a adolescentização da música cristã

abril 17, 2009  |  por Joêzer Mendonça  |  7 Comentários  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

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Para Edgar Morin, o surgimento da ética da adolescência firma e aponta um estilo de vida próprio. Isso não é ruim. Afinal, passaram-se milênios tratando a criança e o adolescente como um adulto em miniatura e agora que lhes dão vez reclamam da sua voz. Entretanto, a de consumo tem se modelado pelas aspirações do arquétipo do imaginário da juventude: imediatismo, pouco senso de historicidade, vontade de transgredir e preferência pela cultura do lazer.

A renovada cristã não ficou imune a essas mudanças e a adolescentização cultural também passa pelas suas formas de composição e divulgação. O tem mirado preferencialmente o público jovem, alvo também da indústria do midiático.

Os cantores tendem a reconfigurar os hinos da tradição cristã de uma maneira que, supostamente, a juventude irá preferir, numa tendência de formatar um evangelismo digerível para as faixas etárias juvenis. Porém, essa releitura tem se pautado primordialmente por estilos do pop dançante. Como exemplo secular, cito aquela propaganda de refrigerante que faz um arranjo estridente de pop/rock para a belíssima e serena What a Wonderful World (a versão clássica tem a voz rouca de Louis Armstrong, lembrou?). Nos círculos musicais evangélicos, a interpretação dos clássicos submeteu-se a retórica do grito, do ruído e da velocidade.

Afim de não perder o público jovem, os programas de rádio e TV mimam-no com cantilenas pop para ouvir no som do carro. Além disso, as novíssimas canções (e alguns novos cantores) vêm e vão semelhantemente à fama transitória da indústria pop. Não há, também, resenhas e críticas em revistas ou sites que apontem excessos ou mercantilização, pois “tudo serve para evangelizar e salvaguardar o jovem crente do ”.

Não estou dizendo que os hinários não contenham algumas melodias esquecíveis e letras empostadas que não falam ao espírito moderno e muito menos quero dizer que o melhor da cristã foi composto há 150 anos ou que não há lugar para letras simples e facilmente memorizáveis. Nenhum repertório geral está consolidado para sempre. Por outro lado, é bom refletirmos sobre os recentes critérios de elaboração que têm reduzido a sacra a conceitos individualistas de gosto e têm transformado o fator inovação em uma banalizada estratégia de marketing.

Assim como a superficialidade poética tem substituído a densidade teológica e a teatralidade gestual tem se tornado uma marca pessoal do cantor evangélico, os esforços de comunicar-se com a juventude, se podem dar sentido e relevância aos conteúdos bíblicos tradicionais, em algumas situações têm se deixado modelar pelos estereótipos da indústria do pop adolescente.


Sobre o autor

Mendonca

Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mídia, cultura e religião.


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7 Comentários ↓

#1 Daniel Costa em 17.04.09, 19:25

Mirou no ponto certo da questão!!!

#2 Jean R. Habkost em 19.04.09, 23:34

“…têm reduzido a música sacra a conceitos individualistas de gosto e têm transformado o fator inovação em uma banalizada estratégia de ‘SATÂNICA’.”

#3 João Alfredo Filho em 21.04.09, 17:19

Mas o que é “música cristã”, “música sacra” e “música gospel”?
A música contemporânea produzida por adventistas do sétimo dia no Brasil se enquadra em qual espécie (se é que há diferenças entre elas)?
A resposta a essas indagações poderá servir de norte para enfrentarmos essas questões e oferecerá subsídios para um devido entendimento do que seja uma “música aceitável a Deus”.

#4 danilo em 22.04.09, 12:00

concordo, joêzer…também acho que temos nos acostumado com letras repetitivas e superficiais…bom, pelo menos elas falam verdades inquestionáveis, se bem que nem sempre, algumas apelam ao sentimentos do emissor da canção em detrimento de uma adoração mais inteira ao Ser adorado…somos conhecidos por sermos um povo de bom gosto…e não como negar que nossas músicas são de uma qualidade melhor que o que se vê por aí no mundo gospel…mas temos ,sim, por vezes nos igualado…porém, ainda vejo cds jovens extremamente teológicos ao meu ver e com melodias mais contemporâneas(p. ex. viver e cantar do leonardo gonçalves)…acho que na feitura de um cd deve-se sempre olhar para frente , mas ter como orientação e lenitivo a nossa história como povo adorador e que não perde uma oportunidade tão boa quanto a música para darmos o nosso recado- e este é que Cristo voltará em breve…
sei que Jesus cuidará disto também no meio do nosso povo…mas a quem posso alerto quanto às profecias..pois sbemos que no fim esta questão será levada a um extremo…se é que já não começou…

valeu, joêzer por mais um artigo…que D-s lhe abençoe nesta função de alertar aos seus irmãos adoradores o quanto D-s se alegra com uma adoração em que Ele está sendo adorado com toda a profundidade que nos é possível…

abraços…

danilo

#5 Evanildo Carvalho em 23.04.09, 18:56

A questão foi analisada de um modo muito honesto e exato, todavia eu gostaria de acrescentar algo.
A transformação e posterior babilonização da música adventista passa pelas ausências de compromisso,auto-estima e espiritualidade e todos nós. Explico:
Por compromisso, entendo ser o velho bordão “vestir a camisa”… Não somos “os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus”? Então o Espírito de Deus aqui mora, entre nós, temos todos os dons e não prescisamos de nenhuma música do mundo evangélico, que há mais de 150 anos consideramos babilônia.
Auto-estima , ou a falta dela, entendo ser que não entendemos o primeiro fato, por isso recorremos à inspiração deste musicos de fé apóstata que em eu SHOWS, isto mesmo, SHOWS, pregam todo tipo de heresia e os adventistas ficam lá dando audiência e dizendo amém…
E, finalmente espiritualidade prque depois detanto tempo de plágio descarado, ainda estamos satisfeitos por toda essa “levedura”musical.
gora, pr quê todos nós? Quemdenós nunca se encaixou em pel menos uma dessas categorias?
Que nunc ficou ouvindo Michael W. Smith, Gaither, Accappellas da vida sem se importar com o que as musicas dizem ou os artistas pregam por meio delas…?
Se esta geração não puser os joelhos no chão……

#6 Dann em 28.04.09, 15:42

Apesar de não ser um cristão (não pertenço a nenhuma igreja), sempre confiro o material desse site/blog, pois um amigo me indicou e eu gostei.

Não tenho como discordar do que foi apresentado. A superficialidade está presente na musica cristã contemporânea. Ouço pouca música cristã, em geral só mesmo gravações antigas digitalizadas de espirituals que encontro em acervos especializados americanos e um ou outro grupo que acabo conhecendo através de indicação de amigos e parentes.

Mas aproveito pra expressar minha indignação como mau uso do termo “gospel”.

Como todo bom admirador da musica negra norte-americana. Sei que gospel não é um termo genérico pra se referir a qualquer música cristã pop comtemporanea. Alias o Brasil é o unico país que eu conheço onde ocorre esse equivoco. Gospel é um estilo de música derivado dos spirituals(quem também deu origem ao Blues), desenvolvido em meados do século XX. O estilo tem como caracteristicas a presença de solista, coral e a princípio era acompanhado por Orgãos Hammond, depois passaram a integrar outros instrumentos.

Existem subvertentes do estilo como o Southern Gospel (com influencia country) e o Urban Contemporary Gospel ( fortemente influenciado por Soul, R&B e Hip Hop).
Mas aqui nos Estados Unidos quando se fala em música gospel, entende-se gospel o estilo musical. Sou capaz de afirmar que no Brasil devem exisiter pouquíssimos artistas que fazem música gospel de verdade.

Musica que agregam o pop, o rock e outros rítmos modernos. São conhecidos como “Contemporary Christian Music” ou pela sigla CCM. E esse estilo é que é responsavel pela transformação da música cristã em mero item de consumo e pela banalização da mensagem cristã. Mas ainda sim ha aqueles dentro da CCM que prezam pela conteúdo das músicas e conseguem inovar sem se tornarem superfíciais. Os poucos músicos da CCM que estão no meu Ipod eu conheci através trilha sonoras de filmes e seriados de TV ou por ter ouvido e me impressionado as letras.

Assisti a propaganda citada no Youtube. A regravação de “What a Wonderful World” foi feita por Joey Ramone, músico punk falecido em 2001. A intenção da regravação feita a pelo meno à 8 anos atras, não foi adequar a música ao publico. E sim fazer uma piada com um tema musical sacramentado como obra prima pela publico majoritário. Algo parecido com a Regravação de “My way” pelo também músico punk “Sid Vicious” em 1978. E que pode ser comparado as montagens feitas com a “Mona Lisa” em que ela aparece de bigode.

#7 joêzer em 28.04.09, 16:47

caro dann,
no Brasil, tanto a mídia evangélica quanto os estudos acadêmicos empregam esse termo para se referir à música evangélica contemporânea.
Quanto às regravações punks de standards do cancioneiro pop, a paródia fazia sentido para a anarquia punk (Anarchy in the UK foi um disco seminal do punk). Aliás, o uso paródico da canção What a wonderful World na propaganda já diz muito sobre o pensamento pró-irreverência que tem sido associado à juventude contemporânea.
A indústria gospel brasileira tem incentivado o funk pancadão numa atitude involuntária (?) de autoparódia. É o evangelho com tons de sátira.

um abraço

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