O todo e suas partes: poesias de uma questão simples (mas complexa)
junho 27, 2008 | por Edson Nunes | 3 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark
“O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte fez todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo.”
O trecho poético acima faz parte de um soneto escrito por Gregório de Matos, poeta do barroco brasileiro e também conhecido como ‘boca do inferno’, por suas críticas satíricas ao governo e ao clero católico da época (por volta do século XVII).
A idéia que salta do texto é de um quebra-cabeça. Cada peça é essencial na solução do mesmo, ao passo em que se as peças não se conectarem, não significam nada.
Uma comunidade, seja ela qual for, é a exata materialização dessa metáfora. Pode ser uma família, uma empresa, uma igreja, um time esportivo, etc. Cada pessoa é uma parte. Cada uma representa o coletivo a que pertence. Mas ao mesmo tempo, se estas pessoas não estiverem interligadas, não são nada mais do que indivíduos solitários. A “parte sem o todo”. Daí a necessidade quase viral que temos de pertencer a alguma coisa, de fazer parte – de uma turma, de um clube, de um partido e assim por diante.
O maior problema dessa necessidade é que cada ‘parte’ traz consigo a sua totalidade, quer dizer, a sua visão do mundo, do certo, do errado. Assim, em vez de ‘partes’ diferentes, o que se formam são ‘quebra-cabeças’ com várias ‘peças’ iguais. Não há espaço para o diferente. Isso é bem claro em situações clássicas como uma guerra religiosa ou um grupo de torcedores de futebol.
Na mesma linha de Matos, o poeta americano John G. Saxe escreveu uma poesia sobre seis homens cegos que tocam partes diferentes de um elefante. Cada um deles descreve a parte tocada de uma maneira distinta (uma cobra, uma corda, uma árvore, uma parede, etc.). Discutem e não chegam a lugar nenhum. O fato é que todos estavam certos e errados ao mesmo tempo. Certos pela percepção individual que tinham, mas errados por não conseguirem enxergar (filosoficamente, é claro) um quadro maior…
Portanto, apesar de levados a crer, diária e incessantemente, que cada um é uma ilha (em oposição à poesia de John Donne, poeta inglês do século XVI), com suas verdades, suas idéias e opiniões, a realidade é que somos dependentes uns dos outros, psicológica e fisicamente. O relativismo da pós-modernidade e a globalização nada mais fizeram do que ‘tribalizar’ – juntar ‘peças’ e mais ‘peças’ iguais. Talvez neste ajuntamento resida a explicação do aumento gradativo de preconceitos históricos, xenofobia, etc.
A solução? Ver no diferente, um igual. Ver no outro um pouco de você. Entender que opostos podem ser complementares. Aplique o seguinte texto bíblico em todas as áreas de sua vida: “O certo é que há muitos membros, mas um só corpo” (1 Coríntios 12:20).
Sobre o autor
"Livros são objetos transcendentes" (c.v.). Formado em letras e teologia, atua como pastor na Beth Bnei Tsion e na Nova Semente, além de mestrando em estudos judaicos (poesia bíblica) na USP. Gosta de comer bem, fazer snowboard e ler dormindo (quem lê, entenda).
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3 Comentários ↓
Que incrível Edson! Achei interessantíssimo as ligações entre os diversos poetas de tempos e escolas distintas!
muito bom o post! nos reanima à vontade e necessidade de reconhecer e fazer reconhecer o q realmente somos: comunidade. oro a D-s cada dia pra q Ele me faça sabedor e praticante dessa ainda não-realidade. abraço!
Que bom seria se todos conseguissem: “Ver no diferente, um igual”….Incrível mesmo esse texto…
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