a voz na música sacra
dezembro 11, 2009 | por Joêzer Mendonça | 21 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark

O que a performance vocal secular tem a ver com a música cristã contemporânea?
Tudo. Os cantores evangélicos não inventaram nenhum modo de cantar. Ao mesmo tempo em que suas interpretações estão fundamentadas em sua própria concepção do que seria a voz ideal para determinado estilo musical, essas interpretações também estão calcadas quase inevitavelmente nas performances dos cantores seculares.
No Brasil, quais são os modos de performance que influenciam os cantores evangélicos?
Desde os anos 90, a forte penetração da música pop no meio evangélico diversificou tanto os gêneros musicais quanto os estilos de performance.
Para melhor explicação, voltemos à música popular. A cantora Elis Regina tornou-se também um paradigma vocal. Entretanto, apesar da alta qualidade de muitas de suas interpretações, Elis não raro enveredava pelo caminho do canto expansivo, colocando a lágrima e o riso na voz , teatralizando a canção, pois tudo convinha ao seu modo interpretativo quase sempre transbordante. Seria o oposto da interpretação límpida de cantoras como Gal Costa e, pra citar um exemplo recente, Roberta Sá.
Não é difícil notar que o estilo Elis de interpretação tinha muito da “entrega” performática dos artistas da soul music, do rythm and blues. A cultura gospel americana repercutiria profundamente na figura de intérpretes americanos, como Aretha Franklin, Elvis Presley, James Brown ou Whitney Houston, sendo que alguns intérpretes brasileiros assimilariam essa influência na forma do canto expansivo, na teatralização do canto, no “cantar vivendo a letra da música”.
As igrejas cristãs brasileiras não abdicaram dessa maneira de cantar. Para citar exemplos: Alessandra Samadello e Leonardo Gonçalves são cantores cujas performances revelam altos indícios da forma expansiva de cantar. Regina Mota, em seus CDs solos, representaria, de outro lado, a contenção da performance vocal. Intérpretes ligados a igrejas protestantes históricas, como João Alexandre e Gérson Borges, preferem a voz contida das performances da MPB (Os intérpretes do rock ou do rap gospel ficarão para um segundo texto sobre o assunto).
Fique entendido também que os cantores que apresentam forte contraste de performance vocal entre si não são superiores uns aos outros, embora possamos ter preferência pessoal por este ou aquele. A personalidade de cada cantor, a percepção das exigências de cada canção e gênero musical, os registros de extensão de cada voz (se soprano, mezzo ou contralto, se tenor ou barítono), tudo isso faz parte da diversidade natural dos grupos religiosos.
Por outro lado, é difícil negar que há momentos (nos cultos, por exemplo) que demandam uma forma mais contida de cantar e que o canto excessivamente teatral sobrecarrega a canção, a qual, geralmente, já apresenta elementos dramáticos na letra e na melodia. A atenção da congregação acaba sendo dirigida ao gestual, às expressões faciais exageradas, ao maneirismo vocal. Há cantores que precisam aprender que, também na adoração, menos é mais.
Uma referência de muitos admiradores da voz são as cantoras norte-americanas. Não as cantoras do jazz, mas as estrelas do pop radiofônico. As musas do momento são Mariah Carey e seus hiperagudos, Celine Dion e seus gorjeios melodramáticos, Beyoncé e seus melismas apaixonados. Essas três cantoras, donas de um talento vocal insuspeito, são os rouxinóis inspiradores da filosofia American Idol: grito, logo existo. As divas do american brega inspiram os concorrentes dos programas televisivos de cantoria de anônimos.
Por mais divertidos que possam ser tais programas, e até mesmo reveladores de talentos genuínos, a insistência na fórmula agudo-melismático-meloso gera clones que satisfazem a audiência, mas produzem o mal do novo século: o maneirismo melodramático. Maneirismo vocal seria mais ou menos a diferença entre cantar “eu sei que vou te amar” e esgoelar “and I-I-I-I-I-I-I-I-I-I-I will always love you-U-U-U-U-U-U-U-U-U”. As novas gerações de espectadores acostumaram-se a tal ponto com esse modo de cantar que chegam a renegar os cantores que apresentam uma forma contida de interpretar.
Como já ressaltei, não quero dizer que só exista uma forma de cantar. No entanto, quando os fãs de música gospel assoviam e entram em histeria coletiva na hora em que seus cantores prediletos dão seus gritinhos apaixonados-por-Jesus, não seria hora de repensar o quanto a interpretação excessivamente teatralizada tem contribuído para estimular um comportamento cada vez mais semelhante ao das plateias de espetáculos pop? Não estariam as jovens congregações criando expectativas de performance sacra com base em sua escuta de ídolos da música pop?
Sobre o autor
Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mídia, cultura e religião.
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21 Comentários ↓
Olha só,a bíblia fala que nós devemos adorar ao senhor com toda nossa alma e coração; Existe neste mundo diversos tipos de culturas países e pessoas.
Cada um de nós se encaixa em grupo que gosta mais de uma coisa e/ou menos de outra,não acho conclusivo que a maneira mais apaixonada de cantar seja apenas uma forma de se mostrar diferente,popular ou estrelinha.Todo o tipo de música nos traz emoções-as vezes boas, as vezes ruíns-e este tipo de música não é diferente alcança muitas pessoas e também as preparam para uma atenção maior ao senhor assim como uma música mais límpida faria,a diferença é que cada grupo de pessoas se agradam mais com isso ,ou mais com aquilo.
Deus nos fez diferentes japoneses,negros,judeus…
POr qual motivo a nossa música seria igual??
Joêzer,
Parabéns pelo texto! me fez pensar, analizar, rever e reafirmar meus conceitos.
Ola Geraldo,
Não creio que nossa música precise ser igual, mas só queria relembrar que a música de louvor não foi feita para nós e nossos gostos, mas, independente de raça, cor ou língua, ela é dirigida a uma única pessoa: Nosso D-us.
Ao invés de me preocupar com meu gosto musical eu deveria me preocupar com o gosto musical do meu Senhor (autocrítica sincera, vou rever meus conceitos).
Gostei muuuuuuuuuito do texto, ele é bem informativo e trata as diversas ramificações do canto com profundo respeito, apesar de ser um profundo apreciador da musica sacra, dou umas escapadas nos timbres que amo tipo Mariah e Whitney…
As pessoas precisas desassociar a musica cristã com o popzinho cantado nas radios ditas “gospel”…muito bom!!!
Interessante essas observaçoes quanto essas variáveis musicas, que, por citar (deus), vendem milhoes de cópias.
Sempre acreditei e acredito que em tudo se deve ser diferenciado e separado no louvor ao DEUS eterno, Ser Supremo; mas infelismente misturam o profano com o que deve ser EXCLUSIVAMENTE SANTO.
Através da musica ( seja ela qual for),a expressao é sempre voltada para o sentimentalismo,algo muito forte. E creio que só dessa forma, (agora com a musica sacra),é uma forma ÚNICA de se achegar a DEUS. Se estudarmos o que o povo de Israel fazia em boa parte do tempo como agradecimento pela libertaçao, veremos que o canto era o que faziam como expressao maxima de suas almas em gratidao ao SENHOR.
Parabens Joêzer.
Continue sempre sensato.
Deus Te Abençoe.
Zazou, qual é o gosto musical de deus?
Hahaha, dureza.
Victor, ótima pergunta. Mas acredito que a pessoa mais indicada para te responder seria D-us…
vítor,
vou me intrometer na pergunta que não era pra mim. acredito que Deus, como em tudo que Ele faz, deve ter um gosto musical que equilibra o refinamento de quem é Criador pela própria natureza com a misericórdia para se deixar enlevar por cantos simples (se não toscos) mas sinceros e agradecidos.
Mas então, Joêzer, o que vale é o sentimento sincero de quem entoa a canção, e não um estilo musical. Os etilos musicais são convenções sociais. A música é invenção do homem: é uma tentativa de organizar os sons da natureza mirando no belo e no ideal.
Deus criou todos os sons e criou o sentido da audição. Ele está acima do fenômeno musical. Ele precede o fenômeno sonoro. Assim, se deus julga a música feita pelos homens, julga por parâmetros estritamente morais. O estilo musical de deus é o bem. Ele julga a intenção de quem cria ou executa a canção, e gosta (ou desgosta) a partir disso.
Não vem me dizer que no Ipod de deus só tem Arautos do Rei, hehe. Aposto que tem Charles Mingus, Dave Brubeck, uns bons rocks, sambas, valsas e boleros.
Estilo musical é convenção social. Deus é maior que isso.
vítor,
sem dúvida Deus é maior que as convenções sociais e estilos musicais. Mas será que as boas intenções são suficientes?
Deus não nos legou um cânone de estilos musicais apropriados para o louvor, mas deixou princípios de adoração que são, a princípio, mais importantes do que instrumentos musicais, timbre vocal ou gênero rítmico.
isso quer dizer que Deus valida todo estilo musical apenas pelas boas intenções do adorador? Os homens não podem julgar o coração do adorador, mas Deus pode. Ele pode aceitar ou não.
Assim, se não estamos em condição de identificar o juízo espiritual de uma música ou de um adorador, resta ao homem avaliar as convenções sociais.
E aí entra a questão da edificação da coletividade espiritual. Determinada música pode me enlevar ou satisfazer minhas expectativas estéticas (e espirituais, por que não?). Mas na comunhão coletiva é preciso levar em consideração o contexto sociocultural: o que é bom para uma congregação sul-africana nem sempre será adequado para uma igreja adventista brasileira.
Não podemos contribuir mais para a divisão do que para a união, tanto para o fanatismo conservador quanto para o fanatismo do pop-gospel. O conservador parou até de escutar os Arautos e o modernoso estancou seu gosto no louvorzão gospel.
Quanto ao iPod divino, ele deve ser muito seletivo. Mas ao contrário do que pensam alguns, Ele não deve achar que só os cristãos produzem música boa. Mas aí já é uma questão estética. Misericórdia não tem nada a ver com a música do Tom Jobim ou com as danças do Latino, certo?
abraço
Pô Joêzer, com o Tom Jobim até tem, hein? Hahahah.
Mas legal, vc falou tudo ali quando disse que “na comunhão coletiva é preciso levar em consideração o contexto sociocultural”. É por isso que a coisa tem sempre a mesma cara. Ousa-se pouquíssimo. Os criativos adventistas têm de andar por um trilho muito estreito e já meio mofado… Se não o pessoal sai correndo da igreja, né?
Ô vida.
E mais uma coisa triste:
“Assim, se não estamos em condição de identificar o juízo espiritual de uma música ou de um adorador, resta ao homem avaliar as convenções sociais.”
“Avaliar” não. Criar. E o que a igreja pratica é um reducionismo titânico da vontade divina.
Se o escopo da adoração é louvar a deus, a igreja devia ser a vanguarda de toda a arte.
E mais uma vez chegamos a conclusão de que não há um estilo musical considerado correto para a adoração a Deus.
Não importa se você é um maestro que estudou bastante e tem um toque super requintado em sua música,ou se é um amador que se mete a fazer música sem saber só por que se sente agradecido por tudo que Deus lhe concedeu…
A adoração tem que ser verdadeira e tem que estar de acordo com o que a doutrina da salvação diz!
O resto é tudo cultura e sub-cultura,musico profissional e musico amador,etc.
irmão vitor, música representa adoração, ou seja, dois seres no universo são adorados em relação a música Deus e satanás , o que acontece é que hoje vemos musicas que levam as pessoas a adorarem a satanás mais de uma forma que elas nem percebem e são músicas que falam muito no nome de Deus mais o seu rítimo leva as pessoas a nãao meditarem no amor do criador que é o caso dos cantores e rítimos que vc sitou e com relação ao arautos do rei é umas das poucas fontes seguras de músicas que encontramoss hoje em nossas igrejas
Victor, Joêzer, e todos os outros comentaristas,
Obrigada pelos comentários.
Cada um deu sua opinião e no fim, pelo menos para mim, estou no mesmo ponto… Posso pegar o conceito de um, juntar com o conceito de outro, e por fim criar o meu próprio conceito… Mas volto ao que eu disse antes. Pode até parecer que eu estava dando uma resposta simplista e irônica para o pergunta do Victor, mas quando disse aquilo, eu realmente queria dizê-lo.
Eu estava encucada com toda esta discussão e ao ler meu devocional (“Um ano com C.S. Lewis, da Editora Ultimato – recomendo a todos, é fantástico!) me deparei com o seguinte texto:
“Quando se torna claro que você não pode descobrir, por meio do raciocínio, se o gato está ou não no armário, a própria razão lhe sussurra: “Vá lá e veja. Esse não é um trabalho meu. é uma questão para os sentidos”. Ou seja, a matéria para corrigir nossa concepção abstrata de D-us não pode ser fornecida pela razão; ela será a primeira a mandá-lo fazer a experiência: “Prove e veja!” – Miracles. By C.S. Lewis
Meu raciocínio tem horas fala que o Victor tem razão, outras fala que o Joêzer tem razão, e outras falam que quem tem razão sou eu… Quer saber? Eu vou mesmo é resolver isso diretamente com o mais interessado na questão: D-us! Como? Simplesmente perguntando diretamente a Ele, com toda a minha cara de pau, e tenho a certeza que Ele vai me responder. Ele deve estar louco para me mostrar o que tem no Ipod dEle, e tenho certeza que vou ficar bem surpresa
.
“A capacidade de discernir entre o que é reto e o que não o é, podemos possuí-la unicamente pela confiança individual em Deus. Cada um deve aprender por si, com auxílio dEle, mediante a Sua Palavra. A nossa capacidade de raciocinar foi-nos dada para que a usássemos, e Deus quer que seja exercitada.” (E. G. White, Educação, p. 231)
.
Boa, Zazou!
Que todos tenham essa cara de pau!
A gente tem que ser sincero com o que a gente sente, pessoal.
Vanderson, achei esquisita uma coisa que você disse:
“hoje vemos musicas que levam as pessoas a adorarem a satanás mais de uma forma que elas nem percebem (…) seu rítimo leva as pessoas a não meditarem no amor do criador que é o caso dos cantores e rítimos que vc citou”
Se não percebem, não estão adorando. A adoração é intencional. Além disso, o conceito da adoração é muito individual. Como disse o Geraldo, “a adoração tem que ser verdadeira”, digo, seja pra Deus, seja pro Diabo. Se você gosta de procurar fontes seguras de adoração, esse é o seu jeito de adorar. Eu gosto de me aventurar, de descobrir, gosto de desafiar a minha alma e me perguntar se meus sentimentos são sinceros.
Ainda, se na posição de artista ou compositor, primaria não por criar dentro dos parâmetros ou da cerquinha de segurança, dos costumes empoeirados, das tradições. É de Deus que a gente tá falando, e é a Ele que eu quero servir, não? É por isso que ele merece todo o meu potencial, todo o meu conhecimento e habilidades musicais, todo o meu espírito, toda a minha sinceridade, toda a minha ousadia, todo o meu amor. O mínimo que eu posso fazer por Deus é o meu melhor. É tentar me transcender, me ultrapassar. Fazer com que Ele fale, me use, pra que eu não seja apenas eu, mas um centésimo da luz dEle.
Se fazemos isso, e buscamos ser sinceros consigo mesmos – tanto na questão da adoração quanto do ato criativo – não importa realmente o rótulo que você cola no produto final do seu esforço espiritual.
Deus não é grande. Grande pressupõe a não-totalidade.
Deus é tudo.
gostei dos comentarios
tenho muitas duvidas sobre musica.
esse tema e muito complexo e é umas das armas q o inimigo mais usa para tirar os jovens da igreja
Boa gente! Parabéns ao Joêzer pelo artigo e mais ainda ao povo dos comentários. Alto nível, decência e coração (mente) aberto.
Quase nunca leio comentários de artigos sobre música na igreja porque quase choro toda vez ao ver gente fugindo dos princípios cristãos ao se exaltarem por este tema.
E mais ainda, dificilmente tem alguém que realmente entenda, estude e tenha paciência de escrever de forma adequada para que qualquer público entende. E ainda esteja disposto ler e ouvir comentários, muitas vezes sem fundamento, de radicais e pessoas simplesmente prontas a criticar e inaptas para estudar. De novo, parabéns Joêzer.
Williams Costa Jr. disse mais ou menos isso: “Não gosta da música que é tocada na igreja? Então produza música adequada!”… acrescento: Não sabe produzir? Confie em quem o faz. É incapaz de ouvir ou acha que é errado o que eles produzem? Não ouça e ore por eles, talvez se arrependam ou D-s desfaça a influência que eles tem para o mal. Mas não discuta porque se perde a razão.
Grande abraço meu povo, e espero me tornar leitor deste cantinho especial.
caro eudes,
agradeço a gentileza de suas palavras.
agradeço também aos comentaristas que amaram mais a mim do que ao meu artigo e por isso não saíram jogando pedras sobre este articulista aprendiz aqui.
a música cristã precisa de pessoas que tenham a mente aberta para aprender com a modernidade mas sem desprezar a tradição. fácil não é. mas quem disse que seria fácil?
abraços
estou escrevendo agora no site “adoração adventista”. tem boas coisas por lá também.
Ah, gente, escrevi um conto sobre isso aqui que a gente tá conversando. Se chama “Deus e os bemóis dissonantes”, e narra um espetáculo em que Deus e o Diabo tocam na mesma banda.
Tá aqui, pra quem quiser ler: http://manazinabre.blogspot.com/2010/03/deus-e-os-bemois-dissonantes.html
Abraços, boa gente!
[...] O que a performance vocal secular tem a ver com a música cristã contemporânea? http://eoqha.net/musica/a-voz-na-musica-sacra/#more-1652 [...]
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