raiz

fevereiro 11, 2009  |  por Cândido Gomes  |  1 Comentário  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

raiz

vivi quatro anos num lugar lindo – uma fazenda escondida, no interior do estado de são paulo. ali estudei, fiz amigos e aprendi a passar tempo simplesmente notando a natureza. tem certos detalhes no espaço que fogem aos olhos apressados, mas ensinam grandes lições.

certa manhã, passando pelo mesmo caminho de sempre, reparei uma alteração na paisagem. havia uma árvore a menos, uma árvore caída.. fiquei curioso e me aproximei. é estranhamente engraçado imaginar que fiquei triste diante daquela cena.. ao analisar mais de perto as raízes apodrecidas, pensei: isto deve ter acontecido há algumas horas, mas esse processo começou há muito, muito tempo.. nenhuma árvore cai assim de repente. alguma doença mortal já vinha se desenvolvendo há anos ali. logo, as pessoas responsáveis pela limpeza do lugar foram avisadas e tudo desapareceu em poucas horas.

as coisas não são tão simples assim com as pessoas. seres humanos não nascem sozinhos, tão pouco crescem independentes uns dos outros. nossa vida é um constante entrelaçar, perder-se e encontrar-se uns nos outros. acontece que com o contar dos anos, passamos a recuar quanto à confiança em compartilhar esferas mais íntimas de nossa experiência. e aí reside um grande perigo. uma doença grave passa despercebida por dentro, sem receber cuidado algum. ninguém pode ver o que acontece por trás de nossa casca aparentemente sadia. e a erosão segue seu processo lento, silencioso e secreto.

mas certo dia há uma quebra, um rompimento súbito, inesperado – uma queda terrível que permite que todos vejam o que ninguém esperava. e como pessoas não são árvores, nunca caem sozinhas. todos os laços a sua volta são afetados. são laços de sangue, de fé, de anos de convivência ou de mera admiração. a limpeza também não é muito fácil. às vezes demora anos..

olhe bem para dentro agora mesmo. não esqueça que a erosão pode estar acontecendo mesmo enquanto as folhas são verdes e o fruto tem bom sabor. não se iluda com a idéia de que sua queda não irá afetar ninguém. olhe suas motivações, seus hábitos, seus pensamentos. aceite confrontação. olhe para dentro.. olhe com os olhos de Deus, pois ele vê o coração.

e descanse.


Sobre o autor

Gomes

Observador das pequenas nuances, o estudante de teologia Cândido Gomes, nos empresta seu talento da escrita para nos presentear com reflexões semanais. Todos seus textos podem ser lido no seu blog.


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1 Comentário ↓

#1 danilo em 12.02.09, 9:53

cândido…dizem que o sábio salomão era botânico também…talvez e ele fosse ”também” sábio…a natureza será sempre fonte de metáforas de D-s para nos ensinar lições eternas…assim a sua idéia de que, como uma árvore, do mesmo modo estamos entrelaçados a um ecosistema de relações afetivas, emocionais e espirituais é de extrema pertinência…ontem lia a ”poética do espaço” de bachelard em que ele dizia : [...]ASSIM A ÁRVORE TEM SEMPRE UM DESTINO DE GRANDEZA. ESSE DESTINO, ELA O PROPAGA. A ÁRVORE FAZ CRESCER AQUILO QUE A RODEIA…uma incrível coincidência…rs…mais uma vez obrigado pelo texto…que D-s lhe abençoe…

dani

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