Seus olhos amendoados mostravam dúvida e perturbação. Colocando os cotovelos sob a mesa do charmoso restaurante localizado na Avenida Faria Lima, em São Paulo, confessou entre um suspiro e outro:
- Quando visitei Auschwitz, algo se quebrou dentro de mim.
Olhando para as rugas de preocupação estampadas em sua testa, era possível notar que falava a verdade. Naquele momento raro, a angústia transpunha sua personalidade perfeccionista ao permitir que emoções profundas, que sempre estavam submersas propositadamente, começassem a vir à tona. Quem a conhece não tem dúvida de que é privilegiada: inteligente, bonita, educada, elegante, viajada, dedicada, bem vestida, bem sucedida, muito amada… Nasceu em um lar cristão, freqüentou ótimas escolas cristãs, criou o hábito de gastar tempo em comunhão com Deus todas as manhãs.
- Eu nunca devia ter visitado aquele lugar - sussurou - eu lí as cartas… elas perguntavam: “onde está Deus?”
Aquela pergunta elementar que, vamos admitir, já cruzou nossa mente pelo menos uma vez , ou inúmeras vezes, foi o meu bilhete para uma viagem no tempo.
………………………
Vi-me sentada em uma pizzaria localizada em uma esquina movimentada da cidade de Fort Worth, no Texas. Na minha frente, estava meu melhor amigo da época de faculdade: um jovem que tinha um discurso tão eloqüente, que era capaz de hipnotizar um auditório cheio de gente com suas idéias inovadoras. Meu amigo era estudante de teologia . Naquele sábado à noite, havia me convidado para jantar fora. Disse que tinha algo importante para me contar. Mais tarde, desejei que ele nunca houvesse dito aquelas palavras que proferiu friamente, enquanto esperávamos pela pizza:
- Não creio mais em Deus.
Arregalei os olhos. O chão tinha sumido e o ar me faltava. Ele notou meu desepero e se justificou:
- Não consigo entender o sofrimento humano. Se Deus existe, não quero servir alguém como Ele - seus olhos negros e vivos brilhavam enquanto argumentava - pense bem, se Deus é todo poderoso, ele poderia livrar as pessoas inocentes de tragédias. Como Ele não o faz, prefiro acreditar que não existe.
…………………………………….
Levantando a cabeça, notei que minha amiga tinha parado de falar e olhava para mim. Estive tão absorvida em minhas memórias, que havia me desligado daquilo que ela dizia. Em essência, sabia muito bem quais eram suas dúvidas. Eram as mesmas dúvidas que martelavam em minha mente, enquanto mantinha o olhar vazio no teto de meu quarto escuro, naquele sábado à noite, depois que voltei da pizzaria: por que tenho tanto e outros não têm nada? Por que tem gente que nasce em ambientes abusivos, violentos e parecem nunca ter a chance de ter uma vida melhor? Por que existem catástrofes naturais que matam pessoas inocentes? Por que, por que, por quê?
Levantei os olhos e pude ver a escuridão que inundava os pensamentos de minha amiga. Ela não queria questionar, mas as dúvidas eram maiores que sua vontade sincera. Pensei que poderia começar a argumentar contando a história do nascimento do pecado e do conflito cósmico entre o bem e o mal que manchou o universo perfeito. Lembrei-me, entretanto, de que ela conhecia melhor que ninguém a história da queda de Lúcifer e um terço dos anjos do céu. Aquela queda ocorreu porque um anjo de luz ousou questionar a sabedoria de Deus e acreditou ter respostas melhores às questões que brotavam em sua mente e coração. Pensei em dizer que o causador do sofrimento humano não é Deus, mas Seu inimigo, Satanás. Logo mudei de idéia; achei que seria melhor usar o argumento de que Deus usa o sofrimento para nos aproximar d’Ele e que, na Sua bondade, permite que, nesse processo, aprendamos a ser mais pacientes e a confiar em Seus designos.
Meu silêncio começou a incomodar. O olhar agustiado de minha amiga transformava-se frustração. Sabia que precisava dizer alguma coisa. Roguei em meu coração, que Deus desse as palavras certas. Nesse momento, olhei para baixo e ví o sanduíche que havia pedido. Dentro dele queijo, salada, mostarda francesa composta por grãos minúsculos.
- A resposta está aqui - disse num impulso, enquanto colocava um grãozinho daqueles cuidadosamente na ponta de meu dedo polegar.
Ela estava confusa e intrigada. Deve ter achado que eu estava ficando louca.
- Este é um grão de mostarda - começei a me explicar com um sorriso - Jesus disse que nossa fé deveria ser, pelo menos, deste tamanho.
- Eu sei - ela respondeu relaxando os ombros - somente assim poderemos fazer as maravilhas que Ele fez!
- Isso é a conseqüência. Creio que precisamos ter uma fé desse tamanho para acreditar primeiramente que Deus é justo - respirei fundo. Estava satisfeita. O Senhor tinha colocado as palavras na minha boca - jamais conseguiremos entender o porquê do sofrimento, das desigualdades, da dor… mesmo assim, precisamos acreditar que Deus é justo. Não devemos achar que temos sabedoria suficiente para julgar as ações de Deus…
Ela abaixou os olhos que até então estavam arregalados, enquanto eu falava. Pensou um pouco e respondeu:
- É… a gente esquece que estamos neste mundo só de passagem. Nossa esperaça deve ser colocada na volta de Jesus e na vida eternal - um sorriso tímido iluminou seu rosto - Auschwitz foi uma passagem para 6 milhões de judeus como o deserto para João Batista; Roma foi uma passagem para Paulo como o Coliseo para cristãos que foram fiéis até a morte; as favelas são uma passagem para milhões de pessoas sinceras como as mansões para poucos milionários…
Agora seus olhos estavam marejados. Minha amiga respirou fundo e completou, mantendo um tom reflexivo em sua voz:
- Deus estava no campo de concentração… Deus é justo… Isso é fé!
—————————————
Convidada Especial: Carolina Costa Cavalcanti
Jornalista e mestre em Tecnologias Educacionais. Dá aulas para o curso de Pedagogia da Faccamp e atua como designer instrucional dos cursos a distância do CEPA - USP. Gosta de ler, viajar, escrever e passar a noite jogando conversa fora com amigos e membros da família. É casada e tem um filho fofo de 1 ano e meio. Conheceu éoqhá através da irmã.




O QUE FAZER AGORA?!