Escolhi Acreditar: fé e razão
setembro 5, 2009 | por Joêzer Mendonça | 9 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark

A canção “Escolhi Acreditar”, letra de Mário Jorge Lima e música de Lineu Soares, foi gravada há dez anos, creio eu, mas é interessante constatar sua capacidade de manter-se atual. E esse talvez seja o primeiro ponto que pode ser ressaltado aqui: a capacidade que tem uma canção de manter-se relevante para uma geração acostumada a trocar de música preferida tão rapidamente. A letra aborda a fé religiosa no cenário moderno, em que os apóstolos da descrença tentam oporfé e razão, religião e ciência. Esta canção procura responder poética e teologicamente ao dualismo da religião da fé e da religião do humanismo.
Modernas teorias, novas formas de pensar
Existem por aí nos meios intelectuais
Que vão do ateísmo mais profundo e radical
Até o humanismo com tinturas sociais
Os versos acima não são comuns na música cristã contemporânea. São poucos os letristas que conseguem reunir termos como “modernas teorias” e “ateísmo” em tão poucas linhas. “Humanismo com tinturas sociais”? Missão quase impossível. Um verso diz que tais teorias nascem nos meios intelectuais, mas isto não é um sinal de antiintelectualismo do autor. O autor nota que a filosofia e a ciência podem às vezes funcionar como uma fachada para a criação de preconceitos ideológicos provenientes de um intelectualismo que aposta suas fichas num antropocentrismo estéril.
E hoje mesmo a crença tenta se modificar
E quer que o homem seja o fim da sua pregação
Senhor dos seus problemas, dos seus sonhos e ideais
Buscando aqui e agora a total libertação
John Carroll descreveu o humanismo como uma idéia de auto-suficiência humana e o estabelecimento de uma ordem inteiramente humana na terra, “em que a liberdade e a felicidade prevalecessem sem quaisquer apoios transcendentais”, ou seja, “o homem é todo-poderoso, se sua vontade for suficientemente forte”.
No entanto eu escolhi acreditar
Que existe um plano para a salvação
E que há um Deus no céu a governar o meu viver
Mas que me dá poder até pra aceitá-lo ou não
O seu reino é liberdade é amor
Espera sem forçar a decisão
Ele é descomplicado, não confunde o pecador
E fala tanto a minha mente como fala ao coração
Nessa parte, o corte é radical. A declaração de fé não surge como resultado de manipulação sobrenatural ou adesão interesseira. É uma escolha que assinala o instante em que a razão da mente une-se às razões do coração – parafraseando Descartes, a letra parece dizer que “a fé tem razões que a própria razão desconhece (fala tanto a minha mente como fala ao coração). O autor insiste em cantar que o Deus no qual escolheu acreditar é o Deus da liberdade pessoal: espera sem forçar a decisão, o que faz lembrar dos versos bíblicos “O Senhor… espera pacientemente pelo arrependimento” humano.
O ser humano hoje só volta para si
Buscando atender necessidades essenciais
Mas sem levar em conta que há uma vida superior
Que poderá suprir os seus anseios mais reais
Cada vez mais o ser humano parece perder um sentido teleológico da vida, de que sua existência possui uma finalidade ou de que a história terrestre destina-se a uma resolução última de todos os conflitos entre o Bem e o Mal. Assim, perdida a esperança, os homens se voltam para realização dos desejos acreditando que não têm mais do que esta vida, e a despenderão em agrados pessoais. O sociólogo Zygmunt Bauman afirma que a inquietação a respeito da eternidade foi retirada da agenda humana, ou que a agenda da vida está sendo elaborada “de tal modo que pouco ou nenhum tempo foi deixado para cuidar de tais inquietações”.
E há os que procuram tudo racionalizar
Só crendo no que a ciência e a cultura podem ver
Querendo um milagre pela lógica explicar
Se fecham para as coisas do espírito e da fé
Aqui, a letra aborda a falsidade da oposição entre ciência e religião. Porém, ambas podem ser distintas, mas não precisam ser excludentes. Vale ressaltar como o ateísmo proselitista de Dawkins e Hitchens menciona o pior da religião: o autoritarismo, a perseguição religiosa e política, a manipulação da boa-fé (esses termos podem ser ligados à democracia e ninguém dirá ser a favor da eliminação da democracia). E de outro lado, esses e outros autores furtam o melhor do cristianismo – tolerância, perdão, justiça, ética, liberdade de consciência – e procuram temperar sua receita de lógica humanista fechada para as coisas do espírito e da fé.
No entanto eu escolhi acreditar
E esperar assim em meu Jesus
Filósofos e mestres nunca irão avaliar
Aquilo que o amor de Deus mostrou na cruz
O meu Deus é poderoso e é real
Só nEle eu encontrei, enfim, perdão
Prefiro depender de sua força sem igual
E quero ter, então, por Ele transformado o coração
O autor, enfim, elabora uma lista de motivos de sua escolha:
O filosoficamente imensurável amor divino aceito pela fé;
A cruz como símbolo da redenção da humanidade;
A transcendência onipotente (o meu Deus é poderoso) e a imanência da presença de Deus (e é real);
O perdão como parte integrante do caráter de Deus;
A submissão do homem ao amor e poder divinos (prefiro depender…)
A conjunção entre anseio humano por ser transformado e a capacidade divina de graça transformadora.
A música separa as regiões vocais médio-graves para as estrofes onde a letra aborda os contrapontos ideológicos e filosóficos da cultura moderna em relação às escolhas da fé. A melodia sobe para regiões mais agudas quando pretende marcar as razões das escolhas da fé. Música e letra são compatíveis com a temática, equilibrando erudição e simplicidade no tratamento dos temas melódicos, poéticos e teológicos.
Sobre o autor
Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mídia, cultura e religião.
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9 Comentários ↓
Concordo. Desde 2000 ouvi e conheço essa música, muito bem cantada e aborda as vezes a postura que nós cristãos que estudamos filosofia, história, antropologia e lidamos com pessoas em que, validam o conhecimento excluindo Deus!
Essa música em especial me dá bastante conforto onde estudo numa universidade secular, num curso onde só encontrei uma adventista nesses cinco anos.
Sua abordagem é legal e um “bom comercial” dessa música que escuto muito pouco por outras pessoas!!!
Valeu
cara…parabéns….que D-s sempre lhe abençoe e ispire…essa música é uma profissão de fé para um mundo pós-moderno…contém elementos sofisticados dentro de uma elaboração poética e melódica rara…para quem estuda em faculdades seculares as palavras são bem familiares nas discussões em que temos que defender o fato de termos fé e mostrar que agimos de acordo com a mais lógica razão e bom senso…acusam-nos de ingênuos…dizem que acreditamos em alegorias( ”talvez D-s até exista”, dizem…”mas esse negócio de acreditar na Bíblia literalmente, é ingenuidade”…)…fico a pensar na diferença que é crer num D-s que antes de ser uma alegoria criou mesmo os elementos mais basilares da lógica humana…e quem sabe não as criou como uma alegoria de Si mesmo…anish kapoor diz que aprendeu que um dos nomes de D-s no judaísmo é homônimo à palavra ”Lugar”…tudo, a Causa, o Efeito, o Lugar e o Movimento…se algo foi retratado alegoricamente não foi, decerto, para ludibriar seres criados e sim, revelar um D-s Grandioso e Onipresente…
joêzer, mais uma vez obrigado….
se vc puder me mandar um link para ouvir essa música, ficaria mais agradecido ainda…
falou, cara….
fica com D-s…
danilo
danilo,
acho que vamos ter que guglear (to google) para encontrar essa obra-prima na web. mas podemos seguir a primeira lei da internética: “quem procura, acha”.
eu que agradeço sua leitura e suas palavras.
Afs! Antropocentrismo esteril? Tem maior prova de antropocentrismo do que Jesus?
PS: se escreve “joezer”: quem procura acha (sem virgula, ta?)
a minha frase diz: “preconceitos ideológicos provenientes do intelectualismo que aposta suas fichas
caro felipe,
completando:
a minha frase diz:”preconceitos ideológicos provenientes do intelectualismo que aposta suas fichas EM UM antropocentrismo estéril” (um tipo de interpretação antropocêntrica). ou seja, intelectualismo e preconceito podem forjar um tipo vago e estéril tanto de cristianismo quanto de antropocentrismo.
[...] este texto comple no site éoqhá Que tal viver até os [...]
Caro Joezer, é D+… Gosto muito das suas abordagens. Fazes analises muito profundas das musicas, seus contextos, suas entrelinhas, enfim… Leio muito os seus comentarios e analises, que Deus te abençoe.
Continue assim.. Puxas se puderess, me manda o teu email…
jaime,
agradeço a gentileza das palavras.
meu contato é joezer_7@hotmail.com
mais textos sobre música e outros assuntos você encontra no meu blog, http://notanapauta.blogspot.com
abraço
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