Viagem
outubro 10, 2008 | por Cândido Gomes | 6 Comentários | Envie por email | Salvar/Bookmark
“o fim das coisas é melhor que o seu início” (eclesiastes 7:8).
já estava cansado. tudo que mais queria era o silêncio da poltrona número cinco. conferi o horário – meio-dia e meia. o motorista deu o último aviso.. todos entraram e o ônibus partiu. olhei pela janela. não vi ninguém. aos ouvidos, nada além do barulho da partida. nada.. até ele começar a chorar.
era um menino pequeno. ouvi a mãe comentar com a moça do banco da frente que ele tinha três anos. seus soluços se misturaram ao som do motor que o levava para longe.. eu nunca tinha visto algo parecido. não sei dos pormenores da história. nem sequer seu nome eu perguntei. não sou muito simpático em viagens.. mas uni as poucas frases soltas que me alcançaram: estavam em brasília, visitando um pedaço da família.. ali, o menino conhecera uma irmãzinha, de quem fora separado num dos atalhos escolhidos pelos pais.. nos poucos dias que passaram juntos, um encanto especial os uniu.. agora, o garoto sem-nome chorava um choro de gente grande, ao se despedir de um pedaço seu.
a mãe não sabia o que fazer. ofereceu-lhe o brinquedo novo, mas ele não quis. um biscoito, uma revista, um afago.. mas sem sucesso. nada podia aliviar a dor que nem ele sabia explicar.
olhei mais uma vez pela janela.. olhei novamente para o menino e em seus olhinhos violados pela dor consegui enxergar o menino que eu levava por dentro. e chorei.. chorei calado, sozinho, escondido. mas chorei a mesma dor.
nesses últimos anos de viagens, longe de casa, aprendi tudo que sei sobre saudade. a vida é uma eterna disputa entre sombras e cores, abraços e dores, espinhos e flores, começos e finais.. os encontros curam feridas, mas cada um deles esconde uma despedida – antes e depois – e uma nova saudade. assim, já não sei o que é pior: se o adeus que põe fim aos dias bons, ou o encontro que tão somente anuncia a próxima partida e nos assombra com a estranha sensação de que nem todo tempo é o bastante.
o início e o final das coisas se confudem dentro de nossa pequena caixa-de-areia.. são vizinhos, parecidos, inexoráveis. são resposta às maiores questões, defeito aos maiores sonhos. por um momento as palavras do sábio me pareceram derrotistas, uma escolha pequena e pouco ousada. ele preferia o final. no entanto, tudo se torna mais claro quando encaramos seu discurso numa perspectiva mais ampla, que supere em muito as dimensões de nossa existência. salomão não falava de um final qualquer – de um relacionamento, um domigo, um ano, um sonho -, mas do final de todas as coisas – o final da viagem.
não é possível ser feliz vivendo assim refém das distâncias, prisioneiro no tempo. no final, as coisas tomarão o devido lugar. e haverá lugar no espaço e no tempo para vivermos tudo que é preciso viver para ser feliz. o espaço será infinito e o tempo, eterno.
como a viagem dele terminou, eu não sei. talvez daqui a um tempo nem se lembre daquele choro.. ainda tem muitos outros para chorar.
eu não sei qual é o número da sua poltrona, nem o que leva na bagagem de suas lembranças. não sei onde foi seu último encontro, nem quando será sua próxima despedida. não sei em que estação desceu quem muito o amava, nem a que horas o assento ao lado vai ser ocupado por sua outra metade.. nada é muito certo durante a viagem. quanto a mim, quero apenas desembarcar muito logo no país onde não existe saudade.
já chegou?
Sobre o autor
Observador das pequenas nuances, o estudante de teologia Cândido Gomes, nos empresta seu talento da escrita para nos presentear com reflexões semanais. Todos seus textos podem ser lido no seu blog.
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6 Comentários ↓
Olá, Cândido Gomes!
Que mensagem maravilhosa!
Pela primeira vez, estou visitando este site e deparo com essa linda reflexão. Parabéns! Muito linda!
Também quero desembarcar muito logo nesse país onde ñ existe a saudade.
Aguardo ansiosa por esse dia.
Obrigada pela mensagem, a partir de agora serei visitadora assídua desse site.
Com certeza meu sábado será melhor.
Desejo um bom sábado!
little gidding-t.s.elliot
”we shall not cease from exploration
and the end of all our exploring
will be to arrive where we atarted
and know the place for the first time.”
versão em português:
”não cessaremos nunca de explorar
e o fi de toda a nossa exploração
será chegar ao ponto de partida
e conhecer o lugar pela primeira vez.”
e acaba assim o poema:
”all shall be well and
all manner of things shall be well.”
ou…
”tudo ficará bem e
todo tipo de coisa ficará bem”
little gidding- é uma igreja localizada em huntingdonshire, reino unido.este poema relata as experiências do poeta como voluntário na equipe civil anti-ataque aéreo durante a segunda gurra mundial.
valeu,candido,mais uma vez pela reflexão que nos inspira tantas outras…que D-s lhe abençoe…
dani
Uma mensagem profunda que mexe com todos os sentimentos e o mais doloroso …. a saudade..
amor em distância!!
Você realmente sabe como usar as palavras e toca lá no fundo com elas .
Parabéns pelo dom , que ele sempre seja usado para honra de Deus
Oi Cândido!!
vendo suas mensagens bate uma saudade dos ensaios do coral, e dos seus sempre inspiradores cultos…
gostei bastante desta porque muitas vezes me deparo em momentos nostalgicos…
e se a incerteza do futuro aumenta a dor da saudade, felizes somos pela certeza de que:
“há um país, nas terras de além rio
cheio de flores, de prazer e luz
é destinado às almas resgatadas;
lá não terão mais lutas nem mais cruz…”
obrigada por me fazer relembrar!!
que Deus te abençõe!
Concordo com a Jéssica, os cultos do coral fazem muita falta. Há tempo Bom, que não volta. Obrigada mais uma vez por seus textos tão especiais Cândido. Louvado seja Deus através do trabalho feito por você! Um abraço.
Nossa, não sei nem como começar… A realidade Cândido é que você por mais geral que seja tudo o que escreve, suas palavras mechem com meus sentimentos. Últimamente meus dias não tem sido faceis e acredite muitas noites ao orar peço que Deus me mostre o que devo fazer e entre algumas orações as respostas eu encontro em suas músicas ou aqui, neste blog onde você escreve. Muito obrigada por deixar Deus te usar para ajudar outras pessoas! Obrigada por mesmo não me conhecendo me ajudar tanto! Que Deus lhe abençõe muito!
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