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	<title>éoqhá &#187; Joêzer Mendonça</title>
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	<description>O éoqhá é uma iniciativa de ser um contraponto as mídias tradicionais, trazendo fatos, acontecimentos, entretenimento, reportagens e textos sob uma óptica religiosa.</description>
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		<title>a voz na música sacra</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 22:47:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[
O que a performance vocal secular tem a ver com a música cristã contemporânea? 
Tudo. Os cantores evangélicos não inventaram nenhum modo de cantar. Ao mesmo tempo em que suas interpretações estão fundamentadas em sua própria concepção do que seria a voz ideal para determinado estilo musical, essas interpretações também estão calcadas quase inevitavelmente nas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1653" title="123" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/12/123.jpg" alt="123" width="588" height="254" /></p>
<p><span style="color: #333333; line-height: 16px;"><strong>O que a performance vocal secular tem a ver com a música cristã contemporânea?</strong> </span></p>
<p>Tudo. Os cantores evangélicos não inventaram nenhum modo de cantar. Ao mesmo tempo em que suas interpretações estão fundamentadas em sua própria concepção do que seria a voz ideal para determinado estilo musical, essas interpretações também estão calcadas quase inevitavelmente nas performances dos cantores seculares.<br />
<span id="more-1652"></span>No Brasil, quais são os modos de performance que influenciam os cantores evangélicos?</p>
<p>Desde os anos 90, a forte penetração da música pop no meio evangélico diversificou tanto os gêneros musicais quanto os estilos de performance.</p>
<p>Para melhor explicação, voltemos à música popular. A cantora Elis Regina tornou-se também um paradigma vocal. Entretanto, apesar da alta qualidade de muitas de suas interpretações, Elis não raro enveredava pelo caminho do canto expansivo, colocando a lágrima e o riso na voz , teatralizando a canção, pois tudo convinha ao seu modo interpretativo quase sempre transbordante. Seria o oposto da interpretação límpida de cantoras como Gal Costa e, pra citar um exemplo recente, Roberta Sá.</p>
<p>Não é difícil notar que o estilo Elis de interpretação tinha muito da “entrega” performática dos artistas da <em>soul music</em>, do <em>rythm and blues</em>. A cultura gospel americana repercutiria profundamente na figura de intérpretes americanos, como Aretha Franklin, Elvis Presley, James Brown ou Whitney Houston, sendo que alguns intérpretes brasileiros assimilariam essa influência na forma do canto expansivo, na teatralização do canto, no “cantar vivendo a letra da música”.</p>
<p>As igrejas cristãs brasileiras não abdicaram dessa maneira de cantar. Para citar exemplos: Alessandra Samadello e Leonardo Gonçalves são cantores cujas performances revelam altos indícios da forma expansiva de cantar. Regina Mota, em seus CDs solos, representaria, de outro lado, a contenção da performance vocal. Intérpretes ligados a igrejas protestantes históricas, como João Alexandre e Gérson Borges, preferem a voz contida das performances da MPB (Os intérpretes do rock ou do rap gospel ficarão para um segundo texto sobre o assunto).</p>
<p>Fique entendido também que os cantores que apresentam forte contraste de performance vocal entre si não são superiores uns aos outros, embora possamos ter preferência pessoal por este ou aquele. A personalidade de cada cantor, a percepção das exigências de cada canção e gênero musical, os registros de extensão de cada voz (se soprano, mezzo ou contralto, se tenor ou barítono), tudo isso faz parte da diversidade natural dos grupos religiosos.</p>
<p>Por outro lado, é difícil negar que há momentos (nos cultos, por exemplo) que demandam uma forma mais contida de cantar e que o canto excessivamente teatral sobrecarrega a canção, a qual, geralmente, já apresenta elementos dramáticos na letra e na melodia. A atenção da congregação acaba sendo dirigida ao gestual, às expressões faciais exageradas, ao maneirismo vocal. Há cantores que precisam aprender que, também na adoração, <em>menos é mais</em>.</p>
<p>Uma referência de muitos admiradores da voz são as cantoras norte-americanas. Não as cantoras do jazz, mas as estrelas do pop radiofônico. As musas do momento são Mariah Carey e seus hiperagudos, Celine Dion e seus gorjeios melodramáticos, Beyoncé e seus melismas apaixonados. Essas três cantoras, donas de um talento vocal insuspeito, são os rouxinóis inspiradores da filosofia American Idol: <strong>grito, logo existo</strong>. As divas do <em>american brega </em>inspiram os concorrentes dos programas televisivos de cantoria de anônimos.</p>
<p>Por mais divertidos que possam ser tais programas, e até mesmo reveladores de talentos genuínos, a insistência na fórmula agudo-melismático-meloso gera clones que satisfazem a audiência, mas produzem o mal do novo século: o maneirismo melodramático. Maneirismo vocal seria mais ou menos a diferença entre cantar &#8220;eu sei que vou te amar&#8221; e esgoelar &#8220;and I-I-I-I-I-I-I-I-I-I-I will always love you-U-U-U-U-U-U-U-U-U&#8221;. As novas gerações de espectadores acostumaram-se a tal ponto com esse modo de cantar que chegam a renegar os cantores que apresentam uma forma contida de interpretar.</p>
<p>Como já ressaltei, não quero dizer que só exista uma forma de cantar. No entanto, quando os fãs de música gospel assoviam e entram em histeria coletiva na hora em que seus cantores prediletos dão seus gritinhos apaixonados-por-Jesus, não seria hora de repensar o quanto a interpretação excessivamente teatralizada tem contribuído para estimular um comportamento cada vez mais semelhante ao das plateias de espetáculos pop? Não estariam as jovens congregações criando expectativas de performance sacra com base em sua escuta de ídolos da música pop?</p>
<p><span style="color: #333333; line-height: 16px;"><br />
</span></p>
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		<title>Cristianismo: letra e música</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 00:09:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[
O que tem mais impacto sobre uma pessoa? A música ou a letra da música?
Essa é uma pergunta de difícil resposta e não raro vemos gente defendendo a supremacia da música sobre a letra ou vice-versa. A letra, é claro, não é algo desimportante. As letras das canções de protesto de Chico Buarque e Geraldo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1649" title="1117370_99592197" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/11/1117370_995921976.jpg" alt="1117370_99592197" width="588" height="232" /></p>
<p>O que tem mais impacto sobre uma pessoa? A música ou a letra da música?</p>
<p>Essa é uma pergunta de difícil resposta e não raro vemos gente defendendo a supremacia da música sobre a letra ou vice-versa. A letra, é claro, não é algo desimportante. As letras das canções de protesto de Chico Buarque e Geraldo Vandré miravam as injustiças e desmandos da ditadura, sendo que seus autores e intérpretes eram, no mínimo, frequentemente intimados a dar explicações sobre uma frase ou outra de uma música.<br />
<span id="more-1637"></span>Tom Jobim foi inacreditavelmente vaiado no III Festival Internacional da Canção (1968), quando sua música &#8220;Sabiá&#8221;, de harmonia sofisticada e letra lírica, venceu a simples e direta &#8220;Pra não dizer que não falei das flores&#8221;, dos versos Caminhando e cantando e seguindo a canção&#8230;</p>
<p>A letra, para a plateia que estava na final do Festival, parecia ser o elemento principal da estética musical. Apesar de não ser uma disputa da &#8220;canção mais politizada&#8221;, os apupadores desqualificavam a melodia, o arranjo e a poesia de &#8220;Sabiá&#8221;, mesmo que esta trouxesse, nas suas entrelinhas, o lamento de um sujeito forçado ao exílio. O contexto social &#8220;requeria&#8221; uma música que explicitasse os anseios políticos da plateia. No entanto, o júri não deu ouvidos à voz rouca dos festivais e premiou a canção de Jobim e Chico, considerada estruturalmente mais apurada.</p>
<p>Na música cristã, o debate é semelhante. Alguns defendem que a escolha do estilo musical é de ordem primordial para a adoração, sendo que os temas da cristandade devem ser tratados por meio de uma música alegre ou reverente ou alegremente reverente. Para esses, a letra religiosa merece estilos musicais que inspirem religiosidade ou que estejam tradicionalmente relacionados à alegria tranquila ou à solenidade sem artifícios.</p>
<p>Outros creem que a letra, ao tratar de temas cristãos, &#8220;sacraliza&#8221; de antemão qualquer estilo musical, pois a força literária prevalece sobre o impacto estritamente musical. O gênero musical estaria a serviço de um bem maior, a evangelização contextualizada, capaz de atingir diferentes nichos culturais. Além disso, chega-se a afirmar que a música não teria moralidade inerente.</p>
<p>Nem todo estilo musical pode servir adequadamente às intenções do compositor. Carlos Lyra, ao ligar-se aos movimentos de resistência política universitária nos anos 60, renunciou à bossa nova, pois acreditava que esse estilo, referencialmente rebuscado, com influências jazzísticas e letras que versavam sobre &#8220;o amor, o sorriso e a flor&#8221;, não servia como música de confronto e de protesto. A rusticidade do baião e do samba, além de associados a uma suposta raiz nacional (hoje discutível) e ao homem do povo, serviria melhor aos propósitos políticos dos movimentos da época.</p>
<p>Na música sacra, não é incorreto supor que nem todo estilo musical seja próprio para o louvor e a adoração. Se a bossa nova seria um elemento refinado e doce demais para as durezas da confrontação política, não seria o caso de perguntar se o pagode ou o heavy metal, por conta de suas referências, são realmente adequados para expressar os temas cristãos? Bastaria enunciar uma letra religiosa para cristianizar esses estilos?</p>
<p>Nossa recepção a uma canção é afetada pelas referências que ela traz. Quanto a isso, não é possível ficar imune. O teórico da música Leonard Meyer e o semioticista Umberto Eco afirmam que a música denota sentidos e referenciais inscritos culturalmente. Numa época de saturação de signos audiovisuais como a nossa, é difícil negar a referencialidade presente numa obra musical. Talvez o cantor ou o compositor cristãos não queiram que alguém se obrigue a fazer associações estilísticas ao ouvir determinada canção, mas eles também não podem evitar que alguém venha a fazê-las.</p>
<p>Muita gente tem dificuldade em deletar a referencialidade moral de boa parte do pop/rock secular. Por isso, dão preferência a estilos mais tradicionais de música sacra, o que talvez possa ser explicado pela evidência de que a música é entendida como uma questão de gosto. Assim, é possível que as pessoas se fixem em seus gostos culturais e relacionem esses gostos a uma noção de reverência e santidade que desenvolveram em sua vida cristã.</p>
<p>A evangelização contextualizada, aquela que procura &#8220;ser grega para os gregos e romana para os romanos&#8221; a fim de alcançar alguns dentre todos, não é facilmente criticável. Há resultados válidos, mas também vale alertar para o perigo do pragmatismo inquestionável, o evangelismo vale-tudo. Será uma analogia esdrúxula certamente, mas vejamos assim: se o boxe, mesmo em sua reconhecida violência, ainda conservava regras e pudores, as lutas de vale-tudo radicalizam a proposta de um combate e abrem espaço para quase todo tipo de golpe que seria considerado desonroso no boxe.</p>
<p>Por sua vez, o vale-tudo evangelístico abre espaço para toda forma musical pop e usa efeitos, performances, letras e estilos que, nem sempre injustamente, são considerados desonrosos para a mensagem cristã.</p>
<p>Não se discute aqui a qualidade da produção musical ou a intenção evangelística de um estilo gospel contemporâneo. Mas não posso concordar com a vã separação que se tenta fazer entre música e letra de uma canção. Ora, uma canção é exatamente a conjunção de letra e música.</p>
<p>Essa pretensa separação entre estilo musical e letra que compositores gospel andam a fazer, como se a letra fosse mais importante que a forma musical, pode revelar não apenas um modo irrefletido de pensar a música, mas também uma superficialidade teológica no pensar o cristianismo.</p>
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		<title>meus heróis NÃO morreram de overdose</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Oct 2009 23:19:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>

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Leio que Julie Andrews completou 74 anos em 01 de outubro. Dá pra acreditar? A Maria de A Noviça Rebelde tornou-se uma septuagenária. Podem chamar de sentimental e convencional, mas é difícil resistir à Julie Andrews surgindo numa colina verdejante e girando com os braços abertos e cantando a bela “The sound of music”. Tudo bem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1622" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/10/overdose.jpg" width="590" height="264" /></p>
<p>Leio que Julie Andrews completou 74 anos em 01 de outubro. Dá pra acreditar? A Maria de <em>A Noviça Rebelde </em>tornou-se uma septuagenária. Podem chamar de sentimental e convencional, mas é difícil resistir à Julie Andrews surgindo numa colina verdejante e girando com os braços abertos e cantando a bela “The sound of music”. Tudo bem que depois tem aquelas sete notas musicais ou sete crianças, o que dá no mesmo. Mas logo aparece uma Julie enamorada cantando “Something” e o resto é Oscar, história e lágrimas.</p>
<p>O cantor Cazuza dizia numa música que seus heróis morreram de overdose. Ele próprio escolheu viver e morrer como seus heróis.</p>
<p><span id="more-1620"></span></p>
<p>As mídias fingem odiar esse tipo de herói, mas são elas que cobrem cada nova celebridade com sua cota televisiva de <em>vaidade </em>(quando tudo vai bem), <em>falso moralismo </em>(quando tudo vai mal) e <em>confete post-mortem</em>. Todo astro recém-falecido por overdose é coroado com um mito: o melhor é morrer jovem e famoso. Essa é a maior falácia da cultura pop, um engodo que tem levado muita gente a achar que aproveitar a vida é experimentar tudo, todos e todas ao som de muito rock’n’roll, yeah!</p>
<p>Como escreve Robert Pirsig, “a degeneração é prazerosa, mas não sustenta uma vida inteira”. Mas quem é que está se lixando pra expectativa de vida, quando dizem que não há nem céu nem inferno, nem Deus, nem deus, nem juízo. Lembra do trinômio revolucionário “liberdade, igualdade, fraternidade”? Pode parecer apocalíptico, mas alguém discorda de que esse ideal foi substituído pelo também trinômio “sexo, drogas e rock’n’roll”?</p>
<p>Antes que os filisteus virtuais ataquem este web-escriba, já adianto que o problema dessa geração pode até não ser a música (que espelha as vontades dessa geração). O problema é esse estilo de vida “morra jovem e drogado” sendo vendido como a quintessência do pensamento rebelde e antiautoritário, um modelo insuperável de ser artista e porta-voz da geração, quando no fundo é apenas<em>suicídio juvenil glamourizado</em>. Roqueiros e atores, principalmente, são elevados à categoria de ícones da juventude transviada que estabeleceu suas próprias regras de sucesso, vida e morte. Porém, se solos de guitarra não vão me conquistar, esse <em>overdose way of life </em>também não me convence.</p>
<p>Meus heróis NÃO morreram de overdose: Dostoievski, Jane Austen, Guimarães Rosa, John Steinbeck, Tolstoi; Beethoven, Bach, Bernard Herrmann, Debussy, Stravinski, Duke Ellington; Kurosawa, Jean Renoir; Lincoln, Luther King. Eles representam um tipo de herói: aqueles que escaparam à mediocridade reinante na cultura e nas relações sociais. São heróis pela excelência artística e de pensamento.</p>
<p>Alguém dirá: e Lutero, Paulo, Isaías, Daniel, Pedro e João não seriam heróis maiores e melhores? Estes são um outro tipo de herói: gente que nos serve de inspiração para viver. Eles são muito mais que heróis das artes e do pensamento.</p>
<p>Meus heróis NÃO morreram de overdose. Talvez nem sejam heróis apenas; uns preferem chamá-los de mártires. Eles morreram decapitados, queimados, crucificados e temo não estar à altura de mártires assim, que não morrem por uma ideologia, morrem pelo Amor que excede todo entedimento. Meus heróis não pegaram em armas e venceram exércitos. Eles viveram não por força nem por violência, mas pelo poder do Espírito. Meus heróis não foram seres perfeitos. Eles tiveram falhas e espinhos na carne, mas negaram-se a si mesmos e decidiram que, não eles, mas Cristo viveria neles.</p>
<p>Há heróis e super-heróis para todos os gostos. Contudo, se em vez de adotarmos heróis pelo nosso gosto pessoal nós levarmos nossa vida ao pé da cruz, sairemos dali com um novo sentido do que é de fato um herói. Eu preciso de heróis que vivem pelo que ainda não se vê, que vivem por uma esperança estranha para quem não acredita, mas tremendamente perfeita e elevada para quem aceita.</p>
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		<title>mitos, tambores e adoração</title>
		<link>http://eoqha.net/musica/mitos-tambores-e-adoracao/</link>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 01:37:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[
Entre os mitos disseminados no meio religioso-musical, um dos mais repetidos é aquele que diz que o rock nasceu dos tambores vodus. Assim, o rock seria uma música com poder de falar com os espíritos caídos, seria um estilo que atrairia os demônios para as reuniões religiosas.
Tem coisas no rock que devem ter sido idéia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1608" title="adoracao_e_louvor_2" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/10/adoracao_e_louvor_21.jpg" alt="adoracao_e_louvor_2" width="590" height="264" /></p>
<p>Entre os mitos disseminados no meio religioso-musical, um dos mais repetidos é aquele que diz que o rock nasceu dos tambores vodus. Assim, o rock seria uma música com poder de falar com os espíritos caídos, seria um estilo que atrairia os demônios para as reuniões religiosas.</p>
<p>Tem coisas no rock que devem ter sido idéia de um espírito caído estética e musicalmente: existe algo mais sem-noção do que o Kiss e suas quinquilharias marketeiro-satânicas ou do que a pose de roqueiros enfezados gritando &#8220;odeio-muito-tudo-isso (mas não deixem de comprar nosso último cd niilista)&#8221;?</p>
<p>Entretanto, palestras bem-intencionadas não levarão o rock ao inferno. O rock não é nenhum filho bastardo de um casamento espúrio entre o branco-de-olhos-azuis e os tambores vodus. O rock nasceu de uma mistura do gospel, do country e do blues, sendo conhecido antes da fama como rythm and blues. Os acordes básicos, a simplicidade inicial (Elvis Presley, Little Richard, Bill Haley), têm raízes no country. A marcação rítmica e a melodia tiveram influência do gospel e do blues.</p>
<p>Hã ? Como assim do gospel ?</p>
<p><span id="more-1605"></span></p>
<p>Explico.</p>
<p>Poucas sociedades modernas foram tão orientadas por valores protestantes como a sociedade norte-americana. Eu disse <span style="font-style: italic;">orientadas por </span>e não <span style="font-style: italic;">obedientes aos</span>. Lembre-se o caso de Elvis Presley, que dizia que sua voz calcava-se no estilo vocal do cantor gospel Jake Hess, mas cujo rebolado era considerado sensual demais até para a TV. Contraditório? Incompreendido? Então, imagine hoje uma estrela pop que imitasse a voz de Larnelle Harris e dançasse como Sidney Magal?</p>
<p>Certa vez, durante uma palestra, cantei com um quarteto a música &#8220;Swing Down, Chariot&#8221; (da qual há uma gravação antológica do Heritage Singers) para explicar a transição do spiritual para o gospel. Ao final da palestra, alguém me perguntou, indignado: <em>Mas isso não é um rock?</em> Eu deveria ter sido mais claro, pois antes de cantar já tinha explicado que o rock é que teve origem no gospel. Relembrando: apenas nos primeiros anos do rock e do soul. Os eventos de Woodstock, os Beatles e sua fase lisérgica e indiana, as diatribes eruditas de Frank Zappa, a surf music, o rock progressivo, o punk, o heavy e outras variações roqueiras nada mais têm a ver com o gospel.</p>
<p>O samba, este sim, nasceu de cantos dos momentos de lazer ou de culto dos negros tornados escravos no Brasil. O contato de classes sociais distintas com o samba e o desenvolvimento da tecnologia e das mídias são alguns dos fatores que levaram o samba, digamos, do morro para o asfalto, modificando-o, remodelando-o. Mas a percussão dos cultos de religiões de matriz africana não floresceu nos EUA. A conversão em massa ao protestantismo deu aos afro-americanos novas melodias e ritmos. Isso levou o spiritual (gênero de origem rural) a produzir melodias de difícil classificação para os pesquisadores: se são afro ou se são de ascendência anglo-saxã.</p>
<p>Toda segregação étnica se dá no campo cultural também. Os primeiros estudiosos dos cultos e diversões afro enfatizaram alguns aspectos musicais mais desenvolvidos na Europa (melodia, harmonia, contraponto) como &#8220;superiores&#8221; àquela música que não conheciam. Ou seja, mais uma vez, a ignorância sobre o &#8220;outro&#8221; gerava preconceito, contribuindo para rascunhar o &#8220;outro&#8221; como exótico e toda a sua música como &#8220;primitiva&#8221;, &#8220;bárbara&#8221;, &#8220;primária&#8221;. É provável o mito de que os tambores <span style="font-style: italic;">per se</span> são do mal tenha derivado da visão eurocêntrica que nivela todas as culturas musicais pela cultura estética europeia.</p>
<p>Há motivos para um cristão desgostar do rock ou do samba, mas não será pela particularidade da origem rítmica. Roqueiros e sambistas podem animar um <em>auditório</em>, mas terão dificuldades para elevar em espírito e em verdade uma <em>congregação</em>. Há razões para não se legitimar oficialmente os tambores (a bateria) em algumas igrejas protestantes, mas não será a difusão de experimentos &#8220;sonoro-científicos&#8221; com ratos e plantas ou o terrorismo em relação a uma forma musical que ajudará na orientação do que é apropriado ou não para a música na igreja.</p>
<p>A discussão sobre a presença de instrumentos de percussão (ou de bateria) no acompanhamento da música congregacional carece de contextualidade social e histórica, sim. No entanto, creio que a palavra bíblica é o melhor caminho para aqueles que professam a crença na divina revelação. Dela, lembro que &#8220;todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam&#8221; (I Coríntios 10:23). Penso que esses versos valem para a música e sua conjunção de letra, arranjo, estilos e, também, instrumentos.</p>
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		<title>Escolhi Acreditar: fé e razão</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Sep 2009 17:20:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>

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		<description><![CDATA[
A canção &#8220;Escolhi Acreditar&#8221;, letra de Mário Jorge Lima e música de Lineu Soares, foi gravada há dez anos, creio eu, mas é interessante constatar sua capacidade de manter-se atual. E esse talvez seja o primeiro ponto que pode ser ressaltado aqui: a capacidade que tem uma canção de manter-se relevante para uma geração acostumada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1583" title="4" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/09/41.jpg" alt="4" width="590" height="294" /></p>
<p>A canção &#8220;Escolhi Acreditar&#8221;, letra de Mário Jorge Lima e música de Lineu Soares, foi gravada há dez anos, creio eu, mas é interessante constatar sua capacidade de manter-se atual. E esse talvez seja o primeiro ponto que pode ser ressaltado aqui: a capacidade que tem uma canção de manter-se relevante para uma geração acostumada a trocar de música preferida tão rapidamente. A letra aborda a fé religiosa no cenário moderno, em que os apóstolos da descrença tentam oporfé e razão, religião e ciência. Esta canção procura responder poética e teologicamente ao dualismo da religião da fé e da religião do humanismo.</p>
<p><span id="more-1580"></span></p>
<p><em>Modernas teorias, novas formas de pensar<br />
Existem por aí nos meios intelectuais<br />
Que vão do ateísmo mais profundo e radical<br />
Até o humanismo com tinturas sociais<br />
</em><br />
Os versos acima não são comuns na música cristã contemporânea. São poucos os letristas que conseguem reunir termos como “modernas teorias” e “ateísmo” em tão poucas linhas. “Humanismo com tinturas sociais”? Missão quase impossível. Um verso diz que tais teorias nascem nos meios intelectuais, mas isto não é um sinal de antiintelectualismo do autor. O autor nota que a filosofia e a ciência podem às vezes funcionar como uma fachada para a criação de preconceitos ideológicos provenientes de um intelectualismo que aposta suas fichas num antropocentrismo estéril.</p>
<p><em>E hoje mesmo a crença tenta se modificar<br />
E quer que o homem seja o fim da sua pregação<br />
Senhor dos seus problemas, dos seus sonhos e ideais<br />
Buscando aqui e agora a total libertação<br />
</em><br />
John Carroll descreveu o humanismo como uma idéia de auto-suficiência humana e o estabelecimento de uma ordem inteiramente humana na terra, “em que a liberdade e a felicidade prevalecessem sem quaisquer apoios transcendentais”, ou seja, “o homem é todo-poderoso, se sua vontade for suficientemente forte”.</p>
<p><em>No entanto eu escolhi acreditar<br />
Que existe um plano para a salvação<br />
E que há um Deus no céu a governar o meu viver<br />
Mas que me dá poder até pra aceitá-lo ou não<br />
O seu reino é liberdade é amor<br />
Espera sem forçar a decisão<br />
Ele é descomplicado, não confunde o pecador<br />
E fala tanto a minha mente como fala ao coração<br />
</em><br />
Nessa parte, o corte é radical. A declaração de fé não surge como resultado de manipulação sobrenatural ou adesão interesseira. É uma escolha que assinala o instante em que a razão da mente une-se às razões do coração – parafraseando Descartes, a letra parece dizer que “a fé tem razões que a própria razão desconhece (<em>fala tanto a minha mente como fala ao coração</em>). O autor insiste em cantar que o Deus no qual escolheu acreditar é o Deus da liberdade pessoal: <em>espera sem forçar a decisão</em>, o que faz lembrar dos versos bíblicos “O Senhor&#8230; espera pacientemente pelo arrependimento” humano.</p>
<p><em>O ser humano hoje só volta para si<br />
Buscando atender necessidades essenciais<br />
Mas sem levar em conta que há uma vida superior<br />
Que poderá suprir os seus anseios mais reais<br />
</em><br />
Cada vez mais o ser humano parece perder um sentido teleológico da vida, de que sua existência possui uma finalidade ou de que a história terrestre destina-se a uma resolução última de todos os conflitos entre o Bem e o Mal. Assim, perdida a esperança, os homens se voltam para realização dos desejos acreditando que não têm mais do que esta vida, e a despenderão em agrados pessoais. O sociólogo Zygmunt Bauman afirma que a inquietação a respeito da eternidade foi retirada da agenda humana, ou que a agenda da vida está sendo elaborada “de tal modo que pouco ou nenhum tempo foi deixado para cuidar de tais inquietações”.</p>
<p><em>E há os que procuram tudo racionalizar<br />
Só crendo no que a ciência e a cultura podem ver<br />
Querendo um milagre pela lógica explicar<br />
Se fecham para as coisas do espírito e da fé<br />
</em><br />
Aqui, a letra aborda a falsidade da oposição entre ciência e religião. Porém, ambas podem ser distintas, mas não precisam ser excludentes. Vale ressaltar como o ateísmo proselitista de Dawkins e Hitchens menciona o pior da religião: o autoritarismo, a perseguição religiosa e política, a manipulação da boa-fé (esses termos podem ser ligados à democracia e ninguém dirá ser a favor da eliminação da democracia). E de outro lado, esses e outros autores furtam o melhor do cristianismo – tolerância, perdão, justiça, ética, liberdade de consciência – e procuram temperar sua receita de lógica humanista fechada <em>para as coisas do espírito e da fé. </em></p>
<p><em>No entanto eu escolhi acreditar<br />
E esperar assim em meu Jesus<br />
Filósofos e mestres nunca irão avaliar<br />
Aquilo que o amor de Deus mostrou na cruz<br />
O meu Deus é poderoso e é real<br />
Só nEle eu encontrei, enfim, perdão<br />
Prefiro depender de sua força sem igual<br />
E quero ter, então, por Ele transformado o coração<br />
</em><br />
O autor, enfim, elabora uma lista de motivos de sua escolha:<br />
O filosoficamente imensurável amor divino aceito pela fé;<br />
A cruz como símbolo da redenção da humanidade;<br />
A transcendência onipotente (<em>o meu Deus é poderoso</em>) e a imanência da presença de Deus (<em>e é real</em>);<br />
O perdão como parte integrante do caráter de Deus;<br />
A submissão do homem ao amor e poder divinos (<em>prefiro depender&#8230;</em>)<br />
A conjunção entre anseio humano por ser transformado e a capacidade divina de graça transformadora.</p>
<p>A música separa as regiões vocais médio-graves para as estrofes onde a letra aborda os contrapontos ideológicos e filosóficos da cultura moderna em relação às escolhas da fé. A melodia sobe para regiões mais agudas quando pretende marcar as razões das escolhas da fé. Música e letra são compatíveis com a temática, equilibrando erudição e simplicidade no tratamento dos temas melódicos, poéticos e teológicos.</p>
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		<title>Música e Adoração: Experiência e Obediência</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 17:09:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Não é difícil perceber que o debate em torno da música sacra tem tomado duas vertentes bem dicotômicas: ou é isso ou é aquilo, esse instrumento pode vs. aquele não pode, o gosto “jovem” vs. o gosto “maduro”, o clássico vs. o contemporâneo.
Insisto em dizer, todavia, que o problema não é a música nem o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-1493" title="b87b" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/08/b87b.jpg" alt="b87b" width="590" height="264" /></p>
<p>Não é difícil perceber que o debate em torno da música sacra tem tomado duas vertentes bem dicotômicas: ou é isso ou é aquilo, esse instrumento pode vs. aquele não pode, o gosto “jovem” vs. o gosto “maduro”, o clássico vs. o contemporâneo.</p>
<p>Insisto em dizer, todavia, que o problema não é a música nem o instrumento nem a dinâmica mutante da cultura musical. A discussão não deveria estar situada na oposição entre os pólos. Aliás, essa é uma oposição em que as opiniões pré-formadas de ambos os lados tem somente eclipsado o que deveria estar no centro do debate: o referencial bíblico que estabelece a adoração. Eu disse, <em>referenciais de adoração</em>, e não princípios musicais. Não há regras de elaboração musical da Antiguidade que devam ser obedecidas hoje. Há, de fato, princípios centrais teológicos que podem orientar o modo de adoração.<span id="more-1492"></span></p>
<p>Sem um modelo biblicamente referenciado, corremos o risco de produzir uma música de louvor desarticulada e orientada por tendências culturais, pela última moda musical das mídias ou por algum artista popular. Note o que disse Harold Best, presidente emérito da Associação Nacional das Escolas de Música (EUA): “A música de igreja por excelência [...] deve estar embasada, não primordialmente na natureza da música e em estilos musicais, modelos de práticas ou perfeição acadêmica, mas em uma bem fundamentada perspectiva teológica”.</p>
<p>Traduzindo, a música de adoração é guiada por princípios teológicos e não pelo gosto dos mais tradicionais ou dos mais liberais.</p>
<p>A música pode ser vista como um ato de experiência humana. Coletiva ou individual, sua prática é geralmente dependente a) <em>da cultura local</em>, b) <em>da finalidade</em>, e c) <em>da subjetividade do praticante</em>. A essência da prática musical estaria relacionada, portanto, aos moldes culturais, funcionais e idiossincráticos de determinado grupo social e de sua música. Sacra ou secular, a música é sempre um ato de experiência.</p>
<p>Por outro lado, a adoração não se reduz a uma experiência sensível. Adoração é, antes da experiência, um ato de obediência. Coletivo ou individual, o ato de adorar é geralmente dependente a) <em>da natureza da igreja</em>, b) <em>da natureza da missão</em>, e c) <em>da cultura do adorador</em>. A essência da adoração estaria relacionada, portanto, aos modelos de interpretação bíblico-doutrinária. A natureza da música, por sua vez, depende da igreja e da sua missão.</p>
<p>A igreja que apresenta um culto bíblico entende que a adoração é uma resposta da criatura humana aos atos de Deus. Ou seja, ao contrário de cultos que buscam o favor de Deus por meio de rituais e músicas, a igreja não louva a Deus para garantir a salvação. Louva-se o Deus cujos atos salvíficos redimem o ser humano. Na Bíblia, são relatados diversos atos de adoração feitos logo em seguida a uma promessa revelada ou a uma intervenção salvadora de Deus. A adoração também não se restringe à participação no culto, mas é estendida ao cotidiano do adorador, que demonstra uma vida de adoração ou uma vida em adoração. Desse modo, a adoração é um ato de obediência.</p>
<p>Uma sugestão de referencial bíblico para a adoração é encontrada em Atos 2: 42: “Eles eram devotados ao <strong>ensino </strong>dos apóstolos e à <strong>comunhão</strong>, ao <strong>partir do pão </strong>e às <strong>orações</strong>”.</p>
<p align="center">n <strong>Ensino</strong>: proclamação do evangelho para a conversão e a mudança (KERYGMA)</p>
<p align="center">n <strong>Comunhão, Partilha</strong>: participação, fraternidade, exercício dos dons para a edificação da comunidade (KOINONIA)</p>
<p align="center">n <strong>Orações</strong>: culto, adoração (LEITOURGIA)</p>
<p>O texto bíblico citado não relaciona instrumentos ou estilos para a igreja. Alguns registros históricos indicam o predomínio do canto a capella e a ausência de instrumentos musicais no espaço cúltico apostólico, seja porque estes despertavam associações culturais indesejáveis seja porque poderiam ser ouvidos pelos perseguidores dos cristãos ou por causa de outro motivo. Se tomássemos o texto e o contexto daquela época e daquele lugar e o transplantássemos sem adaptações, tal ação seria apenas um pretexto para a exclusão autoritária dos instrumentos da prática musical religiosa.</p>
<p>A igreja que reflete em sua adoração os três modos/atitudes de sua missão deve procurar fazê-lo de forma regular, criativa, sistemática e cuidadosa. Quando isto não ocorre, há um desequilíbrio que tende a sobrepor um dos três modos sobre o outro. A fraternidade sem a doutrina faz da igreja um mero clube social. Onde a liturgia é sobreposta à comunhão dos leigos e ao ensino haverá um culto baseado na intenção subjetiva e na emoção do relacionamento pessoal com Cristo, e não na explanação objetiva e na pregação do evangelho.</p>
<p>Algumas comunidades religiosas têm empregado a música para estimular experiências sensíveis e emocionalistas por parte do adorador. A cruz e a graça de Cristo são pontos que certamente merecem a contrição e as lágrimas de gratidão. Entretanto, a adoração contemporânea referenda duas horas de louvor e quinze minutos de edificação doutrinária, concedendo à “liturgia gospel” o papel central em um culto que favorece o extravasar das emoções reprimidas e que, supostamente, permitiria ao adorador uma satisfação pessoal e uma transcendência espiritual inquestionáveis.</p>
<p>Em sua bem-sucedida operação espiritual-musical, o louvor contemporâneo está atento às últimas tendências musicais da mídia secular, o que pode estar na adoção de uma forma sensacionalista de cantar ou de um novo ritmo do verão. Porém, como escreve Ralph Martin, o ser humano adora “não simplesmente para satisfazer suas necessidades ou para sentir-se melhor, mas para expressar a dignidade de Deus” (<em>The Worship of God</em>, p. 27).</p>
<p>O adorador precisa, sim, de hinos e canções modernas que tornem o ato de cantar uma atividade agradável e prazerosa, balanceando o uso da linguagem do relacionamento pessoal com a linguagem que se dirige à soberania e à majestade divinas. Apesar de não haver nenhum referencial doutrinário ou institucional que assinale o uso exclusivo do hinário para o louvor congregacional, penso que a música escolhida deve representar a identidade litúrgico-musical da igreja, buscando equilibrar formas históricas e recursos musicais da modernidade.</p>
<p>Por outro lado, nota-se que os ministérios de louvor que abdicam da tradição musical de sua igreja estão muitas vezes transplantando não somente o estilo musical, mas também as estratégias de adoração dos grupos neopentecostais, em que o louvor tem mais importância que a doutrina e qualquer forma musical é valorizada pelo seu impacto emocional e utilitário.</p>
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		<title>a adolescentização da música cristã</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Apr 2009 17:23:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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Para Edgar Morin, o surgimento da ética da adolescência firma valores e aponta um estilo de vida próprio. Isso não é ruim. Afinal, passaram-se milênios tratando a criança e o adolescente como um adulto em miniatura e agora que lhes dão vez reclamam da sua voz. Entretanto, a sociedade de consumo tem se modelado pelas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-1342" title="61991" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/04/61991.jpg" alt="61991" width="590" height="264" /></p>
<p>Para Edgar Morin, o surgimento da ética da adolescência firma valores e aponta um estilo de vida próprio. Isso não é ruim. Afinal, passaram-se milênios tratando a criança e o adolescente como um adulto em miniatura e agora que lhes dão vez reclamam da sua voz. Entretanto, a sociedade de consumo tem se modelado pelas aspirações do arquétipo do imaginário da juventude: imediatismo, pouco senso de historicidade, vontade de transgredir e preferência pela cultura do lazer.</p>
<p>A renovada música cristã não ficou imune a essas mudanças e a adolescentização cultural também passa pelas suas formas de composição e divulgação. O gospel tem mirado preferencialmente o público jovem, alvo também da indústria do entretenimento midiático.<span id="more-1322"></span></p>
<p>Os cantores gospel tendem a reconfigurar os hinos da tradição cristã de uma maneira que, supostamente, a juventude irá preferir, numa tendência de formatar um evangelismo digerível para as faixas etárias juvenis. Porém, essa releitura musical tem se pautado primordialmente por estilos do pop dançante. Como exemplo secular, cito aquela propaganda de refrigerante que faz um arranjo estridente de pop/rock para a belíssima e serena What a Wonderful World (a versão clássica tem a voz rouca de Louis Armstrong, lembrou?). Nos círculos musicais evangélicos, a interpretação dos clássicos submeteu-se a retórica do grito, do ruído e da velocidade.</p>
<p>Afim de não perder o público jovem, os programas gospel de rádio e TV mimam-no com cantilenas pop para ouvir no som do carro. Além disso, as novíssimas canções (e alguns novos cantores) vêm e vão semelhantemente à fama transitória da indústria musical pop. Não há, também, resenhas e críticas em revistas ou sites que apontem excessos ou mercantilização, pois &#8220;tudo serve para evangelizar e salvaguardar o jovem crente do mundo&#8221;.</p>
<p>Não estou dizendo que os hinários não contenham algumas melodias esquecíveis e letras empostadas que não falam ao espírito moderno e muito menos quero dizer que o melhor da música cristã foi composto há 150 anos ou que não há lugar para letras simples e facilmente memorizáveis. Nenhum repertório geral está consolidado para sempre. Por outro lado, é bom refletirmos sobre os recentes critérios de elaboração musical que têm reduzido a música sacra a conceitos individualistas de gosto e têm transformado o fator inovação em uma banalizada estratégia de marketing.</p>
<p>Assim como a superficialidade poética tem substituído a densidade teológica e a teatralidade gestual tem se tornado uma marca pessoal do cantor evangélico, os esforços de comunicar-se com a juventude, se podem dar sentido e relevância aos conteúdos bíblicos tradicionais, em algumas situações têm se deixado modelar pelos estereótipos da indústria do pop adolescente.</p>
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		<title>atrás do trio elétrico gospel</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Feb 2009 17:39:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O primeiro mandamento do gospel nacional é: não há mandamentos. Não há regras. A música gospel já está parecendo uma final eterna do Ultimate Fight, um vale tudo cada vez mais liberado. Funciona mais ou menos assim: alguma mente bem-intencionada descobre que, para chegar junto da moçada de sensibilidade amortecida, é preciso usar as mesmas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1172" title="triogospel" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/02/triogospel.jpg" alt="triogospel" width="590" height="264" />O primeiro mandamento do gospel nacional é: não há mandamentos. Não há regras. A música gospel já está parecendo uma final eterna do Ultimate Fight, um vale tudo cada vez mais liberado. Funciona mais ou menos assim: alguma mente bem-intencionada descobre que, para chegar junto da moçada de sensibilidade amortecida, é preciso usar as mesmas músicas que levam a galera à loucura, uhu, tira o pé do chão! Daí, meu bom, a parada é evangelizar com a unção do axé e do funk, bota pra ferver, brother!<span id="more-1171"></span></p>
<p>Até outro dia o povo andava esperando por milagre. A turma até pode estar esperando, mas não em pé, que em pé cansa. Nem sentado também. Enquanto a benção não vem, a turma sacode o esqueleto que crente não é de ferro, e uma micareta santificada não faz mal a ninguém, faz a <a href="http://letras.terra.com.br/aline-barros/1243322/" target="_blank">dança do quaquito</a> aê pra gente se animar, Aline Barros! (Please, Aline, você não, por favor).</p>
<p>A controvérsia da vez é a cantora Jake e a canção Pó pará com pó. E como toda controvérsia em forma de música, já virou sucesso. A moça de cabelos, voz, energia e passinhos no melhor/pior estilo Daniela Mercury se tornou uma celebridade via youtube. A música, do gênero axé-pop-gospel (se isso não existia, acaba de vir à existência), apresenta a cantora animadíssima no programa Vozes da Igreja da TV Aparecida.</p>
<p>A letra seria um instrumento de combate às drogas (“pó pará cum pó aí”, traduzindo, pode ir parando de cheirar pó&#8230; aí). A cantora alerta que, em vez de cocaína, o melhor é tomar “uma overdose de Jesus” e, na metáfora do ano, “injetar na veia o sangue que correu na cruz”. Onde estava essa música na hora que Jimi Hendrix mais precisava dela?</p>
<p>Ainda tem os versos enlouquecidos de “overdose de alegria” e “Shekinah doidão, doidão”. No vídeo, Jake diz que “católico também tem muito axé”. É ou não é o samba ou o axé do crente doido?</p>
<p>Não faz muito tempo e o grupo secular Asa de Águia cantava que “na casa do Senhor não existe Satanás, xô Satanás,&#8230;”, e o público se esbaldava de tanta folia. A canção era uma sátira às célebres sessões de descarrego e exorcismo de algumas igrejas neopentecostais. A canção da católica Jake parece produzir um efeito semelhante ao das canções carnavalescas. Letra divertida, muita dança e finalidade de entreter. Se ela acha que as pessoas serão conscientizadas em meio a tanto barulho, badalação e folia&#8230;</p>
<p>Não quero dar ideia, mas reúna a axé-saltitante Jake e a pop-crente Cláudia Leitte para cantar esse hit no palco do carnaval. Não há ecumenismo que resista a esse som. E mais, nem como alerta antidrogas a música vai funcionar. Será tragicômico saber de muita gente “doidona” viajando e pulando ao som de Pó pará com pó. Será que atrás do trio elétrico gospel só não vai quem já morreu?</p>
<p><object width="590" height="344" data="http://www.youtube.com/v/op3HZtYb4oo&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;rel=0" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/op3HZtYb4oo&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p>
<p>Foto por <a href="http://flickr.com/photos/mestro" target="_blank">Mestro Chi</a></p>
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		<title>o gospel e o melhor de dois mundos</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jan 2009 13:20:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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Uma das frases mais conhecidas nas igrejas diz que o cristão &#8220;ESTÁ no mundo, mas não É do mundo&#8221;. O que para os críticos soa como esquizofrenia &#8211; o cristão seria alguém que vive numa quinta dimensão ou num mundo paralelo &#8211; e para alguns teóricos é uma anomalia &#8211; o que é isso que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/01/gospel.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1089" title="gospel" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/01/gospel.jpg" alt="gospel" width="590" height="264" /></a></p>
<p>Uma das frases mais conhecidas nas igrejas diz que o cristão &#8220;ESTÁ no mundo, mas não É do mundo&#8221;. O que para os críticos soa como esquizofrenia &#8211; o cristão seria alguém que vive numa quinta dimensão ou num mundo paralelo &#8211; e para alguns teóricos é uma anomalia &#8211; o que é isso que chamam de &#8220;mundo&#8221;, perguntam -, para os cristãos é uma convicção simples.<span id="more-1087"></span></p>
<p>&#8220;Mundo&#8221; não é entendido como local físico de habitação, onde eu leio jornal, assisto televisão e converso com o vizinho. &#8220;Mundo&#8221; são as práticas anti-cristãs da sociedade. Essa dicotomia separa o mundo que se degrada moralmente do restaurador reino de Deus. O que intelectuais conseguem complicar as mentes mais simples distinguem claramente. Enquanto os pensadores não entendem ou fingem não entender esse paradoxo, os cristãos fazem essa clivagem sem perplexidades. Ou pelo menos faziam.</p>
<p>O que tem causado certo espanto no meio evangélico é a passagem de artistas gospel por dois mundos: o secular e o cristão. Em 2008, o grupo Artpella foi o vencedor de uma das finais do programa Astros, do SBT. Por sua vez, a cantora evangélica Soraya Moraes, além de receber prêmios nas categorias gospel, ganhou o Grammy Latino de &#8220;Melhor Canção Brasileira&#8221;, concorrendo com Vanessa da Matta &amp; Sérgio Mendes, Jorge Vercilo e Djavan.</p>
<p>No caso do Artpella, questionou-se a presença de um grupo adventista num programa de competição musical secular. De Soraya Moraes, levantou-se dúvidas sobre a integridade da premiação.</p>
<p>Os defensores do Artpella argumentam que o triunfo do grupo representa um aumento da visibilidade social da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), reconhecida pelo trabalho hospitalar e educacional, mas sem maior penetração midiática (a IASD ainda é uma das poucas igrejas protestantes históricas ou tradicionais que mantém constante crescimento).</p>
<p>Circulam dois vídeos do Artpella no programa Astros. No primeiro, salta aos olhos o quanto os jurados do programa parecem tocados. Tocados artisticamente (espiritualmente, só eles poderão dizer). O próprio Carlos Eduardo Miranda, produtor musical tarimbado e o mais debochado da banca, não se conteve e disse que pediria &#8220;o grupo emprestado a Deus&#8221; para a música pop, diante da qualidade do que ouviu.</p>
<p>Primeiro, Miranda tem noção da baixa qualidade artística da música pop brasileira atual. Segundo, fico pensando: se ele chegasse a ouvir o cd Arautos do Rei A Capella ou o grupo Novo Tom cantando a capella a canção &#8220;O Amor é Jesus&#8221;, o que diria ou sentiria?</p>
<p>Voltando aos vídeos do Artpella, é nítida a mudança entre eles. Se no primeiro vídeo eles cantam uma música calma, de letra e harmonia vocal até comuns, no segundo, quando são declarados vencedores, o grupo parece outro. A transformação visual, obra das mãos dos produtores do programa, segue estereótipos do figurino de astros da black music americana. A indumentária do primeiro vídeo é mais natural e despojada. No segundo, eles estão produzidos e uniformizados como um grupo fabricado pelo departamento de marketing de gravadoras (lembrando que a natureza do programa é descobrir talentos e, a seguir, moldá-los segundo fórmulas fáceis do mercadão musical).</p>
<p>A submissão a estereótipos atinge também a música que cantaram. O ambiente não favorece a alegria ou animação da música, a qual parece apenas feita pra pular &#8220;em nome de Jesus&#8221;. Os jurados põem os pés sobre a mesa, a postura do público é de claque induzida à falsa histeria, tudo soa artificial. Perguntas que eu faria aos irmãos do Astros: O que ficou, então? A primeira ou a última impressão?</p>
<p><a href="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/01/sorayagrammy.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1086" style="border: 5px solid white;" title="sorayagrammy" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2009/01/sorayagrammy.jpg" alt="sorayagrammy" width="192" height="253" /></a>Já o triunfo de Soraya Moraes (foto) no Grammy Latino &#8211; a cantora ganhou os troféus de Álbum de Música Cristã tanto em Língua Espanhola (com &#8220;Tengo sed de Ti&#8221;) quanto em Língua Portuguesa (com &#8220;Som da Chuva&#8221;), e de Canção Brasileira (por &#8220;Som da Chuva&#8221;) &#8211; tem a ver com a forma de votação da premiação, restrita aos membros da Academia Latina de Gravação (LARAS, na sigla em inglês).</p>
<p>Segundo reportagem de O Globo (30/10), nos últimos anos, muitos artistas e produtores brasileiros de música evangélica se inscreveram na Laras, conseguindo assim não só uma categoria própria (Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa) como peso de voto para emplacar agora uma indicada (e vencedora) na de Canção Brasileira, que, nas edições anteriores do prêmio, era exclusiva de artistas da MPB.</p>
<p>E assim, voltamos a dicotomia sacro x secular. Os evangélicos se propõem a participar de competições musicais com a música que fazem. Essa participação revela um duplo sentido: o proselitismo cristão &#8211; o conteúdo de sua música divulga mensagens de sua fé; a auto-afirmação social &#8211; a forma de sua música nivela-se aos estilos musicais em voga e o cristão não é mais considerado um estranho sectário.</p>
<p>Perguntas que eu faria aos irmãos do Grammy: qual a validade de um prêmio quando ele está vinculado aos interesses corporativistas de músicos evangélicos? O fato de ser cristão impede que se reconheça a qualidade artística de músicos não-convertidos?</p>
<p>A resposta da própria Soraya Moraes, também pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular em Alphaville (SP), explica: &#8220;O grande diferencial da música cristã e gospel é a letra, inspirada por Deus&#8221;. Logo, a concorrência é automaticamente eliminada.</p>
<p>Cada geração comunicará sua fé religiosa por meio das expressões culturais relevantes em sua época, em geral, emprestadas da sociedade secular e cristianizadas ou sacralizadas. Porém, quando as estratégias de promoção do cristianismo geram submissão à indiferenciação de estilo ou produzem corporativismo e partidarização, é de se pensar se essa busca por aceitação e respeitabilidade não borra os traços de distinção e passa a imitar aquilo que chamam de &#8220;mundo&#8221;.</p>
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		<title>Música sacra através dos tempos</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Dec 2008 14:13:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em uma igreja dos anos 60:
"Esses que se dizem Arautos do Rei são uns arautos é da tradição dos quartetos de barbearia dos Estados Unidos. Música sacra mesmo existiu nos tempos de Ira Sankey".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-990" title="sacra" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/12/sacra.jpg" alt="sacra" width="590" height="264" /></p>
<p>Entreouvido num auditório de uma importante universidade do interior paulista onde um grupo vocal acaba de testar a comunhão da platéia:<br />
<em>&#8220;Esse novo grupo está trazendo a música popular para a igreja. Música sacra era mesmo no tempo dos discos dos Heritage Singers&#8221;</em>.</p>
<p>Em um templo dos anos 80:<br />
<em>&#8220;Esses Heritage Singers são a cópia dos Carpenters. Música sacra mesmo era nos tempos de Henry Feyrabend e os Arautos do Rei&#8221;</em>.</p>
<p>Em uma igreja dos anos 60:<br />
<em>&#8220;Esses que se dizem Arautos do Rei são uns arautos é da tradição dos quartetos de barbearia dos Estados Unidos. Música sacra mesmo existiu nos tempos de Ira Sankey&#8221;</em>.</p>
<p>Em um acampamento de reavivamento durante a Grande Depressão em 1929:<br />
<em>&#8220;Agora temos que cantar essas valsas de Ira Sankey. Só ouvi música sacra quando cantávamos os hinos de Lowell Mason&#8221;</em>.<span id="more-989"></span></p>
<p>Em encontro de ministros de música americanos em 1890:<br />
<em>&#8220;Esse Lowell Mason imita a tradição européia daqueles músicos maçons. Bom mesmo é quando adaptávamos as canções tipicamente americanas de Stephen Foster&#8221;</em>.</p>
<p>Em uma congregação na Chicago de 1860:<br />
<em>&#8220;Como podemos adorar com esse piano de cabaré e estas canções adaptadas do teatro de Stephen Foster? Ah, como era bom quando erguíamos nossa voz ao som dos hinos dos irmãos Wesley&#8221;</em>.</p>
<p>Em uma palestra sobre música em 1800:<br />
<em>&#8220;Irmãos, abandonemos esse cancioneiro popularesco dos Wesley e adoremos com os antigos e sacros hinos do doutor Isaac Watts&#8221;</em>.</p>
<p>Nos cultos dos recém-independentes americanos em 1776:<br />
<em>&#8220;Essas notas do irmão Watts ferem os ouvidos mais convertidos. Música sacra eram apenas os salmos de João Calvino. Oh, que belos hinos se cantam lá na Europa&#8221;</em>.</p>
<p>Em uma igreja luterana alemã do século 1730:<br />
<em>&#8220;O novo organista, o tal Bach de quem falam, tem um estilo um tanto ultrapassado e escreve notas demais nas suas cantatas. Por que ninguém compõe mais como Lutero?&#8221;</em></p>
<p>Em um concílio eclesiástico no século XVI:<br />
<em>&#8220;Esse Lutero destruiu a beleza da santidade da liturgia. Agora o povo anda a cantar melodias de cavaleiros&#8221;</em>.<br />
<em>&#8220;E, como se não fora o bastante, cantam em língua de homens! Por isto e muito mais, excomunguemo-lo&#8221;.</em></p>
<p>Do lado de fora do templo de Salomão recém-inaugurado:<br />
<em>&#8220;É, a música é decerto boa. Mas o pai dele escrevia letras mais sacras&#8221;.<br />
&#8220;Davi? Qual o quê! Fomos obrigados a cantar salmos com a melodia de ‘Os lírios&#8217; ou de ‘Os lagares&#8217;, lembra?&#8221;.<br />
&#8220;É que as pessoas aprendem um cântico novo mais rápido quando já conhecem a melodia&#8221;.<br />
&#8220;Aquietem-se, os dois! Vós sois jovens em demasia. Se a ciência já tivesse se multiplicado eu vos mostraria uma gravação do tempo dos cânticos de Moisés. Aquilo, sim, é que era a verdadeira música sacra&#8221;.</em></p>
<p><span style="font-size: 85%;">Acima, a tela <em>&#8220;Anjos cantando e tocando música&#8221;, </em>1432, de Jan van Eyck<em>.</em></span></p>
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		<title>Eram os deuses mercadores?</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Nov 2008 12:54:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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“A todos os Homens e Mulheres de Deus, cujo Espírito Santo despertou, venha trabalhar conosco para tomarmos posse da terra prometida”.

Esse é um apelo para evangelizar a Palestina? É um chamado avivalista para a conversão? Nada disso. É apenas a convocação de distribuidores do refrigerante Leão de Judá Cola. A terra prometida é anunciada no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-971" title="juda" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/11/juda.jpg" alt="" width="590" height="264" /></p>
<p><em>“A todos os Homens e Mulheres de Deus, cujo Espírito Santo despertou, venha trabalhar conosco para tomarmos posse da terra prometida”.<br />
</em><br />
Esse é um apelo para evangelizar a Palestina? É um chamado avivalista para a conversão? Nada disso. É apenas a convocação de distribuidores do refrigerante <strong>Leão de Judá Cola</strong>. A terra prometida é anunciada no <a href="http://www.leaodejudacola.com/">site</a> da empresa: o mercado de refrigerantes no Brasil que movimentou 19 bilhões de reais em 2007.</p>
<p>O irmãozinho, a irmãzinha tem dúvidas sobre a garantia do negócio? A empresa, não. Segundo informa, <em>“o Espírito Santo já nos confirmou que Ele tem 7 MIL Distribuidores Leão de Judá somente no Brasil, que o próprio Deus escolheu para trabalharmos juntos”</em>.</p>
<p>Para ratificar a segurança do negócio, a empresa cita um verso bíblico: <em>“Também conservei em Israel SETE MIL, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, &#8230; (I Reis 19:18)</em>.<span id="more-970"></span></p>
<p>O Leão de Judá Cola é a proposta do empresário Moisés Magalhães para dominar o mercado mundial, sim, mundial, de refrigerantes. De volta ao site: <em>“Assim como o Senhor Jesus dividiu a história em antes e depois Dele, determinamos em nome do Senhor Jesus dividirmos a história do refrigerante em antes e depois do Leão de Judá Cola”</em>. Se parece um plano projetado pela dupla Pinky e Cérebro, aqueles ratinhos megalomaníacos que querem dominar o mundo, veja como a Alfa Gold, a empresa que distribui a bebida, pretende realizar os treinamentos:</p>
<p><em>“A Alfa Gold utiliza o mesmo sistema de treinamento que o Senhor Jesus utilizou para formar os 12 apóstolos – o Discipulado”</em>.</p>
<p>Para ninguém duvidar da liderança do empresário Moisés Magalhães, mais emprego da Bíblia para ungir a missão do Leão de Judá Cola: <em>“Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei” (Josué 1:5)</em>. Esse parece um empresário que não cabe em si de tantas comparações, mas que tem seu lado humilde, pôxa vida! Direto do <a href="http://www.leaodejudacola.com/">site</a>:</p>
<p><em>“Não temos prata nem ouro, não vamos viver juntando tesouros na terra e sim no céu”, pois “o Senhor Jesus é o Dono e Senhor da marca Leão de Judá e da empresa Alfa Gold”</em>. Como a missão é da mais alta nobreza evangelística, o empresário anunciou que vai doar para projetos sociais 10% da renda obtida com as vendas da bebida.</p>
<p>Apesar de não querer ajuntar tesouros onde a traça e os juros altos corroem, o desejo da empresa não podia ser mais explícito: <em>“Vamos conquistar cada consumidor no Brasil e no mundo”</em>. É a santificação da megalomania. Mas não se pode criticar o que vai no coração, não é, irmão, não é, irmã?</p>
<p>O que vale é a intenção? Então, que tal verificar a seção <em>“Nossa Missão”</em> no site da empresa? O primeiro item diz: <em>“Refrigerar o consumidor no Brasil e no mundo – corpo, alma e espírito”</em>. Hesitações quanto à sinceridade? O site declara: <em>“Somos dizimistas fiéis”</em>.</p>
<p>Tem ainda os 10 Mandamentos do refrigerante Leão de Judá. O décimo mandamento: <em>Crescimento Global”</em>. Contenha o riso, por favor. O segundo “mandamento” ordena: <em>“Amar ao Próximo: amarmos nossos consumidores como a nós mesmos”</em>. Fique à vontade.</p>
<p>Essa espécie de marketing bíblico-agressivo tem se tornado um padrão no mercado evangélico neopentecostal. Basta um novo comerciante, um novo cantor, um novo bispo ou pastor/a dizer que o CD/DVD-gravado-ao-vivo-com milhares-de-fiéis está “ungido” e acredita-se que o objeto está mesmo. A “santificação” de qualquer acessório vira um penduricalho de Jesus, um balangandã do Senhor. Se é feito em nome da divindade, se é para alcançar os inalcançáveis, não se pode questionar os meios porque os fins são “santos”.</p>
<p>Desnecessário dizer que o mercado religioso tinha pouca possibilidade de escapar do processo de industrialização. O problema não está no crescimento desse comércio, nem mesmo no termo “comércio”. Problemas surgem quando uma empresa se presta a declarar em seu site que <em>“toda nossa estratégia de fabricação, venda e mídia vem da Bíblia”</em>, <em>“que a marca Leão de Judá nasceu de uma fé sacrificial”</em>.</p>
<p>Critica-se o governo, a polícia, a televisão e, principalmente, os técnicos de futebol. Mas não se pode pôr em dúvida as estratégias do mercado “cristão”.</p>
<p><em>“Temos que lutar e perseverar para transformar o mundo pela renovação de nossa mente”</em>. Não, não é um conselho meu. É mais uma frase contraditória da propaganda do refrigerante Leão de Judá Cola.</p>
<p><em>Oops, I did it again</em>. Desconfiei de novo dos intuitos da empresa. Aí vai meu incentivo, então:</p>
<p>“Parem as máquinas! Rasguem as vestes! Bebam Leão de Judá Cola!”</p>
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		<title>Canção Cristã e Cultura Brasileira</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Nov 2008 12:52:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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Por que a maioria dos protestantes brasileiros aprecia uma hinologia ou um conjunto de músicas de origem americana ou européia mas demonstra pouca tolerância para com as canções religiosas de estilo popular nacional?
Esta é uma pergunta a qual podemos dar várias respostas erradas, como: é uma questão de gosto, ou, é o respeito às tradições [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-930" title="musica" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/11/cancao.jpg" alt="" width="590" height="264" /></p>
<p>Por que a maioria dos protestantes brasileiros aprecia uma hinologia ou um conjunto de músicas de origem americana ou européia mas demonstra pouca tolerância para com as canções religiosas de estilo popular nacional?</p>
<p>Esta é uma pergunta a qual podemos dar várias respostas erradas, como: é uma questão de gosto, ou, é o respeito às tradições litúrgicas, ou ainda, é devido ao preconceito em relação à cultura brasileira, e a pior de todas, deve-se a uma alienação cultural americanizada e pequeno-burguesa.</p>
<p>Vou procurar algumas respostas que podem explicar esse tema que divide gerações de fiéis.<span id="more-929"></span></p>
<p>Gosto (o bom e o mau, se me permitem os relativistas mais ferrenhos) é algo que se constrói socialmente. Para Pierre Bourdieu, as diferenças entre os gostos musicais não se assemelham às diferenças de paladar alimentício &#8211; este estaria mais profundamente inscrito em nossos corpos que o paladar musical. O estudioso francês acrescenta que os diferentes gostos musicais não remetem unicamente a &#8220;preferências últimas e inefáveis, mas a diferenças no modo de aquisição da cultura musical&#8221; (Sociología y cultura, p. 178).</p>
<p>Como a hinologia protestante foi adquirida, então? Para alguns pesquisadores, como Prócoro Velásques e Antonio G. Mendonça, as missões norte-americanas tinham um pendor eurocêntrico e entendiam que sua cultura era superior a dos povos da América do Sul. Assim, a dominação econômica encontrava um correspondente na dominação cultural e religiosa, dominação essa que repudiava a música local e favorecia a adoção de uma hinologia euro-americana/estrangeira (ver Introdução ao protestantismo no Brasil, dos dois autores; ou O celeste porvir, de Antonio G. Mendonça).</p>
<p>Essa visão está bem simplificada aqui, mas traduz teoricamente a essência de um pensamento amparado no discurso nacionalista e marxista que procura explicar os fenômenos sociais pela ótica do conflito de classes. Esse argumento consolidou-se no Brasil dos anos 1960, quando a dicotomia nacional-popular versus cultura anglófona chegou ao ridículo de se promover uma marcha dos artistas contra a guitarra (era um instrumento do rock, que nasceu nos EUA, que eram o império colonialista, etc) e ao mesmo tempo coroava-se como &#8220;legítimo&#8221; e &#8220;autêntico&#8221; o estilo de raiz nacional (baião, sertanejo, samba).</p>
<p>Esse discurso, que conferia autencidade e legitimidade somente às músicas fiéis a uma tradição cultural de origem brasileira, ao espaço sociogeográfico das classes populares (o sertão, o morro) e ao argumento de independência cultural em relação ao mercado e às nações dominantes, chegou às igrejas protestantes nos anos 1970 refletindo o pensamento sociológico da época e modificando os padrões de composição de canções religiosas.</p>
<p>Com 30 anos de atraso, o mesmo discurso só agora alcança algumas igrejas adventistas e luteranas, por exemplo. A música de &#8220;raiz&#8221; nacional procura seu espaço na hinologia protestante. Porém, as justificativas encontradas são obsoletas. Primeiro, porque &#8220;cultura brasileira&#8221; não é um conceito monolítico que uma vez erguido estará consolidado para sempre. Ao contrário, trata-se de um conceito extremamente fluído e contraditório (quem diria, nos anos 60, que surgiria algo como rock &#8220;nacional&#8221; ou funk &#8220;carioca&#8221;). Em segundo lugar, o público, em especial a juventude, não se importa com questões de identidade nacional, mas prefere os símbolos e objetos mundializados, os gêneros e as performances transmitidos via mídia, remontando-os em perspectiva diversa da original.</p>
<p>A música popular brasileira é um referente atual para a música cristã. Os pontos positivos que essa perspectiva pode expressar (e há músicos capazes para tanto) também dão lugar a problemas surgidos quando a renovação musical se dá por meio de um pragmatismo evangelístico entusiasticamente abraçado ou quando se acredita que a totalidade de uma cultura é plenamente aceitável quando transladada para o espaço da adoração cristã.</p>
<p>Voltando a questão no topo da página &#8211; o porquê da aceitação da hinologia tradicional em detrimento de uma música cristã popular brasileira -, nota-se que o argumento da autenticidade e legitimidade faz pouco sentido no espaço cultural hiper-globalizado. O debate marxista de conflito de classes, isto é, missionários a serviço do imperialismo norte-americano impingindo uma cultura &#8220;importada&#8221;, é um raciocínio que padece de xenofobia e descarta a reação e os anseios dos novos conversos, que os torna meros receptores passivos.</p>
<p>Michel de Certeau afirma que o sentido e o uso dos produtos culturais, dos sons musicais, na vida individual e social das pessoas não podem ser completamente determinados (A invenção do cotidiano, 1994). Assim, deve-se levar em conta também outros fatores para a adoção da hinódia protestante euro-americana:</p>
<p style="padding-left: 30px;">a) A ausência de referências sociogeográficas: os novos conversos desconheciam a origem da música (se era um folk irlandês, uma marcha da Guerra Civil americana, uma balada do teatro, uma canção de saloon), mas podiam aceitá-la pelo simples motivo de que era diferente das canções dos festejos a que estava acostumado antes da conversão;</p>
<p style="padding-left: 30px;">b) A noção protestante do sagrado: o &#8220;sagrado&#8221; significava algo era &#8220;separado&#8221; para as atividades religiosas. A hinódia euro-americana recebida pelos novos protestantes expressava um caráter diferenciado ao ser cantada no local de adoração, modelando uma perspectiva litúrgica distanciada de práticas musicais sincréticas que serviam tanto para as festividades religiosas quanto para a diversão mais sensual.</p>
<p>Se lembrarmos também do preconceito e da marginalização sofridos pelos conversos no período de inserção do protestantismo no Brasil, veremos que a adoção daquela hinologia &#8220;importada&#8221; marcava uma construção de identidade coletiva interna e também uma diferença externa em relação aos cultos afro-brasileiros e católicos. Não se pode negar que houve (e há) certo sectarismo nessa perspectiva.</p>
<p>Por outro lado, havia (e há) uma clara relação de estilos musicais com atividades que se opunham frontalmente aos princípios cristãos, o que pode ter motivado tanto a recusa de determinados gêneros como o afastamento social. Assim, esse distanciamento precisa ser revisto pela ótica da segregação sofrida e da auto-preservação moral.</p>
<p>São questões candentes que valem uma reflexão a respeito. E o primeiro passo para o entendimento possível é o diálogo. Meu objetivo não é conceder as únicas respostas, mas espero fazer as perguntas certas e até esquecidas.</p>
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		<title>Grande Esperanças</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Nov 2008 14:59:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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Um homem sobe apressadamente os degraus e se posiciona no pódio da vitória. Ele levanta as mãos e fala agradecido de seus amigos e de sua família e menciona o empenho e o valor de seus adversários. Essa é uma cena recente protagonizada tanto por Lewis Hamilton quanto por Barack Obama. Nas primeiras horas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/11/obama.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-918" title="obama" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/11/obama.jpg" alt="" width="590" height="264" /></a></p>
<p>Um homem sobe apressadamente os degraus e se posiciona no pódio da vitória. Ele levanta as mãos e fala agradecido de seus amigos e de sua família e menciona o empenho e o valor de seus adversários. Essa é uma cena recente protagonizada tanto por Lewis Hamilton quanto por Barack Obama. Nas primeiras horas de um triunfo histórico, ambos viram a vida pelo retrovisor e relembraram em segundos a trajetória de marchas e contramarchas, de acertos profissionais, de dura dedicação. <span id="more-917"></span></p>
<p>Três dias depois do primeiro negro, Lewis Hamilton, ser campeão mundial de Fórmula 1, Barack Obama será o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O fator melanina é um detalhe histórico, mas nunca é tudo. Por isso, escrevo de outro modo: Hamilton é o mais jovem piloto campeão mundial e Obama é o presidente eleito em que se depositam as maiores esperanças de mudança social e política.</p>
<p>Apreciamos ver pessoas que são exemplos de retidão moral e desempenho esportivo ou artístico. Ainda mais quando sabemos que seu triunfo é o coroamento da conjunção de talento, persistência, esforço e coragem. O piloto que avança sobre recordes é a vitória coordenada do homem sobre a máquina, é o espelho da tecnologia dominada. O político que atrai as esperanças representa a superação do preconceito, é o reflexo de uma política de diálogo e conciliação.</p>
<p>A vitória de uns é o sinal de que outros saíram perdendo. Em geral, se põe a culpa nos outros. John McCain, o candidato vencido nas urnas americanas, disse que a responsabilidade pela derrota era dele próprio. É preciso honradez para tanto. Felipe Massa, que ganhou a corrida mas não levou o campeonato, ao fim do Grande Prêmio do Brasil foi saudado  pela torcida como herói. É preciso dignidade para não ser o vitorioso e ainda sim ser celebrado.</p>
<p>Na derrota é que nosso caráter aparece e que a nobreza se mostra. No triunfo, nossas esperanças são acesas e a fidelidade aos princípios se revela. Já nos ensinaram que precisamos saber perder. E sabemos ganhar? Já sabemos como ganhar?</p>
<p>“Ad augusta per angusta”, a vitória requer sofrimento, mas nem sempre se está disposto a pagar o preço, somente alguns dão mais uma volta no circuito quando os outros já pararam, nem todos querem superar os obstáculos com honestidade e trabalho.</p>
<p>Não tenho nem sete hábitos nem quarenta fórmulas para lhe ensinar a vencer. Isto é algo que eu também preciso aprender. Mas já sei, pela Bíblia, que VENCEDOR é aquele que não apenas corre, mas completa a carreira e ainda guarda a fé. É desse tipo de vencedor que o mundo precisa.</p>
<p>Imagem pintada por<a href="http://popaganda.com/" target="_blank"> Ron English</a> e disponibilzada sob Creative Commons em <a href="http://flickr.com/photos/laughingsquid/2546673450/" target="_blank">Laughing Squid</a></p>
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		<title>Enxergando através da cegueira</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Oct 2008 15:06:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
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Certo dia, sem mais nem menos, pessoas começam a ficar cegas. Submetidas à convivência forçada, elas experimentam não apenas as agruras da escuridão visual, mas passam a vivenciar a cegueira da razão e do amor, quando aumentam as disputas pelo poder e subtraem-se a tolerância e o senso de partilha. Este é o ponto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-817" title="cegueira" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/10/cegueira.jpg" alt="" width="590" height="264" /></p>
<p>Certo dia, sem mais nem menos, pessoas começam a ficar cegas. Submetidas à convivência forçada, elas experimentam não apenas as agruras da escuridão visual, mas passam a vivenciar a cegueira da razão e do amor, quando aumentam as disputas pelo poder e subtraem-se a tolerância e o senso de partilha. Este é o ponto de partida do livro Ensaio de uma Cegueira, do português José Saramago (também filme de Fernando Meirelles). <span id="more-816"></span></p>
<p>Na história, apenas uma mulher conserva a visão, e é ela que servirá de guia para a turba de cegos; é ela que será vítima resignada, junto com as mulheres cegas, da torpeza moral masculina; é ela que terá a chance de retirar os cativos de uma espécie de caverna de Platão, dirigindo os outros e a si para a luz. Alguns destes perceberão que, mesmo quando eram capazes de ver, nunca souberam enxergar. Só agora, quando nada vêem é que, na verdade, podem realmente enxergar que são todos seres desgraçados e precisam uns dos outros e de alguém que conheça o caminho da luz.</p>
<p>Esta é uma parábola para qualquer tempo, pois há muito tempo que deixamos de ver (desde o primeiro homem e a primeira mulher), há muito que pensamos estar agarrando a verdade, quando estamos só tateando o mistério, há muito que pensamos estar à frente dos outros, quando andamos como cegos guiando cegos.</p>
<p>O apóstolo Paulo, quando ainda Saulo, foi repentinamente cegado. Ele não foi curado na cena seguinte. Ele precisava experimentar a cegueira para enxergar mais longe. Deixando de ver o mundo tátil, ele poderia prestar atenção verdadeiramente às coisas espirituais, ele poderia escutar a voz do Cristo a Quem perseguia. Um paradoxo completo: Saulo, vendo, perseguia cristãos e fazia mal ao evangelho; Paulo, cego, descobriu que sua missão era tornar-se um perseguido em nome do evangelho.</p>
<p>Precisamos mudar o modo como vemos, é premente a necessidade de transformarmos o olhar. Nossa visão precisa ser tão vasta que caiba as lições do passado, tão penetrante que possa distinguir o melhor para nossa vida futura e tão amável que possa cativar nosso próximo. Será preciso a cegueira para que enxerguemos melhor? Será que somente quando cegos é que veremos nossa justiça de trapos, nossa intolerância mal-escondida, nosso desamor?</p>
<p>Pedir a Deus que Ele nos abra os olhos é pedir que Ele nos tire da cegueira espiritual. Assim, poderemos observar qual é a vontade do Pai, enxergar nosso semelhante como um de nós e, então, dizer como os discípulos:&#8221;nós vimos a Sua glória&#8221;.</p>
<p>Foto por <a href="http://flickr.com/photos/56923527@N00/147724631/">Francis A. Willey</a></p>
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		<title>Uma vida sem limites</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Sep 2008 14:46:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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Nas Olimpíadas de Pequim celebrou-se a destreza das máquinas humanas de competir. Mas nos Jogos Paraolímpicos é que se percebe o quão alto e nobre pode o homem chegar a ser. Nas Paraolimpíadas não há derrotados. São todos vitoriosos por nadar contra a correnteza social, correr atrás da &#8220;normalidade&#8221; perdida, saltar os obstáculos do preconceito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-689" title="nike_samocracia" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/09/nike_samocracia.jpg" alt="" width="590" height="264" /></p>
<p>Nas Olimpíadas de Pequim celebrou-se a destreza das máquinas humanas de competir. Mas nos Jogos Paraolímpicos é que se percebe o quão alto e nobre pode o homem chegar a ser. Nas Paraolimpíadas não há derrotados. São todos vitoriosos por nadar contra a correnteza social, correr atrás da &#8220;normalidade&#8221; perdida, saltar os obstáculos do preconceito e voar, sim, voar para além de uma sociedade orientada para a beleza exterior e a aparência física &#8220;perfeita&#8221;.</p>
<p>Os atletas das Paraolimpíadas são como a estátua grega Vitória de Samotrácia<span id="more-688"></span> (foto). Essa estátua simbolizava as conquistas helênicas na guerra, mas foi encontrada sem algumas partes do</p>
<div id="attachment_690" class="wp-caption alignright" style="width: 186px"><img class="size-full wp-image-690" title="Vitória de Samotrácia" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/09/2594142795_8325553a6e_m.jpg" alt="Vitória de Samotrácia no Louvre" width="176" height="240" /><p class="wp-caption-text">Vitória de Samotrácia no Louvre</p></div>
<p>corpo. Isso, porém, em nada diminuiu seu valor. A estátua, também chamada Niké (vitória, em grego), tem a incompletude formal derivada da ação da natureza, mas possui dignidade altaneira e beleza soberana.</p>
<p>Assim são os atletas paraolímpicos: perderam o controle de partes do corpo ou nem mesmo têm a totalidade de braços e pernas, mas suas simples presenças antes da largada sinalizam uma vitória pessoal irrestrita. Veja-se o nadador brasileiro Daniel Dias: suas restrições físicas não lhe impedem de bater recordes. Ou os corredores cegos que sonham com as cores do mundo e conquistam, mais que títulos, um novo modo de viver. Ou os cadeirantes, que trafegam velozmente pelas pistas, pelas quadras, afugentando a auto-piedade destrutiva, rodopiando em suas cadeiras a plena exaltação da vida.</p>
<p>O que faz com que esses atletas não se atirem para fora da vida, quando a própria vida se lhes afigura feito um portão fechado e intransponível, quando lutar contra a desventura é como correr atrás do vento? João Cabral de Mello Neto oferece uma saída em Morte e Vida Severina:</p>
<blockquote><p>Seu José, mestre carpina,<br />
e em que nos faz diferença<br />
que como frieira se alastre,<br />
ou como rio na cheia,<br />
se acabamos naufragados<br />
num braço do mar miséria?<br />
Severino, retirante,<br />
muita diferença faz<br />
entre lutar com as mãos<br />
e abandoná-las para trás,<br />
porque ao menos esse mar<br />
não pode adiantar-se mais.</p></blockquote>
<p>Ao ver esses atletas bailando na adversidade com tal gosto pela vida, podemos lembrar dos versos de Ferreira Gullar:</p>
<blockquote><p>Como dois e dois são quatro<br />
Sei que a vida vale a pena<br />
Mesmo que o pão seja caro<br />
E a liberdade pequena</p></blockquote>
<p>Esses mesmos atletas valorizam cada fôlego da vida, e nada os impede de cantar que a vida é bonita, é bonita e é bonita. E quando a locomoção parece improvável e o movimento impedido, eles são capazes de conviver com restrições, fabricar outros limites e engrandecer o sentido de liberdade, descobrindo novas e especiais possibilidades.</p>
<p>&#8220;Tudo quanto te vier à mão, faze-o conforme tuas próprias forças&#8221; (A Bíblia).</p>
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		<title>Para viver com esperança</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Sep 2008 00:29:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[Cristo]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Esperança]]></category>
		<category><![CDATA[fé]]></category>

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		<description><![CDATA[
Você sabe quais são as três frases que as pessoas mais gostam de ouvir?
Começando pela primeira: &#8220;Eu te amo&#8221;. Ainda não nasceu quem não queira amar e ser amado. E dependendo de quem diz e de quem ouve, essa pode ser a frase de uma vida. Com o amor não existe meio-termo; ninguém ousa dizer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-587" title="Esperança" src="http://eoqha.net/lab/wp-content/uploads/2008/09/esperanca.jpg" alt="" width="590" height="246" /></p>
<p>Você sabe quais são as três frases que as pessoas mais gostam de ouvir?</p>
<p>Começando pela primeira: &#8220;Eu te amo&#8221;. Ainda não nasceu quem não queira amar e ser amado. E dependendo de quem diz e de quem ouve, essa pode ser a frase de uma vida. Com o amor não existe meio-termo; ninguém ousa dizer que ama mais ou menos. Um meio-amor não deixa de ser um meio-desprezo, um meio-ódio. O compositor Jader Santos escreveu em uma bela canção que &#8220;o amor pode ser bonito, sincero e genuíno, mas o amor tem que ser divino pra ser amor&#8221;.<span id="more-586"></span></p>
<p>Nosso amor é falho e condicionado à reciprocidade, mal merece ser chamado de amor. Mas ninguém pode ter maior amor do que esse: o de amar os habitantes do mundo a ponto de dar a própria vida em favor deles. Há dois milênios a cruz de Cristo incansavelmente declara &#8220;Eu te amo&#8221;. Não amar o Salvador é como dizer &#8220;eu não preciso de salvação&#8221;. Amar o Salvador é como dizer &#8220;obrigado por me salvar&#8221; e, então, procurar viver como Ele viveu aqui. Contudo, para Deus não é suficiente morar no coração das pessoas; Ele quer habitar pessoalmente com elas. É por isso que poemas e canções, atos e palavras apenas antecipam um tênue rascunho do que será dado àqueles que escolherem amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. &#8220;Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam&#8221; (I Coríntios 2:9). Nossa esperança precisa estar firmada no Deus cujo sinônimo é Amor.</p>
<p>Uma outra frase prestigiada é &#8220;vamos comer&#8221;. Quem renuncia um convite amigável para sentar-se à mesa e partilhar uma refeição especial? Li uma história sobre uma anciã cristã que costumava oferecer almoços deliciosos. Antes de servir a sobremesa, ela sempre dizia: &#8220;Segurem seus garfos; o melhor está por vir&#8221;. Quando ela faleceu, seus amigos seguiram seu último e estranho pedido, o de que fosse enterrada com os talheres nas mãos. Ela quis assim para que, aos que perguntassem a respeito, respondessem: &#8220;É apenas um sinal de que ela crê que o melhor está por vir&#8221;.</p>
<p>Jesus também quer sentar-se à nossa mesa e partilhar de nossa vida. Por isso, Ele está à porta e bate. Ele não força a entrada nem põe as portas abaixo. Ele espera pacientemente para que abramos o nosso coração e O convidemos para que entre, por favor. Ao entrar, Ele não irá vasculhar nossos quartos, nem irá logo até a sala aprovar a nova decoração. Ele quer apenas sentar e cear. Como um amigo de longa data a quem reencontramos, Ele preencherá os espaços vazios em que entulhamos nossas vontades egoístas, nossa busca de auto-glorificação, nosso tempo em que O rejeitamos. E como o melhor ainda está por vir, nossa humilde refeição em breve dará lugar ao banquete celeste, onde estarão todos os que aceitarem o convite para a ceia das bodas do Cordeiro. Nossa esperança é saber que o Anfitrião desse banquete é Aquele que mais quer sentar e cear conosco.</p>
<p>A terceira frase que todos amam ouvir é: &#8220;vamos para casa&#8221;. Após semanas longe de casa, após um dia extenuante de trabalho, após uma reunião festiva com os amigos, é sempre reconfortante ouvir que estamos indo o nosso lar. Quando eu era criança, certo dia meu pai me deixou na casa de uma de suas irmãs enquanto ia cuidar dos seus afazeres de adulto. Para me confortar, disse que voltaria após o meio-dia. Então, assim que acabou o almoço, fui esperá-lo no pátio. O tempo passava e eu sentia que as horas se arrastavam penosamente enquanto me vinha a infantil convicção de que ele tinha esquecido de mim. Já passava das três horas da tarde, quando meus olhos já marejados o viram chegar. Foi um alívio ouvi-lo dizer: &#8220;Filho, vamos pra casa&#8221;.</p>
<p>Jesus demora e o tempo de Sua vinda parece não chegar? Como crianças ficamos inseguras, mas o Pai sabe o tempo certo para vir, e mesmo que pareça, Ele não Se esqueceu de nós. Seu coração parece sentir saudades de Quem você só conhece pela fé? Não tardará e Ele virá. Veja os sinais da manhã gloriosa que está raiando e saiba que Jesus voltará para fazer justiça e também para dizer: &#8220;Filhos, vamos para casa&#8221;. Ele nos ama com inigualável amor, Ele prepara a mesa e deseja repartir um banquete conosco, Ele irá restaurar o lar que um dia perdemos. Nossa esperança é saber que há um Deus que quer nos levar para casa.</p>
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		<title>O Poeta, a arte e a cruz</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 01:11:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joêzer Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Joêzer Mendonça]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[redenção]]></category>

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		<description><![CDATA[Certa vez, a crítica teatral Barbara Heliodora disse que as únicas imagens que não podiam ser criticadas eram as imagens reais da natureza. “Ninguém vê um pôr-do-sol e diz: ah, este pôr-do-sol está muito acadêmico”. De fato, para criticar a natureza é preciso níveis absurdos de rabugice. E quando falo natureza me refiro ao que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certa vez, a crítica teatral Barbara Heliodora disse que as únicas imagens que não podiam ser criticadas eram as imagens reais da natureza. “Ninguém vê um pôr-do-sol e diz: ah, este pôr-do-sol está muito acadêmico”. De fato, para criticar a natureza é preciso níveis absurdos de rabugice. <span id="more-526"></span>E quando falo natureza me refiro ao que o ser humano ainda não conseguiu destruir com seu mau gosto: a formação das nuvens, a alvorada, uma colina, uma árvore.</p>
<p>Os céus proclamam a glória da criação, cantava Davi, o rei-poeta, quando, maravilhado, ficava a pensar nas obras das mãos criadoras de Deus. Os autores da pequena-grande canção Te Vejo Poeta, João Alexandre e Guilherme Kerr Neto, deviam estar com a mente repleta de lembranças bonitas do contato rotineiro com a natureza. A pontualidade da maré, as nunca enjoativas cores do dia e da noite, o incansável surgir e desaparecer do sol no horizonte; tudo é tão cotidiano que é fácil perder a capacidade de nos maravilharmos com a natureza.</p>
<p>Os compositores estão aí para nos lembrar que o Criador é muito mais do que um arquiteto. É um Poeta. Um Poeta que espelha Seu amor no Filho e espalha Seu dom nos seres criados.</p>
<p><em>Te vejo Poeta quando nasce o dia<br />
E no fim do dia, quando a noite vem<br />
Te vejo Poeta na flor escondida<br />
No vento que instiga mais um temporal</em></p>
<p>A letra da música fala de alguém que é capaz de perceber o Poeta revelado nas obras, como um pintor cuja autoria é identificada nas cores e traços de um quadro. O eu-lírico da canção vê a poesia tanto na aurora quanto no entardecer. Isso a canção deixa claro: Deus não está no dia, na noite, no vento, na flor. Antes, é a natureza que manifesta as digitais de um Criador.</p>
<p><em>Te vejo Poeta no andar das pessoas<br />
Nessas coisas boas que a vida me dá<br />
Te vejo Poeta na velha amizade<br />
Na imensa saudade que trago de lá</em></p>
<p>A canção anuncia que há algo mais pra se olhar no andar das pessoas além do balanço de quem vem e que passa a caminho do mar. É o assim caminhar da humanidade, o transitar das pessoas, tão diferentes na aparência, mas tão semelhantes em seus anseios de busca e apreensão de felicidade, de sentido na vida.</p>
<p>Numa época de relações passageiras, líquidas, que escoam pelos desvãos do tempo e da egolatria, o companheirismo de uma longa amizade está se ausentando dos relacionamentos humanos. É que grandes amizades raramente se constroem nos escaninhos do orkut, tampouco na mudança constante de cidade do transitório trabalhador moderno. O rodízio de carros é seguido do rodízio de amigos; nem amigos mais, talvez meros colegas. Na rotatividade enlouquecedora de hoje, a canção celebra a velha amizade ao mesmo tempo em que descreve a saudade dos amigos distantes.</p>
<p>Depois de iniciar com a percepção da obra perfeita revelada na natureza, os autores da canção chegam ao homem, “a coroa da glória da Criação”, e após enxergar poesia na vida humana, eles percebem também que os relacionamentos, por mais fraternos e amáveis que sejam, são vítimas da finitude e da saudade. Nesse ponto, pouco restaria a falar do ser humano ou da natureza. A criatura reconhece que há outro painel desenhado. Desta vez, sem raios luminosos, sem noites enluaradas, sem flor, mas pintado com as cores dramáticas do sangue. Porém, para além da tragédia da morte de um Crucificado, os autores vêem beleza na rudeza da cruz, sabedores e beneficiários que são do plano de redenção.</p>
<p><em>Contudo um poema, Tua obra de arte<br />
Destaca-se à parte numa cruz vulgar<br />
Custando o suplício do Teu Filho amado<br />
Mais alta expressão do ato de amar</em></p>
<p>Aquele Homem de dores desfigurado pela tortura, cortado da terra dos viventes por causa da transgressão de todos, é parte de um poema difícil de recitar. É um quadro tão terrível e ao mesmo tempo tão belo e misterioso, que não pode ser contado entre os feitos artísticos já enunciados pelo eu-lírico da canção. É uma obra que se destaca à parte porque não é de criação, mas de redenção. Essa obra é de arte não por causa dos painéis renascentistas ou quadros barrocos inspirados pelas cenas da cruz vulgar, mas porque é a mais alta expressão do ato de amar, e “ninguém tem maior amor do que esse: o de dar a própria vida em favor de seus amigos”.</p>
<p>A arte, assim, está na motivação, concepção e execução do plano. Um plano que faz do Criador o Redentor que experimenta a amizade e a inimizade, a infância e a morte, e troca inexplicavelmente de lugar com a criatura. O Poeta parece escrever algo trágico demais, mas o poema não pode somente falar da árvore, mas também do machado que a corta. A criação dá testemunho da arte do Poeta; a cruz revela a Sua missão.</p>
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