mitos, tambores e adoração
outubro 3, 2009 | por Joêzer Mendonça | 7 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark

Entre os mitos disseminados no meio religioso-musical, um dos mais repetidos é aquele que diz que o rock nasceu dos tambores vodus. Assim, o rock seria uma música com poder de falar com os espÃritos caÃdos, seria um estilo que atrairia os demônios para as reuniões religiosas.
Tem coisas no rock que devem ter sido idéia de um espÃrito caÃdo estética e musicalmente: existe algo mais sem-noção do que o Kiss e suas quinquilharias marketeiro-satânicas ou do que a pose de roqueiros enfezados gritando “odeio-muito-tudo-isso (mas não deixem de comprar nosso último cd niilista)”?
Entretanto, palestras bem-intencionadas não levarão o rock ao inferno. O rock não é nenhum filho bastardo de um casamento espúrio entre o branco-de-olhos-azuis e os tambores vodus. O rock nasceu de uma mistura do gospel, do country e do blues, sendo conhecido antes da fama como rythm and blues. Os acordes básicos, a simplicidade inicial (Elvis Presley, Little Richard, Bill Haley), têm raÃzes no country. A marcação rÃtmica e a melodia tiveram influência do gospel e do blues.
Hã ? Como assim do gospel ?
Explico.
Poucas sociedades modernas foram tão orientadas por valores protestantes como a sociedade norte-americana. Eu disse orientadas por e não obedientes aos. Lembre-se o caso de Elvis Presley, que dizia que sua voz calcava-se no estilo vocal do cantor gospel Jake Hess, mas cujo rebolado era considerado sensual demais até para a TV. Contraditório? Incompreendido? Então, imagine hoje uma estrela pop que imitasse a voz de Larnelle Harris e dançasse como Sidney Magal?
Certa vez, durante uma palestra, cantei com um quarteto a música “Swing Down, Chariot” (da qual há uma gravação antológica do Heritage Singers) para explicar a transição do spiritual para o gospel. Ao final da palestra, alguém me perguntou, indignado: Mas isso não é um rock? Eu deveria ter sido mais claro, pois antes de cantar já tinha explicado que o rock é que teve origem no gospel. Relembrando: apenas nos primeiros anos do rock e do soul. Os eventos de Woodstock, os Beatles e sua fase lisérgica e indiana, as diatribes eruditas de Frank Zappa, a surf music, o rock progressivo, o punk, o heavy e outras variações roqueiras nada mais têm a ver com o gospel.
O samba, este sim, nasceu de cantos dos momentos de lazer ou de culto dos negros tornados escravos no Brasil. O contato de classes sociais distintas com o samba e o desenvolvimento da tecnologia e das mÃdias são alguns dos fatores que levaram o samba, digamos, do morro para o asfalto, modificando-o, remodelando-o. Mas a percussão dos cultos de religiões de matriz africana não floresceu nos EUA. A conversão em massa ao protestantismo deu aos afro-americanos novas melodias e ritmos. Isso levou o spiritual (gênero de origem rural) a produzir melodias de difÃcil classificação para os pesquisadores: se são afro ou se são de ascendência anglo-saxã.
Toda segregação étnica se dá no campo cultural também. Os primeiros estudiosos dos cultos e diversões afro enfatizaram alguns aspectos musicais mais desenvolvidos na Europa (melodia, harmonia, contraponto) como “superiores” à quela música que não conheciam. Ou seja, mais uma vez, a ignorância sobre o “outro” gerava preconceito, contribuindo para rascunhar o “outro” como exótico e toda a sua música como “primitiva”, “bárbara”, “primária”. É provável o mito de que os tambores per se são do mal tenha derivado da visão eurocêntrica que nivela todas as culturas musicais pela cultura estética europeia.
Há motivos para um cristão desgostar do rock ou do samba, mas não será pela particularidade da origem rÃtmica. Roqueiros e sambistas podem animar um auditório, mas terão dificuldades para elevar em espÃrito e em verdade uma congregação. Há razões para não se legitimar oficialmente os tambores (a bateria) em algumas igrejas protestantes, mas não será a difusão de experimentos “sonoro-cientÃficos” com ratos e plantas ou o terrorismo em relação a uma forma musical que ajudará na orientação do que é apropriado ou não para a música na igreja.
A discussão sobre a presença de instrumentos de percussão (ou de bateria) no acompanhamento da música congregacional carece de contextualidade social e histórica, sim. No entanto, creio que a palavra bÃblica é o melhor caminho para aqueles que professam a crença na divina revelação. Dela, lembro que “todas as coisas são lÃcitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lÃcitas, mas nem todas edificam” (I CorÃntios 10:23). Penso que esses versos valem para a música e sua conjunção de letra, arranjo, estilos e, também, instrumentos.
Sobre o autor
Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mÃdia, cultura e religião.
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7 Comentários ↓
Muito bom o artigo… Equilibrado, consciente e sem nenhum tipo de resposta conclusiva para um assunto que não está encerrado. Todavia, com a exposição de que princÃpio não é relativo.
Viva a música! Viva a adoração!
Parabens pelo artigo. Realmente muito equilibrado e informativo. Sempre pensei que a origem de um estilo não era a razão fundamental para elegi-lo ou não para a adoração e depois de ler seu artigo concluo que simplesmente há ritmos que não elevam o espÃrito, que la conjunção ente ritmo, melodia e letra é importantÃssima e que devemos escolher com muito cuidado a musica realmente edificante.
Deus separou seu povo, não para que fossemos uma raça superior e sim para mostrar que somos diferentes.
Devemos ter cuidado para não ficar dividido, um pé na igreja outro no mundo.
A cada dia devemos refletir a Gloria de Deus.
“carece de contextualidade social e histórica”
Olha essas guerras de terminologia nunca são convenientes para se tratar de música, especialmente quando se quer estudar a origem de um “estilo” (vamos assim dizer). Pois, não teve um dia que o cara acordou e pensou: “Hoje eu vou inventar o rock, ou o blues…”
Ao mesmo tempo, a significancia do termo “gospel” no caso é bem questionável. Elvis é um exemplo do casamento do gospel com o country? Falta estudar sua história e averiguar que até certa fase da vida ele fazia parte de grupos cristãos cantando músicas da religião (o que talvez você coloca como “gospel”). Mas bem, em sua história, ele se envolveu com ‘outras pessoas e grupos’, quando passou a seguir sua carreira; ele inventou um estilo? Ou apenas pegou aquilo que vinha fazendo sucesso, no popular da época no contexto norte-americano e aumentou a intensidade, aplicando suas particularidades? (isso seria a raÃz do Rock?)
De fato, dizer que um instrumento do tipo ‘tambor’ (drums) em si tem algo mistico, és um absurdo – a primeira vista. Assim, como dizer que ele só é usado para promover um certo tipo de hipinóse e sedução ritmica nas pessoas, também é um absurdo. O que dizer do grande Handel, Haynd que usavam timpanos, surdos… em muitas das suas composições extremamentes sacras; entre elas, a famosa Hallelluja, da cantata Messiah.
Contudo, há uma diferença infinita (matematicamente falando) entre o uso dos tambores nessas músicas sacras, e mesmo nas muitas obras orquestradas que vemos e para com aquelas que hoje, mais convencionalmente, se usa a bateria.
Que diferença? Bem, para começar, em geral, os bateristas nem usam “uma partitura”. Se é obrigatório? Não. Mas o que isso quer dizer? Numa orquestração de música, você encaixa o instrumento em seus valores musicais, sonoros, efeitos, expressão, de modo exato, dentro do contexto da música, de forma unida com a idéia para com todo o restante dos instrumentos, no ponto x, y, z, … Há quem faça isso sem partitura. (não o conheço). Bem, o baterista convencional, por via de regra, praticamente, segue seu feeling, toca aquilo que dá na telha tocar; muitas vezes, alguns apenas marcão o tempo e ritmo da música. (algo desnecessário; fora que qualquer outro instrumento pode fazer isso. Além do piano, que também é considerado um instrumento percussionista.)
Bem, qual é o problema então?
O grande problema é algo bem simples: “Intepretação musical”. E o grande triste fato, é que pouquissimos cristãos, aliás, pouquissimos ‘músicos’ (quem ‘toca’ ou ‘bate’ alguma coisa) estudaram, e desenvolveram seu ouvido e mente para isso.
Não estou dizendo que ’se deve copiar as músicas eruditas’ (ou algo do tipo). Mas quem sabe interpretar musica, consegue ver muito claramente o GRANDE SERMÃO que é a 9ª Sinfonia de Beethoven por exemplo, de modo, que nem mesmo seria possÃvel ouvir a parte do coral no 4º movimento; e conseguiriam desenvolver várias páginas apenas sobre a “mensagem que Beethoven deu com essa música”. Por que? (1) a música foi feita para isso, para dar uma mensagem. (2) a pessoa sabe interpretar.
Mas o que acontece então? Bem, peguemos uma música popular cristão (ou gospel, se preferir); retire o vocal e a letra da música; deixa só o instrumental, normalmente tocado por um piano/teclado, violão, guitarra, baixo e bateria (a famosa “casa” que a música popular (inclui jazz, blues…) inventou); deixe só eles tocando, a música inteira. E no final, quantos saberiam interpretar o que tocar? Que mensagem deram? Quantas páginas conseguiria escrever apenas descrevendo “esse sermão que ouviu”?
Provavelmente, nada, ou começaria a “inventar” e falar coisas subjetivas do tipo “foi o que senti na hora” – entrando no campo do relativismo. E aà entramos naquela discussão da Psicologia da Educação, no qual compreendemos claramente que “não houve um relacionamento educativo” pois “não houve comunicação de sentido”.
Por que isso ocorre? Porque o arranjo/orquestração ou até mesmo a música (parte instrumental, vamos assim dizer) não foram compostos com o objetivo de transmitir em si, uma mensagem clara e objetiva. Porque provavelmente o arranjador também não sabe intepretar.
….
Bem. De fato, não faz parte da educação brasileira a educação musical. Aliás, pouquissimas são as igrejas (sobretudo adventistas) que também fazem isso. Até mesmo, poucas são as escolas e cursos de música que ensinam isso; pois não faz parte da cultura popular dos dias de hoje.
E por fim, temos uma total VAGACIDADE. Nem o músico que “defende” o “estilo” entende, a coisa se torna vaga e subjetiva. E nem o que “não defente” entende; e ai fica correndo “atrás de argumentos”, também absurdos.
Porque nenhum dos “2 lados” tem o que Beethoven chama de “alma” (pessoas que conseguem ler a arte, sem enrolação, de forma objetiva e clara). E em guerra onde o vago é a questão e a arma, não se chega a lugar nenhum.
Ao meu ver, “assunto polêmico” que irá se eternizar até a volta de Jesus. E não porque não tem resposta. Mas creio que só haverá “algum verdadeiro resultado” no sentido de “fim da polêmica”; quando as pessoas, especialmente as que se dizem cristãs, passarem a ter uma educação musical sólida, verdadeira e profunda; de modo a saber interpretar a música. Ou então, desenvolver bem a razão e o relacionamento para com Deus, pois assim, também é possÃvel se orientar quanto a música.
…..
Poucas palavras são essas para um assunto tão profundo e maravilhoso. Mas aqui, fica meu alerta e consideração reflexivo para o assunto. Se buscamos respostas dos outros sobre música, é porque nós mesmos não entendemos a música, não fazemos juÃzo, logo não temos razão, nem discernimento, nem opinião.
Abraços.
Fiquem com Deus.
Evandro
Errata:
1) Na parte do exemplo da sinf. do Beethoven:
“de modo, que nem mesmo seria possÃvel ouvir a parte do coral no 4º”
Subistitua o “possÃvel” por “preciso”.
2) A “casa”, referida para (piano, bateria, violão, baixo..), na verdade é “cozinha”.
3) Na conclusão. Se não temos opinião. Logo, isso quer dizer, que não estamos capacitados a “votar”, ou se “manifestar” quanto ao que está “certo” ou “errado” (odeio essas terminologias). Ou dizer que tem ou não razão. Pois uma vez que não se entende, naõ se tem juizo; a pessoa se torna apenas um fantoche que é levado pela opinião dos outros, especialmente, aquela que mais lhe satisfação seus desejos e ambições.
caro Evandro,
o texto é pequeno para o tamanho do assunto. mas em poucas palavras procurei contextualizar o possÃvel. eu não disse que elvis é um casamento do country com o gospel. eu me referi ao estilo de rock que era praticado nos anos 1950, cuja origem é essa que indiquei (aliás, não eu, mas os historiadores do rock, como David Friedlander em A história social do rock).
o que escrevi: “Os acordes básicos, a simplicidade inicial (Elvis Presley, Little Richard, Bill Haley), têm raÃzes no country. A marcação rÃtmica e a melodia tiveram influência do gospel e do blues”.
Ray Charles formatou o que se chama de soul music tomando o estilo do black gospel e acrescentando letras de duplo sentido (e outras influências estilÃsticas).
nesse e em outros casos, certamente ocorre o que você disse: ninguém acorda e diz “vou fazer o blues, o jazz” ou outro estilo qualquer. o tempo se encarrega de fazer as formas musicais virarem produtos históricos.
concordo com você quanto à educação musical necessária para os compositores cristãos e que esses mesmos compositores busquem o estudo diligente da BÃblia e da interpretação profética.
abraço
Como novo convertido deixei com livre e espontânea vontade de ouvir as músicas que eram habituais aos meus ouvidos.
Foi o verdadeiro milagre as mudanças de estilo de vida que o sangue derramado de Jesus me proporcionou.
Antes, a minha irmã falava sobre Deus, eu sabia que o único caminho de salvação era Jesus, mas as enormes diferenças que existiam na minha vida mundana para a vida da minha irmã me faziam não desejar entregar a minha vida para Jesus, pois não conseguia me ver tendo uma vida completamente diferente.
Mas quando muito precisei, o Senhor me recebeu de braços abertos e imediatamente me livrou do vicio que durava 12 anos e havia começado junto com o rock, quando parecia uma coisa inocente escutar “Planet Hemp” e fumar maconha.
Depois de passar 12 anos ouvindo e buscando de uma forma não natural conhecer diversos tipos de bandas e estilos, vim para Jesus e liberto da escravidão simplismente descobri que todas aquelas músicas eram um amontoado de verdadeiro lixo, principalmente porque tinham se tornado verdadeiros Ãdolos e dominavam a minha vida e a minha mente.
Reconheço que não sou músico e não conheço tanto, parece que esse assunto para os que conhecem mais tornou-se um prato cheio, e nos ministérios de louvor e adoração em primeiro lugar que a orientação do EspÃrito Santo tome conta de tudo, acima do entendimento dos homens.
Hoje eu vejo a vida na terra como passageira, e como passageiro, tudo passa.
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