A paz que você quer
abril 22, 2008 | por Regina Mota | 8 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark
O que o compositor evangélico João Alexandre e O Rappa têm em comum? Não tenho idéia. Provavelmente várias coisas. Talvez nada. Mas ouvindo “Muito Mais”, de João Alexandre, não consigo deixar de conjecturar sobre as similaridades entre sua linha de pensamento e as idéias encontradas na canção “Minha Alma – a paz que eu não quero,” composta por Marcelo Yuka, ex-baterista e um dos fundadores da banda carioca. As duas canções falam de uma paz que não tem nada a ver com falta de luta.
Desde os tempos do ensino básico, quando aprendemos os antônimos, a palavra paz geralmente aparece em oposição a guerra. Mas antes de chegar ao ensino médio, já sabemos que por muito menos que uma guerra perde-se a paz. Há razões de sobra. Medo de assalto, pânico de perder um ente querido, insegurança no emprego, medo do desconhecido, da solidão, de ficar sem amigos… A lista é grande. E, de repente, a palavra paz se transforma em antônimo de angústia, temor, preocupação, e sinônimo de tranqüilidade, ou, pior, acomodação.
Voltando à musica: as duas canções falam de paz, mas a forma não é nada pacífica. João Alexandre chama a atenção para a fome de pão, amor e paz que há no mundo, e questiona o tipo de cristianismo que nega a igualdade entre todos os seres humanos. Marcelo Yuka se pergunta a que preço vale conservar a paz. Afinal, quem pode encontrar paz cercado de desigualdade e injustiça por todos os lados? Que tipo de pessoa consegue se sentir em paz enquanto ignora o sofrimento alheio?
“Muito mais do que ouvir, é preciso sentir… Como ouvir e negar? Somos todos mortais!” O compositor evangélico coloca o dedo na ferida. É impossível estar alheio à penúria em que vivem milhões de brasileiros. Basta olhar por cima do muro. E assumir que “as grades do condomínio,” sobre as quais escreve Yuka, na verdade podem não ser apenas proteção, e sim o que nos aliena da realidade.
A questão não é ser capaz de enxergar, mas estar apto a tomar uma atitude, demonstrando amor “como Deus, que se fez como nós, se entregou e morreu.” Sair da zona de conforto e abrir mão do sossego. “Muito mais que sentir, é preciso lutar.” E aí está aquela palavra de novo. Mas o assunto não era paz? Pois é; acontece que tem gente lutando por paz. E nem sempre é a luta metafórica do esforço, ou do empenho por um objetivo, mas a luta armada mesmo, fazendo guerra para alcançar a paz. O maior de todos os contra-sensos.
Para quem busca a paz, aquela paz de verdade mesmo, é importante não condescender com a acomodação. Como diz a canção dO Rappa, “paz sem voz não é paz. É medo.” Se cremos que perante Deus somos todos iguais, é preciso lutar contra a injustiça, estender a mão e repartir o pão. Agindo assim, estaremos, nas palavras de João Alexandre, “transformando a fé numa grande missão.”
Sobre o autor
Mestranda pela Unicamp, professora de musica, regente do Madrigal Vox 9 e assistente do Coral Unasp, nas horas vagas é cantora. Apegada à sua privacidade, Regina resistiu enquanto pôde aos celulares e não está no Orkut, mas recentemente criou um blog.
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8 Comentários ↓
Surpreendente essa comparação!!!
mt interessante essa comparação…
nos mostra que não devemos escutar musicas seculares, mesmo com letras que falem de “paz”.
Eu discordo Cynthia, ao meu ver em nenhum momento do texto a Regina disse algo sobre não devemos escutar músicas seculares… Mas fiquei curioso para saber em que parte do texto você tirou essa conclusão?!
Puxa, que revigorante ler um texto sobre a paz que nos incita a agir na realidade em vez de ficar chovendo no molhado da acomodação. Somos cristãos, sabemos que esse estado de coisas tende a piorar, mas é nosso dever nào compartilhar com ele, e, pior, não sermos cúmplices da distribuição injusta de renda, da impunidade, da indiferença. Mesmo em músicas seculares, encontra-se alguma dose de material que pode levar à reflexão.
Concordo com o Matheus. Não percebi em momento nenhum a Regina falando que não deveríamos ouvir músicas seculares. O que ela fez foi uma relevante comparação entre a letra das duas músicas para ressaltar que a paz só pode ser alcançada em Jesus, e a partir do momento que estamos com ele podemos contribuir para que outros tenham paz.
Que maravilha entrar aqui e encontrar um texto da Regina! Deus seja louvado!
Lembro de outros excelentes textos dela que eram publicados numa antiga versão de seu site pessoal. Pena que não o são mais. Que outros surjam neste canal, então!
Sobre o texto (A Paz que Você Quer): Lembrei do que disse Jesus lá em Jo 14:27a:
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo.”
[...]
Num mundo onde se faz guerra por “paz” – “luta armada mesmo… O maior de todos os contra-sensos.”, como diz a Regina – Jesus nos deixa sua paz que, embora tenha sido alcançada de maneira pacífica (sem guerra, sem armas… como esse tipo de “paz” que o mundo dá), não se trata de uma paz ausente de luta. Pelo contrário! Pois da mesma forma que a paz de Cristo não se assemelha a esse tipo de “paz” que faz guerra armada, ela também não tem nada a ver com aquele outro tipo de “paz” cada vez mais vivido: A “paz” da proteção das grades dos condomínios e do conforto dos bancos das igrejas. A “paz” do medo e da acomodação.
A paz de Cristo não é uma “paz” que faz guerra armada, mas, também, não é uma “paz” sem voz ou uma “paz” de “sombra e água fresca”. Ele, Cristo, melhor do que qualquer um, sabe bem o que é ir além do ouvir sobre o sofrimento alheio e sentir; abrir mão do sossego, deixar a zona de conforto, não se calar diante das injustiças! Afinal de contas, Ele “se fez como nós, se entregou e morreu”. Esse é o tipo de paz que Cristo viveu e nos deixou: A paz que vem imbuída de uma grande missão.
E “o que o compositor evangélico João Alexandre e O Rappa têm em comum?” Bem, quero me arriscar numa resposta extremamente particular: No que tange às composições em questão, acredito que eles estejam usando de suas armas (em ambos os casos, a música) em prol da verdadeira paz: A Paz que Eu Quero.
Obrigado Regina e éoqhá por me proporcionarem tal reflexão. Deus os abençoe!
Entendo e sinto a sede por PAZ!!
No entando me vejo num mundo de guerra.
Vou sim lutar e fazer minha parte, mas essa realidade maravilhosa na qual fomos criados para viver, infelizmente não viveremos!!
Não aqui!
Nossa maneira de lutar pela PAZ ainda é falar do amor de Deus para que em breve, muito em breve, Ele nos leve a um lugar de eterna PAZ!
E “CYNTHIA BARBOSA”, sem comentários…:P
me chamou atenção a abordagem desse tema porque mostrou que assim como os cristaos, o mundo tambem fala de paz, e quer mudanças, atitudes. Nada de acomodação.
Nós cristaos jamais deveriamos nos acomodar e nem deixar de pregar a paz de Cristo, seguir Seu exemplo, nos envolver de forma eficaz para amenizar os sofrimentos e necessidades do proximo.
Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao proximo como a si mesmo! Que diferença haveria em nossa sociedade hoje, se estes mandamentos fossem vividos e nao somente pregados!
A fonte é Jesus. Ele nos deixou a paz…
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