Teologia do Oprimido

setembro 26, 2008  |  por Felipe Tonasso  |  2 Comentários  |  Envie por email  |  Salvar/Bookmark

Paulo Freire já passou fome, foi tido como inimigo de Deus e da pátria, e hoje é considerado ícone e pensador notável da história da pegadogia mundial. O sofrimento que experimentou trouxe força a seus ideais. Tornou-se secretário de Educação e Coordenação Geral do “Plano Nacional de Alfabetização de Adultos”. Acima da educação na letra, Paulo Freire visava a formação crítica da e o desenvolvimento da consciência dos que classificava como oprimidos.

Sua maior preocupação era o que denominava de “cultura do ”. A condição de e de passividade na qual são submergidas as grandes massas. Com frases como: “Os negros no Brasil nascem proibidos de ser inteligentes”, Paulo idealizava a conscientização dentro de um processo educacional que faz com que o sujeito primeiramente perceba com exatidão sua realidade e depois atue para transformá-la.

Permita-me ampliar um pouco mais o raciocínio, vale à pena. Paulo contrastava dois conceitos de educação. O primeiro: a “educação narrativa“, assim chamada pois envolve o conceito de um narrador (professor) e os objetos pacientes que escutam (alunos). Nela os alunos são meros receptáculos do saber. Recipientes sem luz preenchidos por comunicados do professor, não por comunicação propriamente estabelecida. A educação torna-se o ato de depositar. A relação é entre depositório e depositor. Esse é o conceito de “depósitos bancários” da educação. Já o conceito alternativo chama-se “postular problemas” e não “fazer depósitos”. A situação proposta é um diálogo, no qual professor e aluno juntos confrontam a realidade e ajudam-se mutuamente a refletir e interagir com a realidade de modo crítico.

Em seu famoso livro “pedagogia do oprimido“, uma citação resume perfeitamente as acima: “Ao passo que a educação “bancária” anestesia e inibe o poder criativo, a educação da postulação de problemas envolve o desvendamento constante da realidade. Aquela procura manter a submersão da consciência; esta esforça-se em favor da emergência e da intervenção crítica na realidade.”

Paulo Freire me ensina mais do que conceitos sociais de educação. Este paradoxo ocorre também em nossa realidade espiritual. As igrejas estão repletas de “recipientes” passivos em busca de mero preenchimento. “Cristãos depositários” que passam pela vida sem estabelecer comunicação e interação eficaz com o Depositor. Sem a percepção da realidade é impossível transformá-la. Na “teologia de Paulo Freire” é necessário o desvendamento constante da realidade e uma intervenção crítica atuante. Aluno e Mestre trabalhando juntos para transformar.

Será que o texto necessita mesmo de aplicação? Que você possa postular seus problemas e aplicar à sua consciência a ação perfeita de Deus. Estabeleça diálogo com Aquele que pode desvendar, trazer significado e transformar sua realidade hoje. Peça nova percepção a Ele e seja grato também ao marxista Paulo pelos conceitos motivadores.

“Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações: Para que o Deus de nosso Senhor Jesus , o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação.” Efésios 1.16 e 17 (de um outro Paulo)

Foto por Honest


Sobre o autor

Tonasso

Músico, compositor, blogueiro e mochileiro, formado em Ed. Art., hoje estudante de teologia e pós-graduando em aconselhamento familliar. Tonasso é amante da boa música, da arte, das pessoas e seus infinitos mundos e das coisas simples, as realmente simples.


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2 Comentários ↓

#1 Dani Q em 29.09.08, 11:59

Mais um vez agradeço e parabenizo o texto!

Aprender a contestar a mensagem é de grande importancia para o cristão, é fundamental para refletirmos sobre o assunto, entendemos com profundidade cada tema. Ainda mais hoje que somos constantemente questionados sobre a nossa fé, nossas doutrinas.

Recipientes podem ser preenchidos com água, com vinho, ou com qualquer outro liquido, mas quando debatemos o que nos é ensinado, isso traz um refinamento de conhecimentos.

Pela parte prática posso mencionar a cada lição da escola sabatina que só vemos um ou outro participando, fazendo pobre o apredizado.

Bom ter isso em todos nós.

#2 Thiago Barbosa da Silva em 30.09.08, 11:20

Ótima analogia feita entre a prática docente e a vida espiritual, aproveitando os ensinos de Freire para a fazer a ponte na busca da construção do conhecimento mais valioso, aquele que nos leva a tatear a eternidade!
A reflexão feita no texto ainda me remete a pensar: como dissipador da mensagem, como um agente da esperança, tenho eu a apresentado de forma instigante e verdadeiramente transformadora? Ou simplismente a transmitido seguindo a maneira “bancária”? Se assim tenho feito é porque em minha vida não tenho vivenciado o evangélio “postulador”, problematizador que é atuante na tranformação diária do ser, é deste que necessito e que devo viver para então, consequentemente, fazer difença no meio em que estou inserido.
Temos a “autonomia”, a escolha é nossa, é minha e se faz diária.

Ps: ” referem-se aos termos de Freire.

Tonasso, grande texto!

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