Cristianismo: letra e música

novembro 15, 2009  |  por Joêzer Mendonça  |  9 Comentários  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

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O que tem mais impacto sobre uma pessoa? A música ou a letra da música?

Essa é uma pergunta de difícil resposta e não raro vemos gente defendendo a supremacia da música sobre a letra ou vice-versa. A letra, é claro, não é algo desimportante. As letras das canções de protesto de Chico Buarque e Geraldo Vandré miravam as injustiças e desmandos da ditadura, sendo que seus autores e intérpretes eram, no mínimo, frequentemente intimados a dar explicações sobre uma frase ou outra de uma música.
Tom Jobim foi inacreditavelmente vaiado no III Festival Internacional da Canção (1968), quando sua música “Sabiá”, de harmonia sofisticada e letra lírica, venceu a simples e direta “Pra não dizer que não falei das flores”, dos versos Caminhando e cantando e seguindo a canção…

A letra, para a plateia que estava na final do Festival, parecia ser o elemento principal da estética musical. Apesar de não ser uma disputa da “canção mais politizada”, os apupadores desqualificavam a melodia, o arranjo e a poesia de “Sabiá”, mesmo que esta trouxesse, nas suas entrelinhas, o lamento de um sujeito forçado ao exílio. O contexto social “requeria” uma música que explicitasse os anseios políticos da plateia. No entanto, o júri não deu ouvidos à voz rouca dos festivais e premiou a canção de Jobim e Chico, considerada estruturalmente mais apurada.

Na música cristã, o debate é semelhante. Alguns defendem que a escolha do estilo musical é de ordem primordial para a adoração, sendo que os temas da cristandade devem ser tratados por meio de uma música alegre ou reverente ou alegremente reverente. Para esses, a letra religiosa merece estilos musicais que inspirem religiosidade ou que estejam tradicionalmente relacionados à alegria tranquila ou à solenidade sem artifícios.

Outros creem que a letra, ao tratar de temas cristãos, “sacraliza” de antemão qualquer estilo musical, pois a força literária prevalece sobre o impacto estritamente musical. O gênero musical estaria a serviço de um bem maior, a evangelização contextualizada, capaz de atingir diferentes nichos culturais. Além disso, chega-se a afirmar que a música não teria moralidade inerente.

Nem todo estilo musical pode servir adequadamente às intenções do compositor. Carlos Lyra, ao ligar-se aos movimentos de resistência política universitária nos anos 60, renunciou à bossa nova, pois acreditava que esse estilo, referencialmente rebuscado, com influências jazzísticas e letras que versavam sobre “o amor, o sorriso e a flor”, não servia como música de confronto e de protesto. A rusticidade do baião e do samba, além de associados a uma suposta raiz nacional (hoje discutível) e ao homem do povo, serviria melhor aos propósitos políticos dos movimentos da época.

Na música sacra, não é incorreto supor que nem todo estilo musical seja próprio para o louvor e a adoração. Se a bossa nova seria um elemento refinado e doce demais para as durezas da confrontação política, não seria o caso de perguntar se o pagode ou o heavy metal, por conta de suas referências, são realmente adequados para expressar os temas cristãos? Bastaria enunciar uma letra religiosa para cristianizar esses estilos?

Nossa recepção a uma canção é afetada pelas referências que ela traz. Quanto a isso, não é possível ficar imune. O teórico da música Leonard Meyer e o semioticista Umberto Eco afirmam que a música denota sentidos e referenciais inscritos culturalmente. Numa época de saturação de signos audiovisuais como a nossa, é difícil negar a referencialidade presente numa obra musical. Talvez o cantor ou o compositor cristãos não queiram que alguém se obrigue a fazer associações estilísticas ao ouvir determinada canção, mas eles também não podem evitar que alguém venha a fazê-las.

Muita gente tem dificuldade em deletar a referencialidade moral de boa parte do pop/rock secular. Por isso, dão preferência a estilos mais tradicionais de música sacra, o que talvez possa ser explicado pela evidência de que a música é entendida como uma questão de gosto. Assim, é possível que as pessoas se fixem em seus gostos culturais e relacionem esses gostos a uma noção de reverência e santidade que desenvolveram em sua vida cristã.

A evangelização contextualizada, aquela que procura “ser grega para os gregos e romana para os romanos” a fim de alcançar alguns dentre todos, não é facilmente criticável. Há resultados válidos, mas também vale alertar para o perigo do pragmatismo inquestionável, o evangelismo vale-tudo. Será uma analogia esdrúxula certamente, mas vejamos assim: se o boxe, mesmo em sua reconhecida violência, ainda conservava regras e pudores, as lutas de vale-tudo radicalizam a proposta de um combate e abrem espaço para quase todo tipo de golpe que seria considerado desonroso no boxe.

Por sua vez, o vale-tudo evangelístico abre espaço para toda forma musical pop e usa efeitos, performances, letras e estilos que, nem sempre injustamente, são considerados desonrosos para a mensagem cristã.

Não se discute aqui a qualidade da produção musical ou a intenção evangelística de um estilo gospel contemporâneo. Mas não posso concordar com a vã separação que se tenta fazer entre música e letra de uma canção. Ora, uma canção é exatamente a conjunção de letra e música.

Essa pretensa separação entre estilo musical e letra que compositores gospel andam a fazer, como se a letra fosse mais importante que a forma musical, pode revelar não apenas um modo irrefletido de pensar a música, mas também uma superficialidade teológica no pensar o cristianismo.


Sobre o autor

Mendonca

Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mídia, cultura e religião.


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9 Comentários ↓

#1 Evanildo em 17.11.09, 9:23

Joêser,

essa é uma pergunta que sempre me incomodou [O que tem mais impacto sobre uma pessoa? A música ou a letra da música?], e penso que concordo contigo: são indissociáveis. Me parece que isso varia de acordo com a história “pisco-musical” da pessoa, a associação inconsciente [ou consciente também, acho] que ela faz entre o estilo música e valores morais.

Uma segunda pergunta que sempre tive foi:

Existem efeitos fisiológicos de um estilo musical sobre alguém, independentemente da cultura em que ele está inserido? Em termos de música cristã, tais efeitos são relevantes?

Sempre muito bom ler seus posts.

#2 joêzer em 17.11.09, 11:12

caro evanildo,
penso que o impacto fisiológico do som é algo que às vezes é superestimado – quando esse impacto é isolado da escuta cultural (experiências com plantas, p. ex) – e às vezes é desqualificado muito rapidamente – como se o som não interferisse na saúde das pessoas.
isso é algo a ser melhor estudado.
falei um pouco disso no quinto tópico do texto nesse link:
http://notanapauta.blogspot.com/2008/10/por-falar-em-msica.html

um abraço

#3 flavio laia em 21.11.09, 14:55

É nítida a confusão existente entre o sagrado e o secular – forró evangélico, funk gospel, pagode divino, samba cristão, etc. – onde apenas à letra pretende-se atribuir caráter sacro, com uma música acompanhada de suas referências predominantes, apresentando-se, muitas vezes, como uma irreverente paródia.

#4 Ornam MMaia em 25.11.09, 13:15

Gosto muito de músca gospel internacional. Acredito tudo em exagero não é bom, por isso concordo com músicas que tem um elevado apelo para instrumentos pesados, ou que acabem tirando a inspiração que uma musica sacra tem que trazer. Mas defendo que uma musíca com um pouco de rítmo, não tem problemas.
(ritmos dentro do contexto descrito no blog, excluindo forro, funk…, quando digo rítmo, me refiro a musicas um pouco mais alegres, mas animadas, mas dentro de um padrão em que a melodia não sobreponha a letra!)

#5 Evanildo em 25.11.09, 13:33

“Alucinações Musicais, do neurologista Oliver Sacks”

anotado.

Muito Obrigado Joêser!

#6 paulo freitas em 14.12.09, 17:14

ola joezer,bem tenho na verdade uma pergunta e nao um comentario.estou tendo um probema em minha igreja com relaçao a musica..na sua gabaritada opiniao voce ve algo contra tocar-se a musica “jerusalem”(canticos vocal)” nos cultos da igreja,por causa do ritmo.

#7 joêzer em 15.12.09, 7:40

caro paulo, gosto muito dessa música e não vejo porque ela seria um problema. se alguém vê problemas em cantá-la nos cultos, então procure resolver o caso com moderação e diálogo fraterno. se for preciso, explique a letra, mostre a música, chame para um ensaio.
abraço

#8 Marcos em 30.12.09, 16:41

….poxa cara muito legal seu blog, explica varias coisas ..já até indiquei pra alguns amigos.. nesse ultimos tempos os mais jovens passam por um bombardeio musical …e seu blog tem ajudado …abraçO …fica com Deus

#9 jeane em 22.07.10, 9:34

muito legal o seu blog muito interessante muitas pessoas procuram pelo menos uma musica enteressante para fazer trabalho e a maioria aham mas gostam mas das suas parabens pelo o seu sucesso.

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