Quem tem medo de Marina presidente, deveria ao menos ser honesto em seus argumentos.

agosto 17, 2009  |  por Convidados Especiais  |  6 Comentários  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

marina

Texto originalmente publicado no blog Acerto de Contas pelo jornalista Marco Bahé (licenciado sob Creative Commons)
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Fui surpreendido pelo texto publicado no Acerto de Contas, neste sábado (15/8), intitulado Marina Silva, presidente? Eu tenho medo!. Apesar do argumento do medo ser o que há de mais preconceituoso, conservador, atrasado e reacionário na política, não me daria ao trabalho de responder a esse artigo. Incomodou-me, porém, a profunda falta de honestidade intelectual do texto, que optou pelo falso glamour da polêmica fácil, subvertendo, descontextualizando e adulterando a essência de declarações da senadora Marina Silva (PT-AC) para justificar e propagar o tal “medo”.

Digo de cara que não tenho religião. A relação que mantenho com os diversos credos é a mesma que tenho com a política – gosto da essência, mas me afasto dos partidos. Curioso, já frequentei cultos católicos, adventistas, pentencostais… Já participei de estudos bíblicos com carismáticos, evangélicos, testemunhas de Jeová e outras denominações. Estudei a história do Oriente Próximo e, com ele, aprofundei meus conhecimentos sobre as três religiões monoteístas: cristianismo, islamismo e judaísmo. Mas meu espírito é por demais contestador para aceitar uma verdade absoluta.

Feita essa ressalva, volto à crítica do referido texto, que passo a tratar de ingênuo, evitando assim chamá-lo novamente de desonesto.

Diz o artigo supracitado que a senadora, em entrevista ao blog adventista Eoqhá, teria defendido que a narrativa bíblica da criação do mundo, da vida e dos seres humanos literalmente considerada deveria ser ensinada “em pé de igualdade” com as teorias científicas que incluem o Big Bang,a abiogênese primordial e o evolucionismo nas escolas.

O autor coloca a expressão ‘em pé de igualdade’ entre aspas, o que sugere que a expressão tenha sido dita pela ex-ministra. Vi e revi a entrevista inteira (os interessado podem ver também no vídeo abaixo). Em nenhum momento ela se expressa dessa forma. Muito menos defende ela que seja ensinado o criacionismo “nas escolas” – que escrito assim dá a entender que seria em todas elas.

O que está no vídeo é que o repórter do blog faz a seguinte pergunta a Marina Silva (transcrição literal), aos 6 minutos e 34 segundos da gravação:

“A senhora tem filhos que ainda estudam em colégios adventistas, outros que já estudaram. A senhora, ministra, acredita que o fato desses alunos receberem essa visão diferenciada e, digamos uma pouco mais plural, a respeito da origem da vida – digo plural porque nessas instituições se ensina não só criacionismo mas o evolucionismo… A senhora acha que isso seria algum demérito, como eles [referência à revista Veja, citada anteriormente] dizem, ou se de alguma forma esses alunos saem com desvantagem aos outros?”

Responde Marina (transcrição literal):

“Em primeiro lugar, ciência se faz pela multiplicidade dos olhares. Mesmo que você tenha uma visão criacionista, se você coloca claramente para as pessoas que existe uma outra visão, que é a visão do evolucionismo, para que as pessoas tenham liberdade de escolha para o caminho que devem seguir, não vejo nenhum demérito nisso. Até porque a bíblia diz que nós devemos olhar de tudo e reter o bem. O errado é se não fôssemos capazes de fazer isso que você falou, de termos uma educação plural, que seja capaz de mostrar os diferentes pontos de vista para que as pessoas possam fazer as suas escolhas. Quando as pessoas têm acesso à informação e fazem essas escolhas, nós não podemos em hipótese alguma dizer que essas pessoas estão tendo um conhecimento limitado. Elas só estão tendo as duas visões.”

Fica claro que a senadora defendeu o direito das escolas adventistas (e não todas as escolas) de acrescentar o criacionismo em seu conteúdo programático, sem explicitar se tal tema entraria nas aulas de ciências ou de filosofia. Ora, a lei permite que as organizações religiosas mantenham escolas privadas. Quem matricula seu filho e paga uma mensalidade cara numa escola adventista concorda com aquela visão de mundo. De mesma forma quem opta por uma escola israelita, católica ou batista…

O medroso autor do artigo deve desconhecer que a igreja adventista defende o Estado laico (e, portanto, laicidade nas escolas públicas). Existe, contudo, profunda diferença entre o Estado laico e o Estado ateu. Este segundo tipo – que tem na China e em outros regimes de orientação marxista exemplos em vigor até o passado recente – proíbe o culto religioso por considerar que “a religião é o ópio do povo”.

O Estado ateu, todavia, foi rejeitado historicamente no mundo e prevaleceu o Estado laico, que garante um ambiente plural para a livre manifestação religiosa e assegura que os organismos públicos (incluindo as escolas) não privilegiarão qualquer uma dessas manifestações.

Mas continuemos a crítica.

O reacionário artigo do medo trata ainda como “bisonhas” duas declarações da senadora durante encontro com líderes religiosos, publicadas por um blog gospel:

“Você pode escolher ser um político que tem a esperteza do mundo ou um político que tem o Espírito de Deus. A esperteza do mundo é passageira e se você a escolher saiba que a primeira coisa que vai acontecer é que o Espírito de Deus irá se afastar de você.”

“Temos nossa parcela para oferecer para a política, para a economia e para todos os setores da sociedade. A Palavra de Deus nos ensina em quem devemos votar. Basta olharmos o que diz e compararmos com os candidatos. Se ele se encaixar nos princípios bíblicos merece nosso voto.”

Por que considerar bisonhice a defesa de que o político seja virtuoso e de que os cristãos têm sua parcela a oferecer à política?

O linguajar usado pode até parecer estranho quando descontextualizado do ambiente em que foram pronunciadas as frases (reunião com líderes religiosos). Mas as declarações são perfeitamente inteligíveis e coerentes com quem possui uma visão cosmogônica do mundo.

Por fim, o articulista faz um ultimato à senadora, ex-ministra e ambientalista respeitada no mundo todo: se não quisermos tornar o Brasil uma nebulosa república evangélica de fato, deveremos esperar Marina desistir de suas pretensões religiosas para o poder e começar a respeitar o laicismo nacional.

Ninguém precisa “desistir de suas pretensões religiosas” para respeitar o laicismo e nem precisa ser ateu para ser presidente da República.

As qualidades pessoais que o cargo de presidente da República deveria exigir são honestidade, ética, austeridade com a coisa pública e espírito democrático. Todas essas qualidades, até agora, a “crente” Marina Silva tem demonstrado ter.


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6 Comentários ↓

#1 leila em 19.08.09, 15:49

A conduta de Marina Silva como defensora das causas ambientais, realmente é inquestionavel. Quantos às idéias que ela defende a respeito do criacionismo ser incluso na educação, mesmo quando se usa o jargão de opção de escolha, desconsidera-se todo o trabalho e o avanço científico e sua metodologia quando oferece ao aluno o direito de escolha de uma linha de pensamento que não há como se igualar no campo fertil do conhecimento , pois ambas tem origens distintas: a ciencia é investigativa, não produz um resultado definitivo, baseia- se em fatos, enquanto que a religião procura explicar a realidade através de relatos antigos, sem embasamento, distorcendo assim a compreensão, limitando todo o aprendizado e em consequência disso, destituindo o espírito criativo e investigativo em detrimento de um dogma.

#2 flavio laia em 20.08.09, 3:51

A repercussão que houve na mídia após esta entrevista cedida ao éoqhá pela então ministra do Meio Ambiente Marina Silva, foi relembrada agora com este artigo, no mínimo, tendencioso, no qual, a defesa de uma educação plural (citando a educação adventista) torna-se alvo de interpretações equivocadas e preconceituosas, até pelo fato da posição criacionista da senadora Marina Silva.

Em contrapartida, a réplica publicada pelo jornalista Marco Bahé, demonstra de forma esclarecedora a falta de contexto das afirmações. No entanto, o autor do artigo citado mantêm-se inflexível apresentando uma tréplica e algo mais, não reconhecendo que suas afirmações sejam irrazoáveis; o que é lamentável.

#3 Josué em 20.08.09, 8:40

O fato ñ é ciência versus religião. Qualquer um com um pouco de conhecimento percebe q o verdadeiro embate é evolucionismo versus criacionismo. E aí minha cara te garanto que o evolucionismo ñ está tão bem das pernas… Esse darwinismo é intolerante. E te garanto que muitas (ñ todas) as afirmações criacionistas são confirmadas pela dita ciência.

E onde fica a liberdade se todos tem q pensar e agir em uma única direção.

Seja sensata por favor….

#4 leila em 23.08.09, 13:04

o Darwinismo vos é intolerante porque destitui o homem do poder sobre o outro através do uso da religiosidade. Quando a teoria da evolução vem explicar ao homem a sua origem através da seleção natural das espécies, devolve-lhes a autonomia e responsabilidade sobre o planeta e o torna consciente sobre a sua interdependencia com todos os seres vivos, e esta compreensão embora pouco divulgada
tem levado muitas pessoas a questionarem o papel das religiões na vida humana. Toda a história da humanidade, desenrola-se em diferentes regiões do mundo, épocas e culturas, mas encerra em si semelhanças que merecem a sua cuidadosa pesquisa e reflexão, caro Josué: Povos dominados, destituidos de sua cultura, humilhados e destruídos tudo em nome de um suposto deus. Há que se inventar uma nova forma de religião que respeite a natureza e a liberdade humana sem subjugá-lo e conduzi- lo como gado.

#5 Marcelo Oliveira em 30.09.09, 8:44

O que preocupa na entrevista concedida pela então ministra Marina Silva ao éoqhá é a ambigüidade com a qual a tentativa de transformar fé em ciência é tratada. Isso me preocupa sim, enquanto cidadão. E tanto mais na medida em que eu via a sua eventual candidatura presidencial como uma boa nova.

A ex-ministra Marina Silva expressa nessa entrevista suas convicções pessoais que, no que toca à sua fé, devem ser respeitadas.

No geral, considero a entrevista construtiva. Sobretudo para os meios fundamentalistas que, segundo a ex-ministra, têm agido de forma preconceituosa no que toca a assuntos relacionados às ciências naturais.

O problema da entrevista ocorre quando o criacionismo é introduzido, sem especificação clara do seu significado.

A ex-ministra responde como se estivesse falando apenas de uma escolha pessoal, de foro íntimo, relacionada à fé.

Porém, o criacionismo não é apenas uma escolha baseada na fé. Não se trata somente de “olhar de tudo e reter o bem”. Trata-se, sobretudo, de uma ideologia que pretende distorcer conceitos científicos com o intuito de travestir a fé em conhecimento rigoroso. O que é simplesmente inaceitável, tanto pela ótica da moral quanto pela da razão.

E é aí, nessa ambigüidade, que reside o perigo da entrevista e da posição expressa pela então ministra.
Pois na ambigüidade e na ausência de conceitos claros reside um profundo desrespeito à inteligência humana.

Negar a fé em nome da ciência é tão ofensivo quanto tentar transformar crenças religiosas em conhecimento científico.

#6 Rogério Maestri em 22.08.10, 18:40

Como posso ter acesso a este vídeo?

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