Malas: Quando a mala da viagem não é o substantivo em que você coloca as roupas, e sim o adjetivo para descrever a viagem

setembro 24, 2008  |  por Regina Mota  |  3 Comentários  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

Ultimamente, fazer aéreas internacionais tornou-se um teste de paciência. Não sei se é todo mundo que pensa assim, afinal, talvez existam pessoas que não se importam em ficar horas na fila, naqueles labirintos de cordinhas, em que você cruza com a mesma pessoa várias vezes (na terceira você já está quase cumprimentando, perguntando como vão os filhos… ). Ou quando a sua mala é escolhida para uma verificação mais detalhada, ou seja, para virar sitio arqueológico.

Mas, se, como eu, você se irrita com essas coisas, é preciso segurar as pontas e manter a compostura. Antes de chegar ao avião, além do check-in, você terá até três (eu disse TRÊS!) pontos de interrogatório sobre sua bagagem.

- Sua mala esteve com o senhor desde que chegou ao aeroporto?

- O senhor a manteve consigo o todo?

- O senhor observou sua mala durante todo o em que esteve no aeroporto?

E agora, José? Seus estão a mil. Você está pensando em alguns momentos em que talvez, por um acaso, seu olhar tenha se desviado da mala. Aquela hora em que passou aquela atriz famosa, ou a hora em que olhou para o pão de queijo, para não morder o dedo. Talvez tenha sido só isso… Ah, não! Teve o momento em que você achou que tinha perdido o passaporte na bagagem de mão, em meio palavras cruzadas, livros, mapas, desodorante pra passar na hora em que coisa ficar complicada, iPod, bombom que a vovó mandou…

Existem as clássicas que exigem do tipo “tolerância zero.” As companhias aéreas dizem que são necessárias por questões de segurança, mas não deixam de ser obtusas. Afinal, pra que perguntar se você tem perfume com mais de 100ml na bolsa? Não foi você que pagou o vidrão de perfume? Qual o crime de levar uma serrinha de lixar unha na bolsa? E qual é a expressão facial adequada para responder à pergunta: – A senhora está levando algum objeto explosivo?

- Sim. Estou levando uma bomba. Sou uma terrorista absolutamente comprometida com a , por isso estou lhe contando, mesmo que coloque em risco o meu tão bem planejado atentado.

Como é que alguém pode achar normal fazer esta pergunta a milhares de passageiros inocentes, que nunca cometeram qualquer crime? O fato é que, por mais que dê vontade de dar uma resposta desaforada, a melhor opção ainda é morder a língua, e responder, mesmo que com cara de poucos amigos: “Não, não estou levando objetos explosivos, meu rapaz.”

Para alguns conhecidos meus, a pior pergunta ainda está por vir.

- Foi o senhor que fez sua mala?

- Mmm… como?

- A mala. Foi o senhor quem arrumou?

Você tenta ganhar .

- Ahn… qual mala? Essa mala?

- É, senhor, que mala seria? A sua mala!

Você sente que o funcionário já está ficando sem paciência. E agora? Você é aquele cara que nunca aprendeu a fazer mala? Quem faz é sua mãe, ou sua mulher? Tsc tsc… Só resta assumir.

- Não… não fui eu. Foi minha mãe – você balbucia meio sem graça.

- Ah… – e, na sobrancelha franzida do funcionário, você percebe uma ponta de critica: “ah, tem curso superior, mas não sabe fazer a mala”.

Nada como uma viagenzinha ao exterior para testar os nervos. O que antes era chegar, entrar na fila, fazer check-in e correr pro abraço (ou, melhor, pro portão de embarque), agora virou um teste de tolerância, magnanimidade e, quem sabe, crescimento pessoal. Quem sabe você aprende a fazer a própria mala até a próxima viagem?

Foto de George Eastman House


Sobre o autor

Mota

Mestranda pela Unicamp, professora de musica, regente do Madrigal Vox 9 e assistente do Coral Unasp, nas horas vagas é cantora. Apegada à sua privacidade, Regina resistiu enquanto pôde aos celulares e não está no Orkut, mas recentemente criou um blog.


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3 Comentários ↓

#1 Carolina Cavalcanti em 25.09.08, 23:19

Não pude deixar de rir com esse texto bem humorado. A Regina tem uma facilidade imensa de colocar em palavras nossos pensamentos. Ou melhor, aquilo que pensamos mas não temos coragem de falar em voz alta – ninguém quer ser acusado de ser terrorista…

Esse é mais um exemplo típico de que é mais fácil falar sobre o cristianismo que vivê-lo. Creio que a paciência e longanimidade são atributos pouco encontrados nas pessoas hoje – pelo menos nas ruas de São Paulo especialmente quando o trânsito está congestionado…

Obrigada Regina! Que Deus continue te abençando. Aguardo ansiosamente por mais uma de suas “pérolas”… abraço!

#2 Danilo Chaves em 08.10.08, 15:26

E as coisas no mundo globalizado – a pós-modernidade tem, sim, seus pontos negativos – vão ficando cada vez mais “incomestíveis”.

Quase sempre alguém observando a abordagem do cristão nessas horas em que o grau de suportabilidade chega ao limite, pensa: “É, ele não sabia que era intolerável, foi lá e engoliu”.

Isso é o que eu chamo de genuíno testemunho, não aquele estereótipo que é medido por determinado tipo de vestuário ou gosto musical.

#3 Fabiana Macedo em 05.01.09, 14:34

KKKK q texto engraçado …
super abraçooooooooo

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