O absurdo e a fé: uma experiência ‘kierkegaardiana’

Algumas situações despertam mais atenção do que outras. Não por fatos envolvidos. Não por dados concretos, mas porque envolvem um alto conteúdo de nós mesmos. O que poderia ter acontecido conosco desperta empatia.

Talvez a comoção que histórias como a de Isabella Nardoni causam, resida na hipótese de imaginarmos-nos em seu lugar. Indefesa. Ingênua. Injustiçada. Sentimentos comuns a todos. Se comprovada a culpa do pai e da madrasta dela, acrescentamos ainda traição do mais alto grau, pois daquele de quem se esperava maior amor, recebeu-se violência, dor e morte.

Em certo grau, Isaque, filho de Abraão, poderia sentir-se da mesma maneira. Indefeso. Ingênuo. Injustiçado. Traído. Seu próprio pai o levara ao Moriá para lhe oferecer em sacrifício ao seu D-s (Gênesis 22). Em vez disso, no entanto, permitiu-se ser amarrado e deitado sobre o altar para ser sacrificado. Um verdadeiro absurdo. Uma verdadeira fé.

Assim Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês, definia fé: um absurdo. Para muitas coisas existem explicações claras, comprovações evidentes. Para outras inúmeras, o silêncio, o nada. A ausência de respostas abre margem para o absurdo, o inexplicável, o transcendente.

Hoje, quando faltarem respostas, experimente o absurdo, experimente a verdadeira fé e a real experiência com D-s.

2 Comentários

  1. glauce escreveu no dia 20 Maio, 2008 | Permalink

    como sempre, sábias palavras, edson.

  2. Fred Santos escreveu no dia 24 Maio, 2008 | Permalink

    Nossa, sou bem simpatizante desta forma de se encarar a fé. Isto não significa, é claro, que tudo que seja absurdo ou irracional tenha a ver com fé. A atitude tomada em um assassinato como este citado acima pode ter sido um ato absurdo e irracional, mas, claramente, não foi um ato que partiu da fé. “Ora, sem fé é impossível agradar-Lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que O buscam.” (Hebreus 11:6) A fé consiste no fato que a despeito de mil caírem em minha direita e dez mil a minha esquerda a minha esperança nesta promessa nunca será abalada, mesmo sabendo que a única garantia que tenho é a confiança em Sua palavra. Só uma fé assim remove montanhas. Bem, infelizmente, muitos na igreja (que defendem uma certa abordagem sobre Fé e Razão) não concordam com esta posição. Defendem uma fé racionalizada. Será que podemos ver algum ato racional na fé presente na vida de Abraão? Talvez sim, pelo fato de defendermos uma fé relacional. Mesmo assim o que está em questão nesse caso é a testificação dada pelo Espírito de Deus (Romanos 8:16), e devemos estar cientes de que neste momento não estamos falando diretamente de fé, mas de algo que nos ajuda a receber ainda mais este dom maravilhoso de Deus. Afinal, se soa estranho afirmar que a confiança e amor que temos em nossos pais são provenientes de uma fé racional, mais estranho ainda é afirmar o mesmo em relação à fé que é acompanhada as inúmeras promessas e que provém de nosso Pai.
    Então, que podemos fazer? Viva a diversidade respeitosa de pensamento! Apesar de achar que quem pensa diferente se afasta dos fundamentos da fé cristã.

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