Canção Cristã e Cultura Brasileira
novembro 10, 2008 | por Joêzer Mendonça | 6 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark

Por que a maioria dos protestantes brasileiros aprecia uma hinologia ou um conjunto de músicas de origem americana ou européia mas demonstra pouca tolerância para com as canções religiosas de estilo popular nacional?
Esta é uma pergunta a qual podemos dar várias respostas erradas, como: é uma questão de gosto, ou, é o respeito às tradições litúrgicas, ou ainda, é devido ao preconceito em relação à cultura brasileira, e a pior de todas, deve-se a uma alienação cultural americanizada e pequeno-burguesa.
Vou procurar algumas respostas que podem explicar esse tema que divide gerações de fiéis.
Gosto (o bom e o mau, se me permitem os relativistas mais ferrenhos) é algo que se constrói socialmente. Para Pierre Bourdieu, as diferenças entre os gostos musicais não se assemelham às diferenças de paladar alimentício – este estaria mais profundamente inscrito em nossos corpos que o paladar musical. O estudioso francês acrescenta que os diferentes gostos musicais não remetem unicamente a “preferências últimas e inefáveis, mas a diferenças no modo de aquisição da cultura musical” (Sociología y cultura, p. 178).
Como a hinologia protestante foi adquirida, então? Para alguns pesquisadores, como Prócoro Velásques e Antonio G. Mendonça, as missões norte-americanas tinham um pendor eurocêntrico e entendiam que sua cultura era superior a dos povos da América do Sul. Assim, a dominação econômica encontrava um correspondente na dominação cultural e religiosa, dominação essa que repudiava a música local e favorecia a adoção de uma hinologia euro-americana/estrangeira (ver Introdução ao protestantismo no Brasil, dos dois autores; ou O celeste porvir, de Antonio G. Mendonça).
Essa visão está bem simplificada aqui, mas traduz teoricamente a essência de um pensamento amparado no discurso nacionalista e marxista que procura explicar os fenômenos sociais pela ótica do conflito de classes. Esse argumento consolidou-se no Brasil dos anos 1960, quando a dicotomia nacional-popular versus cultura anglófona chegou ao ridículo de se promover uma marcha dos artistas contra a guitarra (era um instrumento do rock, que nasceu nos EUA, que eram o império colonialista, etc) e ao mesmo tempo coroava-se como “legítimo” e “autêntico” o estilo de raiz nacional (baião, sertanejo, samba).
Esse discurso, que conferia autencidade e legitimidade somente às músicas fiéis a uma tradição cultural de origem brasileira, ao espaço sociogeográfico das classes populares (o sertão, o morro) e ao argumento de independência cultural em relação ao mercado e às nações dominantes, chegou às igrejas protestantes nos anos 1970 refletindo o pensamento sociológico da época e modificando os padrões de composição de canções religiosas.
Com 30 anos de atraso, o mesmo discurso só agora alcança algumas igrejas adventistas e luteranas, por exemplo. A música de “raiz” nacional procura seu espaço na hinologia protestante. Porém, as justificativas encontradas são obsoletas. Primeiro, porque “cultura brasileira” não é um conceito monolítico que uma vez erguido estará consolidado para sempre. Ao contrário, trata-se de um conceito extremamente fluído e contraditório (quem diria, nos anos 60, que surgiria algo como rock “nacional” ou funk “carioca”). Em segundo lugar, o público, em especial a juventude, não se importa com questões de identidade nacional, mas prefere os símbolos e objetos mundializados, os gêneros e as performances transmitidos via mídia, remontando-os em perspectiva diversa da original.
A música popular brasileira é um referente atual para a música cristã. Os pontos positivos que essa perspectiva pode expressar (e há músicos capazes para tanto) também dão lugar a problemas surgidos quando a renovação musical se dá por meio de um pragmatismo evangelístico entusiasticamente abraçado ou quando se acredita que a totalidade de uma cultura é plenamente aceitável quando transladada para o espaço da adoração cristã.
Voltando a questão no topo da página – o porquê da aceitação da hinologia tradicional em detrimento de uma música cristã popular brasileira -, nota-se que o argumento da autenticidade e legitimidade faz pouco sentido no espaço cultural hiper-globalizado. O debate marxista de conflito de classes, isto é, missionários a serviço do imperialismo norte-americano impingindo uma cultura “importada”, é um raciocínio que padece de xenofobia e descarta a reação e os anseios dos novos conversos, que os torna meros receptores passivos.
Michel de Certeau afirma que o sentido e o uso dos produtos culturais, dos sons musicais, na vida individual e social das pessoas não podem ser completamente determinados (A invenção do cotidiano, 1994). Assim, deve-se levar em conta também outros fatores para a adoção da hinódia protestante euro-americana:
a) A ausência de referências sociogeográficas: os novos conversos desconheciam a origem da música (se era um folk irlandês, uma marcha da Guerra Civil americana, uma balada do teatro, uma canção de saloon), mas podiam aceitá-la pelo simples motivo de que era diferente das canções dos festejos a que estava acostumado antes da conversão;
b) A noção protestante do sagrado: o “sagrado” significava algo era “separado” para as atividades religiosas. A hinódia euro-americana recebida pelos novos protestantes expressava um caráter diferenciado ao ser cantada no local de adoração, modelando uma perspectiva litúrgica distanciada de práticas musicais sincréticas que serviam tanto para as festividades religiosas quanto para a diversão mais sensual.
Se lembrarmos também do preconceito e da marginalização sofridos pelos conversos no período de inserção do protestantismo no Brasil, veremos que a adoção daquela hinologia “importada” marcava uma construção de identidade coletiva interna e também uma diferença externa em relação aos cultos afro-brasileiros e católicos. Não se pode negar que houve (e há) certo sectarismo nessa perspectiva.
Por outro lado, havia (e há) uma clara relação de estilos musicais com atividades que se opunham frontalmente aos princípios cristãos, o que pode ter motivado tanto a recusa de determinados gêneros como o afastamento social. Assim, esse distanciamento precisa ser revisto pela ótica da segregação sofrida e da auto-preservação moral.
São questões candentes que valem uma reflexão a respeito. E o primeiro passo para o entendimento possível é o diálogo. Meu objetivo não é conceder as únicas respostas, mas espero fazer as perguntas certas e até esquecidas.
Sobre o autor
Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mídia, cultura e religião.
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6 Comentários ↓
Obrigada Joêzer pelo texto.
Já faz tempo que venho me questionando quanto a isso, e não somente no âmbito da musica, mas também no que diz respeito a liturgia, costumes e vestimentas.
Creio que tanto o costume, a educação quanto a cultura de uma pessoa influencia grandemente em sua forma de viver uma vida cristã. o que pode ser chocante para nos, brasileiros, pode não o ser para uma pessoa de outra cultura. se não levarmos isso em conta corremos o risco de criar choques que podem vir a ser verdadeiras barreiras.
pensando nos pontos que você citou vejo mais uma vez que projetos de Evangelismo Contextualizado são necessários para o crescimento da igreja. não quero criar divisões no meio da igreja, mas porque somos seres diferentes merecemos tratamentos diferentes. o que pode ser bom para você talvez não o seja para mim. e a beleza de tudo isso é que nosso Deus nos criou, cada um como ser único, e se alegra com nosso forma singular de louvá-lo e nos aproximarmos dele.
Muito bom… gostei da análise!!! do meu ponto de vista, acho que o Joêzer abriu muito bem um leque de perguntas que devem ser feitas em relação ao nosso “ponto de vista” musical.!
Acho que é exatamente esse impacto que o Novo Tom está causando, pelo menos por aki. Muita gente com opiniões diferentes e discutindo sobre música… isso é bom… mas vamos orar… pra que Deus continue a nos abençoar com nossos dons… principalmente o mais lindo deles, a música.
Lembro-me de quando era adolescente e gostava do Grupo Elo e Vencedores por Cristo, era muito criticado na igreja pois diziam que isto era música de herege e entre coisas não muito publicáveis. É verdade que gosto muito da música gospel americana, é vibrante, porém tenho verdadeiro pavor das versões que são feitas por nossos cantores mas quando nossos compositores fazem canção bem brasileira, porém com a devida postura cristão eu não deixo de elogiar e adquirar estes produtos, pois eu sei da enorme dificuldade que temos em relação ao produto externo.
Mas acho que este realmente é puro preconceito e devemos vencê-lo criando e apoiando nossos compositores que não devem nada aos estrangeiros, sem deixar de apreciar nossos irmãos estrangeiros.
Ainda bem que lá no céu só havera uma só voz e uma só canção.
Vejo que aos poucos os preconceitos e dogmas musicais vão sendo levados ao ponto que Deus deseja, no qual a musica será usada na “chuva serôdia” para cumprir as 3 mensagens angélicas.
É bom sentir isso!
Tanto quanto foi bom ler este texto, embasado e claro, que nos leva a reflexao!
A música serve para adorarmos a Deus ou a nós mesmos?
A pergunta não deve ser se eu gosto mais deste ritmo ou daquele, mas qual é o que agrada ao Senhor, afinal, queremos louvá-lo, certo?
Toda vez que eu me empenhar em defender as coisas do mundo (que logo terão fim), estou me afastando de Deus.
Que em Cristo tenhamos paz e sabedoria para louvar ao Pai como Lhe convém.
Uma semana abençoada a todos.
Queridos amigos!
Vejam só o relatório da Sra. S. N. Haskel a Sara McEnterfer secretária de Ellen G. White em 12 de setembro de 1900:
“Eles têm um grande bumbo, dois tamborins, um contrabaixo, duas pequenas rabecas, uma flauta e duas cornetas. Seu livro de músicas é “Garden of Spices” e tocam músicas dançantes com letra sagrada. Nunca usam nosso próprio hinário, exceto quando os irmãos Breed ou Haskel pregam, então eles iniciam e terminam com um hino do nosso hinário, mas todos os outros hinos são do outro livro. Eles gritam “amém”, “louvado seja o Senhor” e “Glória a Deus” como o serviço de culto do Exército da Salvação. É penoso para a alma de alguém. As doutrinas pregadas correspondem ao resto. O pobre rebanho está verdadeiramente confuso.”
Agora veja o comentário de Ellen G. White sobre o relatório:
“As coisas que descrevestes… o Senhor revelou-me que haviam de acontecer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isso será chamado operação do Espírito Santo.
O Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal confusão e ruído. Isso é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificante verdade para este tempo. … Uma balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção. As forças das agências satânicas misturam-se com o alarido e barulho, para ter um carnaval, e isto é chamado operação do Espírito Santo. … Os que participam do suposto reavivamento recebem impressões que os levam ao sabor do vento. Não podem dizer o que sabiam anteriormente quanto aos princípios bíblicos.
Nenhuma animação deve ser dada a tal espécie de culto. A mesma espécie de influência se introduziu depois da passagem do tempo em 1844. Fizeram-se as mesmas espécies de representações. Os homens ficaram agitados, e eram trabalhados por um poder que pensavam ser o poder de Deus. …”
Por isso o Manual da Igreja diz:
“Deve ser exercido um grande cuidado na escolha da música. Qualquer melodia que participe da natureza do “jazz”, do “rock”, ou formas híbridas relacionadas, qualquer linguagem que exprima sentimentos tolos ou triviais, serão evitados pelas pessoas verdadeiramente cultas.”
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