o espelho de Deus, parte dois
abril 15, 2008 | por Cândido Gomes | 3 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark
em dias como os nossos em que as pessoas se apresentam diante do mundo com seus muitos cartões, estilos, idéias, salários, diplomas, cabelos, ou mesmo orkuts, é raro encontrar alguém que se conheça. o que mais se encontra é gente frustrada, ou por não saber quem é ou por descobrir dentro de si algo diametralmente oposto ao que diz e espera ser. são pessoas boas que, num momento ou outro, se descobrem más – e a ironia da vida é descobrir que os bons também são maus -, ou pessoas ruins, que se deixam vencer pela idéia de que são piores do que pensavam. a vida é assim, reveladora. e arrisco dizer que não há um ser humano que saia da história sem notar o monstro que carrega dentro de si. parece que as pessoas mais próximas da realização são as mais sensíveis ao mal que lhes é inerente.
costumo acordar cedo. e, antes de sair do meu quarto para qualquer atividade, paro dois minutos na frente do espelho e, pelo menos, trinta diante de Deus. esse não é tanto um segredo para ser bonito, no sentido raso do termo, mas para saber quem de fato eu sou. quando dedico tempo diante da presença divina, as máscaras caem e o coração se abre. uma atitude humilde em relação a Deus e sua palavra é o único meio eficaz para alcançar auto-conhecimento.
tempos atrás, visitei um desses muitos grupos chamados AA (alcoólicos anônimos) que existem por aí. lembro que entrei naquela sala pequena e enfeitada com mais receio que curiosidade. tomei assento numa das últimas cadeiras e, aos poucos, vi chegando os interessados. uns saídos da escuridão das ruas desertas àquela hora, meio fora de si, como que denunciando uma recaída ou marcando a sua primeira visita ao lugar, outros bem diferentes: barba feita, cabelo cortado, camisa bem passada, olhar decidido, mãos firmes. um desses últimos deu-me um susto ao se dirigir à frente para dar início à reunião da noite. sentando-se numa cadeira especial, ele iniciou seu discurso, dizendo: “meu nome é josé. eu sou um alcoólatra” – palavras estranhas vindas de um homem sóbrio. ouvi muitas histórias naquela noite de segunda-feira. ouvi de pessoas que há muito tempo não punham sequer uma gota de álcool na boca, mas reconheciam-se doentes, alcoólatras, sabendo que se uma pequena janela for aberta, um “primeiro gole” for dado, um montro pode invadir novamente sua vida e destruir mais uma vez a família, as finanças, o futuro.
é assim com o pecado. é só baixar a guarda por um momento e somos dominados por um estranho mal que há dentro de nós. é preciso se conhecer bem, conhecer quem somos quando as luzes se apagam, quando os olhos não nos vêem.
diante do espelho de Deus existe uma cadeira chamada sinceridade, que arranca de mim as palavras, cheias de vergonha e verdade, “meu nome é cândido. eu sou um pecador”. reconheço que sou marcado pelo vírus do pecado. sou doente. minha carne é fraca, meu olhos, maus. reconheço que por mim mesmo não posso ser melhor do que sou.
ainda não terminou..
Sobre o autor
Observador das pequenas nuances, o estudante de teologia Cândido Gomes, nos empresta seu talento da escrita para nos presentear com reflexões semanais. Todos seus textos podem ser lido no seu blog.
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