mulher
março 8, 2010 | por Felipe Tonasso | 13 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark
o ambiente é sem sal, sem som adocicado, opaco. todos comunicam o não-verbal fluente. quando um dos seres presentes arrisca uma sentença audível, é ouvido com clareza. milagre. os olhares são de mesmice, os assuntos são de mesmice. mesmice de ontem, de agora e sempre. mesmice do futebol, da política, do ser. o ar cheira falta de propósito, talvez culpa da sensível ausência de luz. a alegria é de fachada, alegria de nada. o jogo começa como num disco riscado, sempre os mesmos tolos comentários. a sala no domingo é o cenário do óbvio necessário tantas vezes repetido.
no quarto ao lado uma luz. sons agudos emaranhados com açúcar. verbal que transcende decibéis e transtorna informações. é, transtorna tudo. excesso de informação incontável compilada por segundo. os sorrisos são diferentes neste quarto. escondem falsidade em elogios trocados. é o cabelo, a viagem, receita, maquiagem, liquidação. moço bonito que vira assunto. filho teimoso, marido esquecido, namorado falido, estranho universo o desse cômodo.
na sala ao lado um quase gol. o jogo segue, o jogo segue.
do quarto onde a luz emana é esquisito. desde a pele até o cerne é tudo tão bonito. bonito que dá gosto. enquanto os da sala são feitos de olhos, os seres de cá são feitos de ouvido e quem descobre isso, logo é feliz. são seres tão diferentes entre si, de si e de tudo. carregam no d.n.a a carência do abraço. não do físico, irrelevante. mas do sentido, daquele feito de ouvido, de verdade, fabricado de atenção, escondido num silêncio sábio e oportuno de quem entende quando há falta de brilho.
não há guerra entre eles até que a sala é invadida por luz. certos seres não entendem e nunca entenderão o prazer do repetido. o jogo segue. só segue.
ainda no mesmo quarto, forrado com a mesma luz, os seres se tocam. se abraçam sem nexo, registram tudo em mente e em foto. vivem de pose, de aceitação. vivem de luta, aprovação constante. alguns deles chegam sempre tarde na casa onde vivem, cuidam de si, do mundo e do resto. têm obrigação de sorriso e cheiro de limpo. para isso, produtos. produtos, produtos, produtos pra tudo, até para o necessário. compram e variam o mesmo tudo, até o necessário. são seres singulares que não aceitam a divisão sem justificativa plausível. possuem a síndrome da exclusividade crônica. mas quem disse que é doença?
na sala ao lado, empate. nem de um, nem de outro lado.
os de luz, quando mexem no cabelo têm poder. no fundo são sempre os que mandam. ocultam a sensibilidade em cara fechada, fachada, tudo fachada. lá dentro são de manteiga, por fora, sensíveis como paçoca, e ai de quem não entende a dor do farelo derretido. complexos e necessários, multi-curiosos, nada hábeis no espaço, são resumo do melhor que a vida tem. não rotina e não limite, apenas luz.
de repente, o quarto se divide, a luz se espalha. na sala ao lado, o ambiente era sem sal, sem som adocicado, opaco…
se mulher é feita de luz não posso afirmar, ainda não tenho a minha, a não ser aquela em que fui gerado. mas já a amo mesmo desconhecida, pois aprendi na vida a tristeza da escuridão.
“mulher virtuosa quem a achará? o seu valor muito excede ao de rubis.“ > provérbios 31.10
abraço,
—
f.tonasso
ps.: feliz dia mulher!
Sobre o autor
Músico, compositor, blogueiro e mochileiro, formado em Ed. Art., hoje estudante de teologia e pós-graduando em aconselhamento familliar. Tonasso é amante da boa música, da arte, das pessoas e seus infinitos mundos e das coisas simples, as realmente simples.
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13 Comentários ↓
fantástico F. estranha e bela sensibilidade. adorei!
Singelo e esplêndido!
Parabéns Tonasso pela sensibilidade nesta descrição em homenagem às mulheres.
texto leve e sincero…não há como discordar sem o risco de se mostrar insensível…
fazia um tempinho que não lia seus textos…
abraços, felipe…
que D-s lhe abençoe…
ah, o drummond fala em um de seus poemas: ” no escuro é permitido sorrir…”( a idéia, penso, é tipo daqueles vaticínios auto-realizáveis…bacana…rs)
danilo
Oh meu!!!! Tu quer dinheiro? Liga os vídeos… tô estranhando vocês.
Quanto ao artigo,… sem COMENTÁRIOS.
Quando os homens entenderem que as palavras têm um sentido que excede o do comunicar, então as pessoas se entenderão melhor, pois não irão apenas prosar, mas… fantasiar, sonhar, realizar-se no universo das palavras. O Tonasso parece que já entendeu isso.
Belo post, parabéns!
Mas na verdade não estou passando para opinar sobre a postagem, mas deixar o convite para se possivel dar uma olhada no meu blog, criado recentemente…o blog é novo, e eu conto com sua participação.
Obrigado pela atenção e muita paz.
Segue as essências/
http://www.verdade87.blogspot.com
LINDISSIMA MENSAGEM, FANTÁSTICA.
de uma sensibilidade tamanha…
muito especial, e muito bonito tb!!
Eu também aprendi na vida a tristeza da escuridão, mas a minha luz já chegou.
Meio fanta uva este poema…domingo sem futebol não e domingo…
Meus parabéns ..lindo aqui..vim através da procura da Cantata Herói da fé, na íntegra, mas preciso ser inscrita..;/ Gostei muito deste espaço…
Sempre virei lhe visitar!!
Uma ótima semana na Companhia do nosso Jesus, que é sempre presente nos momentos felizes e nas tribulações, é sempre bom lembrarmos disso!!
Abraços!!
Bela homenagem!
Parabéns.
http://princesadoreinodedeus.blogspot.com/
Débora Martins
Que lindo texto! Emocionante como envolve o leitor com tão belas palavras que contam a história do dia-a-dia de homem e de mulher…de maneira especial se completam…amei o texto, parabéns pela criatividade que o Senhor te abençoe!
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