Uma vida sem limites
setembro 24, 2008 | por Joêzer Mendonça | 1 Comentário | Envie por email | Salvar/Bookmark

Nas OlimpÃadas de Pequim celebrou-se a destreza das máquinas humanas de competir. Mas nos Jogos ParaolÃmpicos é que se percebe o quão alto e nobre pode o homem chegar a ser. Nas ParaolimpÃadas não há derrotados. São todos vitoriosos por nadar contra a correnteza social, correr atrás da “normalidade” perdida, saltar os obstáculos do preconceito e voar, sim, voar para além de uma sociedade orientada para a beleza exterior e a aparência fÃsica “perfeita”.
Os atletas das ParaolimpÃadas são como a estátua grega Vitória de Samotrácia (foto). Essa estátua simbolizava as conquistas helênicas na guerra, mas foi encontrada sem algumas partes do

Vitória de Samotrácia no Louvre
corpo. Isso, porém, em nada diminuiu seu valor. A estátua, também chamada Niké (vitória, em grego), tem a incompletude formal derivada da ação da natureza, mas possui dignidade altaneira e beleza soberana.
Assim são os atletas paraolÃmpicos: perderam o controle de partes do corpo ou nem mesmo têm a totalidade de braços e pernas, mas suas simples presenças antes da largada sinalizam uma vitória pessoal irrestrita. Veja-se o nadador brasileiro Daniel Dias: suas restrições fÃsicas não lhe impedem de bater recordes. Ou os corredores cegos que sonham com as cores do mundo e conquistam, mais que tÃtulos, um novo modo de viver. Ou os cadeirantes, que trafegam velozmente pelas pistas, pelas quadras, afugentando a auto-piedade destrutiva, rodopiando em suas cadeiras a plena exaltação da vida.
O que faz com que esses atletas não se atirem para fora da vida, quando a própria vida se lhes afigura feito um portão fechado e intransponÃvel, quando lutar contra a desventura é como correr atrás do vento? João Cabral de Mello Neto oferece uma saÃda em Morte e Vida Severina:
Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
Ao ver esses atletas bailando na adversidade com tal gosto pela vida, podemos lembrar dos versos de Ferreira Gullar:
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Mesmo que o pão seja caro
E a liberdade pequena
Esses mesmos atletas valorizam cada fôlego da vida, e nada os impede de cantar que a vida é bonita, é bonita e é bonita. E quando a locomoção parece improvável e o movimento impedido, eles são capazes de conviver com restrições, fabricar outros limites e engrandecer o sentido de liberdade, descobrindo novas e especiais possibilidades.
“Tudo quanto te vier à mão, faze-o conforme tuas próprias forças” (A BÃblia).
Sobre o autor
Pianista e compositor do Curitiba Coral/IASD-Central, é também arte-educador e Mestre em Música pela UNESP. Edita o blog Nota na Pauta, onde escreve sobre atualidades e antiguidades relacionadas à mÃdia, cultura e religião.
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1 Comentário ↓
…também não tem os braços a Vênus de Milos…
a Vênus de Botticelli tem braços longos demais,e certamente ela tinha uma séria anomalia no pescoço…
o caso é que ambas são Lindas!
É verdade,Joêzer,como os preconceitos à s vezes nos impedem de ver a beleza contida em cada vida…
E quantos ensinamentos os atletas paraolÃmpicos nos legaram…É inspirador mesmo…Tem muito de D-us nisto tudo,e isso é maravilhoso….
Abração….
dani
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