meus heróis NÃO morreram de overdose
outubro 21, 2009 | por Joêzer Mendonça | 6 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark

Leio que Julie Andrews completou 74 anos em 01 de outubro. Dá pra acreditar? A Maria de A Noviça Rebelde tornou-se uma septuagenária. Podem chamar de sentimental e convencional, mas é difícil resistir à Julie Andrews surgindo numa colina verdejante e girando com os braços abertos e cantando a bela “The sound of music”. Tudo bem que depois tem aquelas sete notas musicais ou sete crianças, o que dá no mesmo. Mas logo aparece uma Julie enamorada cantando “Something” e o resto é Oscar, história e lágrimas.
O cantor Cazuza dizia numa música que seus heróis morreram de overdose. Ele próprio escolheu viver e morrer como seus heróis.
As mídias fingem odiar esse tipo de herói, mas são elas que cobrem cada nova celebridade com sua cota televisiva de vaidade (quando tudo vai bem), falso moralismo (quando tudo vai mal) e confete post-mortem. Todo astro recém-falecido por overdose é coroado com um mito: o melhor é morrer jovem e famoso. Essa é a maior falácia da cultura pop, um engodo que tem levado muita gente a achar que aproveitar a vida é experimentar tudo, todos e todas ao som de muito rock’n’roll, yeah!
Como escreve Robert Pirsig, “a degeneração é prazerosa, mas não sustenta uma vida inteira”. Mas quem é que está se lixando pra expectativa de vida, quando dizem que não há nem céu nem inferno, nem Deus, nem deus, nem juízo. Lembra do trinômio revolucionário “liberdade, igualdade, fraternidade”? Pode parecer apocalíptico, mas alguém discorda de que esse ideal foi substituído pelo também trinômio “sexo, drogas e rock’n’roll”?
Antes que os filisteus virtuais ataquem este web-escriba, já adianto que o problema dessa geração pode até não ser a música (que espelha as vontades dessa geração). O problema é esse estilo de vida “morra jovem e drogado” sendo vendido como a quintessência do pensamento rebelde e antiautoritário, um modelo insuperável de ser artista e porta-voz da geração, quando no fundo é apenassuicídio juvenil glamourizado. Roqueiros e atores, principalmente, são elevados à categoria de ícones da juventude transviada que estabeleceu suas próprias regras de sucesso, vida e morte. Porém, se solos de guitarra não vão me conquistar, esse overdose way of life também não me convence.
Meus heróis NÃO morreram de overdose: Dostoievski, Jane Austen, Guimarães Rosa, John Steinbeck, Tolstoi; Beethoven, Bach, Bernard Herrmann, Debussy, Stravinski, Duke Ellington; Kurosawa, Jean Renoir; Lincoln, Luther King. Eles representam um tipo de herói: aqueles que escaparam à mediocridade reinante na cultura e nas relações sociais. São heróis pela excelência artística e de pensamento.
Alguém dirá: e Lutero, Paulo, Isaías, Daniel, Pedro e João não seriam heróis maiores e melhores? Estes são um outro tipo de herói: gente que nos serve de inspiração para viver. Eles são muito mais que heróis das artes e do pensamento.
Meus heróis NÃO morreram de overdose. Talvez nem sejam heróis apenas; uns preferem chamá-los de mártires. Eles morreram decapitados, queimados, crucificados e temo não estar à altura de mártires assim, que não morrem por uma ideologia, morrem pelo Amor que excede todo entedimento. Meus heróis não pegaram em armas e venceram exércitos. Eles viveram não por força nem por violência, mas pelo poder do Espírito. Meus heróis não foram seres perfeitos. Eles tiveram falhas e espinhos na carne, mas negaram-se a si mesmos e decidiram que, não eles, mas Cristo viveria neles.
Há heróis e super-heróis para todos os gostos. Contudo, se em vez de adotarmos heróis pelo nosso gosto pessoal nós levarmos nossa vida ao pé da cruz, sairemos dali com um novo sentido do que é de fato um herói. Eu preciso de heróis que vivem pelo que ainda não se vê, que vivem por uma esperança estranha para quem não acredita, mas tremendamente perfeita e elevada para quem aceita.
Sobre o autor
Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mídia, cultura e religião.
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6 Comentários ↓
As pessoas deixam que a mídia diga quem são os heróis. A mídia os fabrica e os promove, mas é só pensar um pouquinho na incoerência refletida na caminhada deles. Quais são as causas, motivações, ideais e sonhos destes heróis? O que é legítimo nisto tudo? Entregaram-se pelo quê?
Meus heróis também não morreram de overdose e o poder está nas mãos de quem é muito mais que um amigo (Cristo).
Espero algum dia, chegar perto deste tipo de herói que Joêzer aponta. Quem me dera ser um deles…
Deus te abençoe Joêzer. Continue nos fazendo refletir pois pensar faz bem! Viver também!
Texto de impacto e muito bem redigido, como sempre venho acompanhando no seu blog. Há tempos venho observando na cultura pós-moderna essa urgência por heróis que sejam como nós mas com superpoderes além da imaginação (Há que se fazer uma ressalva aqui, pois essa “fabricação” de heróis é antiga. Desde Lúcifer – a “estrela d’alva” – as criaturas criaram alternativas para contrafazer o poder do único onipotente Criador). Por outro lado, a Palavra de Deus nos orienta a crucificarmos o Eu e toda vaidade em favor de uma vida de submissão à vontade de DEUS. Renúncia sim, mas acompanhada da verdadeira felicidade – aquela paz que excede todo entendimento. Paradoxal que somente através dessa vida em favor de Cristo chegamos a alcançar aqueles superpoderes que todos buscam, inclusive o maior deles – a vida eterna!
Diante da inversão de valores reinante, a concepção de heroísmo tornou-se alienada e, consequentemente, projetada ao fictício.
Precisamos de heróis reais, exemplos dignos como os citados por Joêzer, não de mitos gerados pela mídia.
E o melhor é que podemos ser heróis em nossa esfera de convívio, ao imitarmos nosso verdadeiro Super Herói – Jesus Cristo.
“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.” – White, Educação pág. 57.
Sem palavras para este lindo post.
Estive falando sobre isso está semana e hoje me deparo com seu texto , muito bem elaborado e contundente.
Parabéns
Obs.: Peço sua permissão para passa-lo aos jovens de minha igreja em forma de pregação, mas não me esquecerei de citar a fonte.
Abraço amigo
caro aírton,
obrigado pela gentileza.
fique à vontade para passar e repassar o texto.
Nossa, nunca vi um texto abordando tão amplamente esse tema!
Às vezes não sabemos escolher as pessoas que colocamos como nossos heróis,e no final das contas queremos ser igual a elas.
Obrigada pelo texto!Muito esclarecedor!
Bom Sábado!
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