questão veio doce, mas cheia da certeza pueril. Que a garotinha conhecia flores, eu imaginava. Mas que ela sabia dos espinhos, isso me assustou.

Gosto de encarar a vida com bons olhares. Gosto de procurar respostas e sentido no que consigo ver e apostar no invisível, quando fica escuro. Mas não é preciso viver muito para perceber que as muitas flores que vivemos têm também os seus espinhos. Gosto do colorido, do cheiro bom e do romance com que a vida das muitas flores nos presenteia. Inda assim, até as mãos pequenas são feridas pelos intrusos cortantes que ela traz consigo. Parece pessimismo, mas é triste viver sabendo dos perigos. Até as alegrias nos desafiam ao preparo para o depois. Cada riso tem seu preço, cada lágrima, um porquê. “O beijo é a véspera do escarro”. O choro é o riso da dor. E como ela ri… É vivendo que se descobre que o espinho é o preço da flor, que, vivendo, se morre aos poucos, pois o tempo nos leva aos pedaços.

É preciso flores já que a vida é jardim, mas é preciso conhecê-las, aceitá-las, superá-las. É preciso sobretudo conhecer o jardineiro, conhecer a história das flores e do jardim. No plano original só eram flores os enfeites, mas os defeitos da escolha nos cobram seus preços até hoje. O homem do jardim não ficou assim calado. Fez tudo que pôde, mas já era tarde. Uma promessa foi sua única arma: quando ele morresse, seu sangue seria o remédio para as flores, que acabaria com os espinhos. Ele morreu. O sangue ainda está aí. Pouca gente usa a fórmula, mas ela existe.

A pergunta inicial teve, no entanto, uma resposta bem oportuna: “não, filhinha. Essa flor não tem espinho. O homem do jardim já tirou”. A resposta da mãe contentou a pequena e a mim também. Pensei na vida, nas flores e no sangue. Embora ainda haja espinhos e sangue, há cura. Existe cura através do sangue do homem do jardim. O tempo passa, mas nada apaga a receita das flores e das pessoas.
Ande pela vida colhendo flores e curando vidas também. Quando olhar uma flor por aí, lembre da história e do homem.

Lembre-se.

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